O ciclo do fósforo no solo, do adubo até a raiz
O fósforo é o nutriente que mais separa a teoria da prática no Cerrado. A planta precisa de pouco, o solo tem bastante em termos totais, e mesmo assim a resposta à adubação fosfatada é uma das maiores que existem por aqui. A explicação está no caminho que o P percorre entre o grânulo e o pelo radicular.
As formas de fósforo no solo
Vale pensar em compartimentos que trocam entre si, com velocidades muito diferentes:
- P em solução: as formas que a raiz efetivamente absorve, os íons ortofosfato H₂PO₄⁻ e HPO₄²⁻. Em pH ácido, típico do Cerrado, predomina o H₂PO₄⁻. A concentração em solução é baixíssima, muito abaixo do que a planta precisa acumular ao longo do ciclo, o que significa que essa reserva é reposta muitas vezes durante a safra.
- P lábil: adsorvido de forma reversível na superfície dos coloides. É o estoque que repõe a solução conforme a raiz absorve.
- P não lábil: ligado com força alta a óxidos de ferro e alumínio, ou ocluso dentro de partículas. Sai muito devagar, ou não sai.
- P orgânico: em solo sob plantio direto consolidado pode responder por parcela relevante do P total, e é liberado por fosfatases de microrganismos e da própria raiz.
Por que o fósforo do Cerrado é difícil
Latossolos e Neossolos Quartzarênicos do Cerrado são solos muito intemperizados. A fração argila é dominada por caulinita, goethita, hematita e gibbsita. Esses óxidos têm grupos hidroxila de superfície que trocam ligante com o fosfato, formando primeiro uma ligação monodentada e depois, com o tempo, uma bidentada bem mais estável.
Esse envelhecimento da ligação é o motivo pelo qual o P aplicado hoje fica menos disponível a cada mês, mesmo sem nenhuma planta ter absorvido. Não é sumiço, é química de superfície.
Quanto mais argiloso e mais oxídico o solo, maior a capacidade de adsorção. Interpretar teor de P sem olhar textura é erro grosseiro: o mesmo valor no laudo significa coisas diferentes em solo arenoso e em solo muito argiloso.
Como o P chega na raiz: difusão, não fluxo de massa
Nutrientes chegam ao pelo radicular por interceptação radicular, fluxo de massa e difusão. Para o fósforo, a difusão é o mecanismo dominante, de longe.
Isso tem três consequências práticas que mudam decisão a campo:
- Distância importa muito. A raiz só acessa o P que está a poucos milímetros dela. Volume de raiz explorando o solo vale mais do que teor médio no laudo.
- Umidade importa muito. Difusão acontece em fase líquida e praticamente para quando o solo seca. Em veranico, o P do laudo continua lá e a planta fica sem.
- Micorrizas ajudam de verdade. As hifas ampliam o volume explorado além da zona de depleção que se forma ao redor da raiz.
Localizado ou a lanço
Em solo pobre em P e com alta capacidade de adsorção, aplicar no sulco reduz o contato entre adubo e solo, satura localmente os sítios de adsorção e deixa mais P disponível por unidade aplicada. É a estratégia de construção inicial.
Em área já corrigida, com teor de P construído e sistema radicular bem distribuído, a aplicação a lanço passa a fazer sentido, porque o objetivo deixa de ser proteger o adubo e passa a ser manter o nível do sistema. A escolha depende do estágio da área, não de preferência pessoal.
Ler o teor de P no laudo
O número só significa alguma coisa junto com o extrator. O sistema da Embrapa Cerrados usa Mehlich-1, um extrator ácido. O Boletim 100 do IAC usa resina trocadora de íons. As tabelas de interpretação não são intercambiáveis.
Um detalhe que engana muita gente: em área que recebeu fosfato natural, o Mehlich-1 tende a dissolver parte da rocha ainda não reagida e devolver um teor otimista, que não corresponde ao que a planta vai encontrar. Na interpretação por Mehlich-1 é indispensável considerar a textura ou o fósforo remanescente.
Conversão de garantia para elemento
A garantia comercial vem em P₂O₅ e a interpretação agronômica trabalha com P. A conversão é direta:
- P₂O₅ para P: multiplique por 0,4364.
- Para o caminho inverso, de P para P₂O₅, divida por 0,4364.
Exemplo: 100 kg/ha de P₂O₅ equivalem a cerca de 43,6 kg/ha de P. Confundir os dois erra a dose em mais de duas vezes, para mais ou para menos.
No Cerrado, adubação fosfatada não é aplicação anual isolada. É construção de estoque, e estoque se constrói com balanço positivo ao longo de safras.
Para o detalhe da adsorção, veja fixação de fósforo em solo de Cerrado. Para ler o laudo inteiro na ordem certa, como interpretar o laudo de análise de solo.
Referências: Sousa, D. M. G.; Lobato, E. (org.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Embrapa Cerrados, 2004. Raij, B. van et al. Boletim Técnico 100. IAC, 1997.
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