Glossário técnico de análise de solo

Definições, fórmulas e faixas ideais dos termos que aparecem no laudo e nas recomendações do SoloLab. Fonte: Sousa & Lobato (Embrapa) e Boletim 100 (IAC).

Química do solo

pH em CaCl₂

Definição: grau de acidez do solo, medido em suspensão de cloreto de cálcio 0,01 mol/L. Escala de 0 a 14 (7 é neutro).

Interpretação (Cerrado):

  • < 4,3: muito baixo, alumínio tóxico em disponibilidade alta
  • 4,4 a 5,0: baixo, precisa calagem
  • 5,1 a 5,5: adequado pra maioria das culturas
  • 5,6 a 6,0: alto, ótimo pra cultura exigente
  • > 6,0: muito alto, cuidado com deficiência de micronutrientes

Fonte: Sousa & Lobato (2004), Tabela 2.

H+Al (Acidez potencial)

Definição: soma de hidrogênio e alumínio trocável no solo, expressa em cmolc/dm³. Representa a "reserva" de acidez que ainda precisa ser neutralizada.

Uso: entra no cálculo da CTC potencial (T) e da necessidade de calagem pelo método SMP.

Al (Alumínio trocável)

Definição: alumínio na fase trocável do solo, expresso em cmolc/dm³. Tóxico pras raízes em concentrações altas.

Interpretação:

  • ≤ 0,2 cmolc/dm³: baixo
  • 0,3 a 0,5: médio
  • > 0,5: alto, causa "encurtamento" de raízes

MO (Matéria orgânica)

Definição: teor de matéria orgânica no solo, expresso em % ou dag/kg. Importante fonte de N, S e micronutrientes.

Interpretação:

  • < 1,5 dag/kg: baixo
  • 1,5 a 3,0: médio
  • > 3,0: alto, sistema com bom manejo

Derivados calculados

SB (Soma de bases)

Fórmula: SB = Ca + Mg + K (em cmolc/dm³).

O que mede: quantidade de bases trocáveis disponíveis. Usada pra calcular V% e t.

T (CTC potencial, a pH 7)

Fórmula: T = SB + (H+Al)

O que mede: capacidade total do solo de reter cátions, incluindo a acidez potencial. É a base pro cálculo de V%.

t (CTC efetiva)

Fórmula: t = SB + Al

O que mede: CTC atuante no pH atual do solo. Menor que T. Base pro cálculo de m%.

V% (Saturação por bases)

Fórmula: V% = (SB / T) × 100

Interpretação:

  • < 20%: muito baixa, calagem urgente
  • 20 a 40%: baixa
  • 40 a 60%: média
  • 60 a 80%: adequada
  • > 80%: alta, pode ter deficiência de micros

Essas faixas servem para ler o laudo. A meta da calagem é outra coisa: no Cerrado, Sousa & Lobato indicam V% de 50% para a maioria das culturas anuais em sequeiro e 60% em irrigado, 60% para o café e 30% para a mandioca.

m% (Saturação por alumínio)

Fórmula: m% = (Al / t) × 100

Interpretação:

  • ≤ 10%: adequada pra maioria das culturas
  • 10 a 20%: preocupante pra culturas sensíveis
  • > 20%: tóxico, prioridade em correção com calagem

Relação Ca/Mg

Fórmula: Ca ÷ Mg (em cmolc/dm³).

Interpretação: a faixa de conforto vai de 2 a 6. Acima de 4, o cálculo prefere calcário dolomítico, para repor magnésio junto com o cálcio; abaixo disso, com o Mg adequado, o calcítico basta. Fonte: Sousa & Lobato (2004), Cap. 3.

Relação Ca/K, Mg/K

Ideal: Ca/K entre 12-30; Mg/K entre 4-10. Fora indica desequilíbrio na adubação potássica.

Nutrientes primários

Ca (Cálcio)

Fonte: principalmente calcário (calagem). Também gesso.

Interpretação (cmolc/dm³): baixo < 1,5 · adequado 1,5 a 4,0 · alto > 4,0.

Mg (Magnésio)

Fonte: calcário dolomítico ou magnesiano.

Interpretação (cmolc/dm³): baixo < 0,5 · adequado 0,5 a 1,0 · alto > 1,0.

K (Potássio)

Fonte: Cloreto de potássio (KCl), sulfato de potássio (K₂SO₄).

Interpretação (mg/dm³, Mehlich-1, Cerrado): depende da CTC a pH 7,0 (T). São quatro classes, não cinco.

  • CTC abaixo de 4,0 cmolc/dm³: até 15 baixo · 16 a 30 médio · 31 a 40 adequado · acima de 40 alto
  • CTC de 4,0 para cima: até 25 baixo · 26 a 50 médio · 51 a 80 adequado · acima de 80 alto

Fonte: Sousa & Lobato (2004), Cap. 7, Tab. 5, p. 181.

P (Fósforo)

Fonte: Superfosfato simples (SS), superfosfato triplo (SFT), MAP, DAP.

Interpretação (mg/dm³, Mehlich-1): depende da argila, e ao contrário do que parece: quanto mais argila, menor o teor que já conta como adequado, porque o solo argiloso fixa parte do fósforo e o Mehlich-1 extrai menos. Em sequeiro, a classe Adequado começa em:

  • argila até 15% (arenoso): 18 mg/dm³
  • argila de 15 a 35%: 15 mg/dm³
  • argila de 35 a 60%: 8 mg/dm³
  • argila acima de 60% (muito argiloso): 4 mg/dm³

Em cultivo irrigado os limites são mais altos. Fonte: Sousa & Lobato (2004), Cap. 6. É esta a tabela que a Recomendação usa, então o valor que aparece lá é o que vale.

N (Nitrogênio)

Fonte: Uréia (45% N), sulfato de amônio (21% N), nitrato de amônio (32% N).

Não é analisado no laudo comum (é volátil). Recomendação é feita pela cultura, expectativa de rendimento e presença de leguminosa anterior.

Física do solo

Argila

Definição: partícula menor que 0,002 mm. Retém água e nutrientes.

Classes: arenoso < 15% · médio 15-35% · argiloso 35-60% · muito argiloso > 60%.

A classe textural define as faixas de interpretação de P e outros ajustes.

Silte e Areia

Silte: partícula 0,002-0,05 mm. Areia: 0,05-2 mm.

Junto com argila, define a classe textural pelo triângulo de textura.

Adubação e correção

Calagem

O quê: aplicação de calcário pra corrigir a acidez do solo e elevar V% ao nível adequado.

Cálculo (método SB, Cerrado): NC = (V₂ − V₁) ÷ 100 × T × f, com f = 100 ÷ PRNT. NC é a necessidade de calagem em t/ha, T a CTC a pH 7 e V₁ e V₂ as saturações por bases atual e desejada.

Tipos: calcítico (>Ca), dolomítico (>Mg), magnesiano.

Gessagem

O quê: aplicação de gesso agrícola (sulfato de cálcio). Melhora subsolo, reduz Al tóxico em profundidade, fornece Ca e S.

Quando aplicar: em alguma camada até 60 cm, saturação por alumínio (m%) > 20% OU Ca < 0,5 cmolc/dm³. O SoloLab acrescenta um terceiro gatilho, mais conservador: Al³⁺ > 0,5 cmolc/dm³.

Dose: ~50 kg/ha por 1% de argila (regra rápida do Cerrado).

Adubação corretiva (P e K)

O quê: aplicação em área total pra elevar teor de P e K ao nível de "manutenção". Feita antes do plantio.

Usada quando os teores estão baixo/muito baixo. Dose depende da argila e do teor atual.

Adubação de manutenção

O quê: dose que repõe o que a colheita exporta. Aplicada quando solo já está com teores adequados.

Adubação de semeadura

O quê: aplicação de N-P-K no sulco ou junto da semente, na hora do plantio.

Adubação de cobertura

O quê: aplicação superficial (geralmente N) após a emergência da cultura.

Fontes e insumos

PRNT

Sigla: Poder Relativo de Neutralização Total.

O quê: percentual de eficácia real do calcário, considerando a granulometria (RE) e o poder de neutralização (PN).

Uso: se o calcário tem PRNT 80%, você precisa aplicar mais do que 100% de PRNT ideal. Fórmula: Dose ajustada = Dose base / (PRNT/100).

Uréia

Fonte de N com 45% de nitrogênio. Baixo custo por kg de N. Sujeita a volatilização se não incorporada.

Superfosfato triplo (SFT)

Fonte de P com 41-46% de P₂O₅. Sem cálcio no rótulo mas contém Ca (pouco).

Cloreto de potássio (KCl)

Fonte principal de K, com 58-62% de K₂O. Contém cloro.

MAP e DAP

MAP: Fosfato Monoamônico. 9% N + 48% P₂O₅.

DAP: Fosfato Diamônico. 18% N + 46% P₂O₅.

NPK formulado

Adubo com N, P e K combinados. Ex: 04-30-10 = 4% N + 30% P₂O₅ + 10% K₂O.

Mehlich-1 vs Resina

Métodos de extração de P e K do solo. Mehlich-1 é padrão no Cerrado; Resina é padrão em São Paulo (IAC). Os valores não são intercambiáveis diretamente.

Regiões e sistemas

Cerrado

Bioma que ocupa cerca de 24% do território brasileiro. Solos geralmente ácidos, com baixa CTC, altos teores de Al e baixa disponibilidade de P. Grande produtor de grãos.

MATOPIBA

Sigla para Maranhão + Tocantins + Piauí + Bahia. Fronteira agrícola recente do Cerrado brasileiro. Principais cultivos: soja, milho, algodão.

Sequeiro vs Irrigado

Sequeiro: depende só da chuva. Rendimentos típicos: soja 50-70 sc/ha, milho 100-130 sc/ha.

Irrigado: tem irrigação suplementar. Rendimentos: soja > 70 sc/ha, milho > 150 sc/ha. Doses de adubo são maiores.

Sistema plantio direto

Semeadura direta na palhada da cultura anterior, sem revolvimento do solo. Aumenta MO, reduz erosão. Padrão atual em grande parte do Cerrado.

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