Fundamento

Condutividade elétrica do solo: o que ela mede e quando pedir

Condutividade elétrica é a medida da capacidade de uma solução conduzir corrente, e essa capacidade é proporcional à concentração de íons dissolvidos. Aplicada ao solo, a CE responde uma pergunta simples e útil: quanto sal existe na solução que a raiz está enfrentando? O que ela não responde é qual sal.

O que a CE mede e o que não mede

A CE é indicador de concentração total de eletrólitos. Ela não distingue cloreto de sulfato nem sódio de potássio. Um solo com CE alta por excesso de adubação potássica e outro com CE alta por sódio de água salina dão leituras parecidas e exigem manejos opostos.

Por isso a CE quase nunca é pedida sozinha. Ela funciona como rastreio: se acusa, você vai atrás dos cátions e ânions solúveis e do sódio trocável para saber a natureza do problema.

A unidade usual é dS/m (decisiemens por metro), numericamente igual ao antigo mmho/cm. A leitura é sensível à temperatura, e por isso os resultados são padronizados a 25 °C.

O método muda o número, e muito

Este é o ponto que mais gera comparação indevida entre laudos.

Um valor obtido em 1:5 não pode ser comparado com uma tabela feita para extrato de saturação. Existem fatores de conversão publicados, mas dependem de textura e de composição do sal, então são aproximações e não equivalências. Confirme o método antes de interpretar.

O limite clássico de salinidade

A classificação consagrada, de Richards (1954) e do laboratório de salinidade do USDA, adotada de forma ampla no Brasil, considera solo salino aquele com CE do extrato de saturação igual ou maior que 4 dS/m a 25 °C, com percentagem de sódio trocável baixa e pH abaixo de 8,5.

Duas ressalvas honestas sobre esse número. Primeira: o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos trabalha com limites próprios para caráter salino e sálico, então o critério muda conforme a finalidade. Segunda, e mais importante para o campo: 4 dS/m não é um interruptor. A tolerância varia muito entre culturas, e espécies sensíveis já perdem produtividade bem abaixo desse valor, enquanto tolerantes seguem produzindo acima dele. Qualquer faixa é referência geral e precisa ser lida junto com a cultura, a textura, o manejo de irrigação e o clima local.

Por que o sal atrapalha

  1. Efeito osmótico. Sal na solução reduz o potencial osmótico e dificulta a absorção de água pela raiz. A planta murcha com solo úmido, é a chamada seca fisiológica.
  2. Toxicidade iônica específica. Cloreto, sódio e boro em excesso causam dano direto, com necrose de bordo de folha típica.
  3. Desequilíbrio nutricional. Excesso de um cátion desloca a absorção de outros, tipicamente prejudicando cálcio e potássio.

Quando pedir CE

Em lavoura de sequeiro no Cerrado, com chuva concentrada lavando o perfil todo ano, salinidade não é problema geral. Ela aparece quando a irrigação entra, quando a evaporação supera a lixiviação ou quando se concentra sal em excesso num ponto.

Cuidado com sensor de CE em agricultura de precisão

Os equipamentos de mapeamento de CE aparente do solo, por indução eletromagnética ou por contato, não estão medindo salinidade na maioria dos usos brasileiros. A leitura responde principalmente a teor de argila e a umidade, e é justamente por isso que funcionam tão bem para delimitar zonas de manejo.

Usar mapa de CE aparente como diagnóstico de sal, sem amostragem de solo confirmando, é interpretar o instrumento fora do contexto para o qual ele foi construído.

Amostragem: onde coletar muda tudo

Em área com gotejamento, colete separadamente no bulbo molhado, na borda do bulbo e na entrelinha. O sal se concentra na borda, onde a frente de umedecimento para. Amostra composta misturando esses três pontos apaga exatamente o que você está procurando.

CE alta é sinal, não é diagnóstico. Ela diz que existe sal em excesso. Quem diz o que fazer é a análise dos íons e do sódio trocável.

Veja também salinidade do solo em área irrigada e como interpretar o laudo de análise de solo.

Referências: Richards, L. A. (ed.). Diagnosis and improvement of saline and alkali soils. USDA Agriculture Handbook 60, 1954. Sousa, D. M. G.; Lobato, E. (org.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Embrapa Cerrados, 2004.

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