Prática

Como converter P₂O₅ em P e K₂O em K sem errar a conta

O laudo de solo reporta fósforo e potássio na forma elementar, P e K. O saco de adubo, a recomendação e a nota fiscal falam em P₂O₅ e K₂O. Essa herança de mais de um século da indústria de fertilizantes continua viva e gera erro todo dia, principalmente quando alguém compara valores das duas línguas sem traduzir.

Os fatores exatos

DeParaMultiplique por
P₂O₅P0,4364
PP₂O₅2,2914
K₂OK0,8301
KK₂O1,2046

De onde saem esses números: a molécula de P₂O₅ tem dois átomos de fósforo, e a massa desses dois átomos representa pouco menos de 44% da massa da molécula inteira. O restante é oxigênio. No K₂O a proporção é maior, cerca de 83%, porque o potássio é pesado em relação ao oxigênio que carrega. Por isso o fator do fósforo derruba bem mais o número que o do potássio.

Duas consequências práticas que vale gravar: P₂O₅ é sempre um número maior que o P correspondente, e K₂O é sempre maior que o K correspondente. Se a sua conversão aumentou o valor ao ir para a forma elementar, você inverteu o fator.

Exemplos resolvidos

Da recomendação para o elemento

Do elemento para a recomendação

Lendo um formulado

Um formulado 04-30-10 significa 4% de N, 30% de P₂O₅ e 10% de K₂O em massa. Aplicando 300 kg/ha do produto:

NutrienteNa forma do rótuloNa forma elementar
N12 kg/ha12 kg/ha de N
P90 kg/ha de P₂O₅39,3 kg/ha de P
K30 kg/ha de K₂O24,9 kg/ha de K

O nitrogênio é o único dos três que já vem elementar no rótulo. Não existe conversão a fazer para o N.

Calculando a dose do produto

O caminho inverso é o que você usa na hora de comprar. Se a recomendação é de 90 kg/ha de P₂O₅ e o superfosfato triplo do fornecedor garante 41% de P₂O₅, a dose do produto é 90 dividido por 0,41, ou seja, 220 kg/ha. Com um superfosfato simples de 18%, os mesmos 90 kg/ha de P₂O₅ exigiriam 500 kg/ha de produto.

A garantia do rótulo é sempre em P₂O₅ e K₂O, então essa conta se faz na língua do rótulo, sem converter para elementar. Converter no meio do caminho é uma das formas mais comuns de errar por um fator de duas vezes.

A armadilha que realmente pega gente

Existe um erro bem mais grave que trocar fator: comparar o teor de fósforo do laudo com a dose de fósforo do adubo. São grandezas de natureza diferente.

Dá para fazer a ponte aritmética entre elas, e ela é simples: um hectare na camada de 0 a 20 cm tem dois milhões de decímetros cúbicos de solo, então 1 mg/dm³ corresponde a 2 kg/ha naquela camada. Um solo com 6 mg/dm³ de P tem, em números redondos, 12 kg/ha de P disponível em 0 a 20.

Agora o aviso que importa: essa conta não é a dose de adubo. Se você aplicar 12 kg/ha de P nesse solo, o teor não sobe para 12 mg/dm³. Boa parte do fósforo aplicado é adsorvida pelos óxidos de ferro e alumínio do solo e não aparece no próximo laudo. Quanto mais argiloso e mais intemperizado o solo, maior essa parcela. É o assunto de fixação de fósforo no Cerrado e a razão de existir a adubação corretiva, que é bem maior que a de manutenção.

Conversão de unidade é aritmética. Dose de adubo é agronomia. Confundir as duas é o erro mais caro dessa área do laudo.

Checklist antes de fechar a conta

  1. Confirme se o número é elementar ou óxido. Recomendação e rótulo quase sempre estão em óxido.
  2. Faça a conta de dose de produto na língua do rótulo, em P₂O₅ e K₂O.
  3. Confira a garantia real no saco. Concentração varia entre fornecedores e entre lotes.
  4. Nunca use o teor do solo como se fosse dose. Use a tabela de recomendação correspondente ao extrator do seu laudo.

Para o contexto completo, veja o significado de cada coluna do laudo e como interpretar o laudo por inteiro.

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