Granulometria do calcário: por que o pó fino reage antes
Dois calcários podem ter a mesma quantidade de cálcio e de magnésio e mesmo assim corrigir a acidez em ritmos completamente diferentes. A diferença está na granulometria, o tamanho das partículas. Pó fino reage rápido; partícula grossa demora, quando reage. Entender isso muda a escolha do produto e a expectativa de resultado.
Por que o tamanho da partícula manda
Calcário é pouco solúvel. A reação com a acidez acontece na superfície das partículas, em contato com o solo úmido. Quanto menor a partícula, maior a superfície exposta por quilo de material, e mais rápido ele reage. Uma partícula grossa tem pouca área para o volume que ocupa, então boa parte do seu cálcio fica indisponível por muito tempo, às vezes por safras.
É a mesma lógica do açúcar: o cristal grosso demora a dissolver, o de confeiteiro some na hora. Mesma substância, velocidade diferente.
Como a legislação mede isso
A legislação brasileira de corretivos agrícolas classifica o calcário por peneiras e atribui a cada fração uma eficiência relativa (RE), que estima quanto daquela fração reage num prazo agronômico. Os valores são os da norma:
| Fração | Eficiência relativa |
|---|---|
| Retida na peneira de 2 mm (ABNT 10) | 0% |
| Passa em 2 mm e fica retida em 0,84 mm (ABNT 20) | 20% |
| Passa em 0,84 mm e fica retida em 0,30 mm (ABNT 50) | 60% |
| Passa na peneira de 0,30 mm (ABNT 50) | 100% |
Repare no extremo: o que fica retido na peneira de 2 mm conta como zero. É material que, para efeito de correção no curto prazo, não trabalha. Você pagou frete e aplicação por partícula que quase não reage.
Na prática, um calcário reativo concentra a maior parte da massa nas frações finas, as que passam nas peneiras menores. Ao ler o rótulo, o produtor atento não olha só o teor de cálcio e magnésio: olha também a distribuição granulométrica, porque é ela que diz quanto daquele material está nas frações que de fato reagem dentro da safra. Dois sacos com a mesma análise química podem ter granulometrias bem diferentes.
Da granulometria ao PRNT
A reatividade que vem da granulometria (a RE) se junta ao poder de neutralização (PN), que mede quanto de acidez o material neutraliza pela sua química. Os dois entram num só número, o PRNT:
PRNT = PN × RE / 100
O PRNT é o poder relativo de neutralização total, e é ele que diz quanto do calcário efetivamente corrige. Um material com PN alto mas granulometria grosseira pode ter PRNT baixo, porque a partícula grande não reage. É por isso que tanto Sousa & Lobato (2004), da Embrapa Cerrados, quanto o Boletim 100 do IAC (Raij et al., 1997) calculam a dose de calcário já ajustada pelo PRNT do produto. O que o PRNT significa e como usá-lo está em PRNT do calcário: o que é.
O reflexo no tempo de reação
Granulometria não muda só quanto reage, muda quando reage. Um calcário mais fino corrige mais cedo; um mais grosso vai liberando ao longo das safras, o que pode até ser desejado em manutenção, mas é ruim quando você precisa da correção para a safra atual. Esse componente de tempo é tratado em tempo de reação do calcário no solo.
O que isso muda na prática
Ao comparar dois calcários, não olhe só o preço por tonelada. Um produto mais barato com PRNT baixo pode sair mais caro por unidade de acidez corrigida, além de reagir devagar. O cálculo da dose já parte do PRNT justamente para colocar todos os produtos na mesma base de comparação. Como esse cálculo é feito está em como calcular a dose de calcário pelo V%.
Não existe calcário bom ou ruim no abstrato. Existe o PRNT, que junta química e granulometria num número. É por ele, e não pelo preço da tonelada, que se compara.
Leia também sobre PRNT: o que é o PRNT, como ele é calculado, PN e RE, por que 90% não é 100% e o que a chuva faz com a pilha.
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