Por que o nitrogênio não aparece na análise de solo
É uma das primeiras perguntas de quem começa a ler laudo: tem pH, tem P, tem K, tem Ca, Mg, Al, enxofre, micronutrientes, e cadê o nitrogênio? Não é esquecimento do laboratório nem economia de análise. É uma decisão técnica bem fundamentada, e entender o motivo muda a forma como você planeja a adubação nitrogenada.
Onde está o nitrogênio do solo
A grande maioria do nitrogênio do solo está na forma orgânica, dentro da matéria orgânica, dos resíduos em decomposição e da biomassa microbiana. A fração mineral, que é a que a planta absorve, são o amônio (NH₄⁺) e o nitrato (NO₃⁻), e ela representa parcela pequena do total.
Essa parcela pequena é justamente a que interessa e a que não se deixa medir de forma útil.
Três motivos técnicos
1. O número muda em dias, às vezes em horas
Mineralização, imobilização, nitrificação, absorção pela planta, lixiviação de nitrato, desnitrificação e volatilização acontecem ao mesmo tempo e respondem a temperatura e umidade. Um teor medido na segunda-feira pode não valer na sexta. Recomendar dose para o ciclo inteiro com base num instante não faz sentido agronômico.
2. A amostra continua reagindo dentro do saco
Entre a coleta e a bancada do laboratório, a amostra passa por transporte, aquecimento e mudança de aeração. A atividade microbiana não para. O resultado que sai é o do saco, não o do campo. Para P e K isso não é problema, porque são formas estáveis, mas para nitrogênio mineral é fatal.
3. Não existe calibração confiável para condição tropical
Análise de solo só vale como ferramenta de recomendação quando existe curva de calibração ligando o teor medido à resposta da cultura em campo, repetida em muitos locais e anos. Para P e K esse trabalho foi feito, e é dele que saem as tabelas de Sousa & Lobato e do Boletim 100. Para nitrogênio mineral em clima tropical, a correlação entre o teor medido e a resposta é fraca e instável. Medir por medir gera número sem decisão associada.
O que se usa no lugar
Matéria orgânica como indicador de potencial
O teor de matéria orgânica do laudo é o melhor indicador prático de estoque e de potencial de mineralização de nitrogênio. Ele não diz quanto N será liberado nesta safra, mas separa solo com capacidade de suprimento de solo sem capacidade nenhuma.
Vale saber como esse número chega ali. O laboratório determina carbono orgânico, por oxidação úmida ou por combustão seca, e converte para matéria orgânica pelo fator clássico de 1,724, que assume cerca de 58% de carbono na matéria orgânica. É aproximação antiga e reconhecidamente imperfeita, mas é o padrão que sustenta as tabelas de interpretação em uso, então mantenha coerência com o método do laboratório.
Cultura anterior e relação C/N do resíduo
O resíduo que ficou no campo define se o sistema vai liberar ou consumir nitrogênio nas primeiras semanas.
- Resíduo de leguminosa tem relação C/N baixa e mineraliza rápido, liberando N.
- Resíduo de gramínea, principalmente palhada madura de milho e de braquiária, tem relação C/N alta. A microbiota precisa de N para decompor esse carbono e imobiliza nitrogênio mineral do solo temporariamente.
O ponto de virada entre mineralização e imobilização líquida costuma ser situado numa relação C/N em torno de 25 a 30. É referência geral, que varia com a qualidade do resíduo, com lignina e polifenóis e com a temperatura. Na prática, é isso que justifica antecipar parte do N em sucessão sobre palhada de gramínea.
Histórico, expectativa de produtividade e fixação biológica
A recomendação de nitrogênio no Brasil parte de expectativa de produtividade, histórico da área, cultura anterior e sistema de manejo, e não de um teor de laudo. No caso da soja bem nodulada por Bradyrhizobium japonicum e Bradyrhizobium elkanii, a fixação biológica supre a demanda da cultura, e a adubação nitrogenada mineral não é recomendada, porque tende a inibir a nodulação sem ganho de produtividade.
E os testes de nitrogênio mineral
Existem abordagens que usam N mineral, como a amostragem de nitrato em camada profunda em regiões de clima temperado e seco, e os indicadores de nitrogênio potencialmente mineralizável. Elas funcionam onde o inverno frio congela o processo e o nitrato do outono permanece onde estava. No Cerrado, com solo quente e úmido, essa premissa não se sustenta.
Não é que o nitrogênio seja menos importante. É que ele é dinâmico demais para caber num número de laudo.
Para o mapa completo das transformações, veja o ciclo do N no solo. Para entender o que o teor de MO significa, matéria orgânica no laudo. Para ler o laudo na ordem certa, interpretar laudo de análise de solo.
Referências: Sousa, D. M. G.; Lobato, E. (org.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Embrapa Cerrados, 2004.
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