Porosidade do solo: o equilíbrio entre ar e água que a raiz precisa
Quando se fala em física do solo, quase todo mundo pensa em compactação. Mas compactação é consequência. A variável que a raiz sente de fato é a porosidade, e principalmente como esse espaço vazio está repartido entre poros grandes e poros pequenos.
A conta é simples
Porosidade total é a fração do volume do solo que não é sólido. Ela é obtida a partir de duas densidades:
Porosidade total = 1 menos (densidade do solo dividida pela densidade de partícula)
A densidade de partícula é a densidade dos minerais em si, e para solos minerais usa-se como referência um valor próximo de 2,65 g/cm³. A densidade do solo é a massa seca dividida pelo volume total, coletada com anel volumétrico, e é ela que muda com o manejo. Quando a densidade do solo sobe, a porosidade total cai. Direto.
Macroporo e microporo fazem trabalhos diferentes
A separação usual é por diâmetro, com o limite convencional de 0,05 mm:
| Classe | Comportamento | Função |
|---|---|---|
| Macroporos | Esvaziam por gravidade após a chuva | Aeração, infiltração rápida, caminho preferencial da raiz |
| Microporos | Retêm água contra a gravidade | Armazenamento de água disponível |
Aí está o ponto que mais gera confusão: porosidade total alta não garante nada. Um solo compactado pode manter porosidade total razoável e ainda assim asfixiar a raiz, porque a compressão fecha justamente os macroporos e converte parte deles em microporos. O total cai pouco, a aeração desaba.
Existe uma referência bastante citada na literatura de física do solo de que a aeração adequada para a maioria das culturas exige em torno de 10% do volume em macroporos, ou seja 0,10 m³/m³ de porosidade de aeração na capacidade de campo. Trate esse número como ordem de grandeza, porque o valor crítico varia com a cultura, com a textura e com a duração do período úmido.
Por que a raiz precisa de ar
Raiz respira. Ela consome oxigênio e libera gás carbônico, e é a respiração que fornece a energia para a absorção ativa de nutrientes. Quando a aeração cai:
- A absorção de nutrientes cai antes de a planta murchar, porque falta energia para o transporte ativo.
- Aumenta a desnitrificação, com perda de nitrogênio na forma de gás.
- Formas reduzidas de ferro e manganês se acumulam, podendo chegar a níveis tóxicos.
- Doenças de raiz favorecidas por excesso de água ganham espaço.
Por isso planta em solo encharcado amarelece parecendo falta de nitrogênio. Muitas vezes o nitrogênio está lá, o que falta é oxigênio para absorvê-lo, e parte dele já se perdeu.
O caso do Latossolo do Cerrado
O Latossolo argiloso é um caso interessante. Pela textura, ele deveria ter predomínio de poros muito finos e drenagem lenta. Mas a microagregação forte, ligada aos óxidos de ferro e alumínio, cria poros entre microagregados que funcionam como macroporos. O resultado é um solo argiloso que drena bem, trabalha bem em uma faixa larga de umidade e tem boa capacidade de suporte.
Essa vantagem tem um limite. Quando esses microagregados são comprimidos por tráfego pesado em solo úmido, o dano é grande e a recuperação natural é lenta, porque não existe argila expansiva para gerar ciclos de contração e expansão que reabram fissuras. Aqui, quem reabre poro é raiz e fauna, não o clima.
Como avaliar
- Anel volumétrico para densidade do solo, com mesa de tensão em laboratório para separar macro e microporosidade. É o método de referência.
- Perfil de densidade por camada, amostrando de 0 a 10, 10 a 20 e 20 a 40 cm. Compactação é localizada, e média de camada larga esconde o problema.
- Penetrômetro, sempre com o solo em umidade próxima da capacidade de campo, porque a leitura em solo seco superestima a resistência e não serve para comparação.
- Trincheira e observação da raiz. É o método mais barato e o mais honesto. Raiz achatada correndo na horizontal indica onde está a camada.
Antes de decidir por operação mecânica, confirme o diagnóstico. Escarificar sem necessidade custa combustível e ainda desestrutura a camada que estava boa. O caminho e os cuidados estão em compactação do solo, e o efeito acumulado do aporte de palha sobre a porosidade aparece em plantio direto.
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