Ciclo do N no solo: perdas e como evitar
N é o único macronutriente que "some" facilmente do solo. P e K ficam ali, ligados a argila, MO, colóides. N vira gás e vai embora, ou desce com água e vai embora. Se você aplica 100 kg N/ha e só 60 kg chegam na planta, você jogou fora 400 reais por hectare em fertilizante. Multiplique pela sua área.
De onde vem o N no solo
Quatro fontes principais:
- Mineralização da matéria orgânica: 15 a 25 kg N/ha por dag/kg de MO por ano
- Fixação biológica: rizóbio em soja (150 a 250 kg N/ha por ciclo), Azospirillum em milho (20 a 40 kg)
- Adubação mineral: ureia, sulfato de amônio, DAP, MAP
- Deposição atmosférica: 5 a 10 kg N/ha por ano (chuva, poeira)
Uma lavoura típica de milho de 10 t/ha precisa de ~180 kg N/ha. Se você tem MO de 3,0 e milho depois de soja bem inoculada, a base já é ~50 kg N/ha "grátis". O restante vem do adubo mineral.
As três perdas principais
1. Volatilização de amônia (a mais visível)
Quando você aplica ureia a lanço em superfície, ela hidrolisa em amônio (NH₄⁺) que vira amônia gasosa (NH₃) e vai pra atmosfera. Em condições ruins (solo seco, temperatura alta, sem incorporação), 30 a 50% do N pode ser perdido em 5 dias. Isso é fato, não é chute.
Como reduzir:
- Aplique ureia em solo úmido (chuva prevista ou irrigação)
- Incorpore mecanicamente ou com irrigação de 10 mm
- Use ureia com inibidor de urease (NBPT) quando não puder incorporar
- Troque ureia por sulfato de amônio ou nitrato de amônio em áreas de plantio direto sem irrigação
Custo do inibidor NBPT: ~10 a 15% mais caro que ureia comum. Se você perde 30% sem ele, o inibidor paga a diferença várias vezes.
2. Lixiviação de nitrato
Depois que o amônio no solo é oxidado em nitrato (NO₃⁻), o nitrato NÃO é retido pelas cargas do solo. Fica em solução, desce com a água. Em Latossolo do Cerrado com chuva de 100 mm em 3 dias, o nitrato pode descer 30 a 50 cm e sair da zona de raiz.
Como reduzir:
- Parcelar a dose de N em várias aplicações (não jogar tudo em uma só)
- Aplicar N em cobertura no momento que a cultura mais absorve (V4-V8 em milho, floração em soja se necessário)
- Evitar aplicar N total antes de chuvas fortes previstas
3. Desnitrificação (a menos visível)
Em solo encharcado, bactérias anaeróbias transformam nitrato em N₂ ou N₂O gasoso, que escapa pra atmosfera. Perda menor que volatilização em geral (5 a 15%), mas grande em áreas com má drenagem ou pancadas de chuva pesada.
Como reduzir:
- Melhorar a drenagem do solo (subsolagem, correção de compactação)
- Evitar aplicar N logo antes de previsão de chuva grande
Fontes minerais e vantagens
| Fonte | %N | Risco volat. | Quando usar |
|---|---|---|---|
| Ureia | 45 | Alto | Solo úmido, com incorporação ou irrigação |
| Sulfato de amônio | 21 | Baixo | Superfície, sem incorporação. Tem S junto. |
| Nitrato de amônio | 32 | Muito baixo | Cobertura pouco antes da irrigação |
| Ureia + NBPT | 45 | Baixo | Superfície de plantio direto |
Parcelamento por cultura
- Milho: 20 a 30% no plantio, 40% em V4-V6, 30 a 40% em V8-V10
- Trigo: 30% no plantio, 70% em perfilhamento
- Arroz: 20 a 30% no plantio, 50% em perfilhamento, 20 a 30% em primórdio floral
- Café: 25% início das águas, 25% meio, 50% final das águas
- Soja: praticamente nada de N mineral (FBN cobre 80 a 95%)
O erro clássico da dose de N
Ignorar o crédito de N pós-leguminosa. Milho depois de soja bem nodulada pode receber 30 a 50 kg N/ha a menos que milho depois de milho. Se você aplica a mesma dose nas duas situações, gasta a mais na área da soja.
Como o SoloLab decide
Ao gerar recomendação no SoloLab, você informa a cultura, o rendimento esperado e a cultura anterior. O app calcula a dose de N e sugere o parcelamento adequado por estádio da cultura. Se você informa MO, o app também mostra o crédito estimado de N mineralizado.
Referências
- Cantarella, H. Nitrogênio. Boletim 100 IAC, 1997.
- Coelho, A.M. Nutrição e adubação do milho. Circular Técnica Embrapa Milho e Sorgo, 2006.
- Hungria, M. Fixação biológica de nitrogênio na cultura da soja. Circular Técnica Embrapa Soja, 2011.
- Trivelin, P.C.O. et al. Perdas de N por volatilização de NH₃. Bragantia, 2002.
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