Micorrizas: o inoculante que quase ninguém usa
Se eu te disser que existe um inoculante que aumenta a absorção de fósforo pelas raízes da soja em até 30%, custa relativamente pouco e é registrado no MAPA, mas menos de 5% dos produtores usam, você acredita? É a realidade das micorrizas.
O que são micorrizas
Micorrizas são fungos que colonizam a raiz da planta e formam uma parceria simbiótica. A hifa do fungo se estende no solo, muito além do alcance da raiz, e absorve nutrientes (principalmente P e água) que a planta sozinha não conseguiria pegar. Em troca, a planta manda açúcar pra alimentar o fungo.
Existem dois grupos:
- Micorrizas arbusculares (AMF): mais importantes pra agricultura. Colonizam soja, milho, feijão, café, cana, hortaliças, quase tudo. Grupo Glomeromycota.
- Ectomicorrizas: usadas em florestal (pinus, eucalipto). Não interessa pra lavoura.
No campo, as micorrizas já existem naturalmente. O solo do Cerrado tem centenas de espécies. Mas o manejo típico (aração, fertilização mineral pesada, fungicida) reduz drasticamente a população.
O que elas fazem que importa
1. Aumentam a absorção de fósforo
Este é o efeito mais estudado. A hifa é muito mais fina que a raiz e explora um volume de solo 10 a 100 vezes maior. Solo com P disponível baixo (10 a 15 mg/dm³ Mehlich-1) pode se comportar como se tivesse 20 a 25 quando a planta está bem micorrizada.
Em soja no Cerrado, ensaios mostram ganho de 5 a 15% em rendimento em áreas com P médio quando inoculada com micorrizas.
2. Aumentam absorção de água
Efeito secundário mas relevante em anos de veranico. A hifa acessa micro-poros do solo que a raiz não alcança. Plantas bem colonizadas suportam 3 a 5 dias a mais de estresse hídrico.
3. Toleram alumínio e metais pesados
Fungo faz uma barreira química na raiz que reduz absorção de Al³⁺ tóxico. Em solo do Cerrado ainda ácido, isso é relevante.
4. Melhoram estrutura do solo
Hifas produzem glomalina, proteína que agrega partículas de solo em micro-agregados. Aumenta estabilidade, aeração e retenção de água a longo prazo.
Por que quase ninguém usa
Motivo 1: mercado de inoculante ainda é embrionário
Produtos registrados no MAPA existem, mas em quantidade muito menor que inoculante de rizóbio. Poucas cooperativas incluem micorrizas na cesta. Poucos revendedores conhecem.
Motivo 2: aplicação é diferente
Inoculante de rizóbio vai no tratamento de semente ou no sulco. Micorrizas em geral são aplicadas via gel na semente ou via solo em produtos granulados. Exige adaptação da rotina.
Motivo 3: resposta é variável
Em solo com P alto (mais de 20 mg/dm³ Mehlich-1), a resposta cai porque a planta consegue absorver P sozinha. Micorrizas funcionam MELHOR em solo com P médio ou baixo, que é justamente onde o produtor já está adubando pesado. Isso desincentiva o teste.
Motivo 4: fungicida na semente mata micorriza
Muitos fungicidas de tratamento de semente matam o fungo micorrízico junto com os patógenos. Isso é a maior barreira prática. Solução: aplicar micorriza no sulco (não na semente) ou usar fungicidas compatíveis (existem, mas exigem consulta técnica).
Quando vale a pena testar
- Área com P médio ou baixo (5 a 15 mg/dm³ Mehlich-1) onde adubação corretiva total sai cara
- Sistema plantio direto consolidado (a micorriza persiste melhor)
- Café e citros (culturas muito responsivas)
- Áreas em recuperação ou primeiro ciclo
- Regiões com risco de veranico frequente
Quando NÃO vale
- Solo com P alto (adubação corretiva pesada nos últimos anos)
- Áreas com tratamento de semente com fungicida forte, sem plano de mudar
- Primeira safra de soja em área nova (concorrência com rizóbio no início)
Como aplicar
Produtos comerciais brasileiros oferecem dois tipos:
- Gel pra tratamento de semente: aplicado junto com o rizóbio, em ordem específica (fungicida primeiro, depois esperar 4h, depois rizóbio, depois micorriza). Dose típica 100 a 200 g por hectare.
- Granulado pra sulco: 2 a 5 kg por hectare aplicado junto com o adubo de plantio. Sem contato direto com fungicida.
Custo aproximado: 40 a 80 reais por hectare, dependendo do produto. Não é barato mas está longe de ser o item mais caro da lavoura.
O futuro é agora
Vários grupos de pesquisa brasileiros (Embrapa Soja, Embrapa Cerrados, UnB, ESALQ) estão consolidando protocolos com micorrizas nativas do Brasil. A tendência é o custo cair e a rede de fornecedores crescer nos próximos 5 anos. Quem já testa agora vai ter vantagem de conhecimento.
Referências
- Moreira, F.M.S. e Siqueira, J.O. Microbiologia e bioquímica do solo. 2a ed. UFLA, 2006. Capítulos sobre micorrizas.
- Berbara, R.L.L. et al. Fungos micorrízicos arbusculares: muito além da absorção de fósforo. Tópicos em Ciência do Solo v.5, SBCS, 2006.
- Instrução Normativa 13/2011 MAPA. Regulamento de inoculantes agrícolas (inclui micorrizas).
- Embrapa Soja. Coinoculação e micorrização em soja. Circular Técnica, 2020.
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