P-remanescente: o parâmetro que muda toda a recomendação de fósforo
Se você trabalha com Latossolo do Cerrado, já viu essa cena: dois talhões vizinhos, mesma cultura, mesmo teor de P Mehlich-1 no laudo (digamos 8 mg/dm³). Um responde bem à adubação fosfatada de rotina, o outro responde só depois de uma corretiva pesada. Por quê?
A resposta está num parâmetro que muitos laudos brasileiros não trazem por padrão: o P-remanescente (P-rem).
O que é P-remanescente
É a concentração de fósforo que sobra em solução depois que o solo teve tempo pra "capturar" o P que foi adicionado. Método CFSEMG (5ª Aproximação, 1999): adiciona-se 60 mg/L de P numa solução com solo, agita, filtra, e mede quanto ficou em solução após 1 hora.
- P-rem alto (> 30 mg/L): solo pouco fixador, geralmente arenoso. O P que você aplica fica bem disponível.
- P-rem médio (10-30 mg/L): meio-termo. Solos francos.
- P-rem baixo (< 10 mg/L): solo muito fixador, típico Latossolo argiloso. O P aplicado "some" pra formas não disponíveis.
Por que isso muda tudo
O P Mehlich-1 (extrator mais usado no Cerrado) só mede o que está disponível no momento. Não diz se aquele solo consegue segurar o P que você vai aplicar, ou se vai fixar tudo. Isso é o P-rem que diz.
Na prática, para o mesmo valor de P Mehlich-1, a classificação (baixo/médio/alto) e a dose corretiva mudam conforme o P-rem:
| P Mehlich-1 | P-rem alto (arenoso) | P-rem médio | P-rem baixo (argiloso) |
|---|---|---|---|
| 8 mg/dm³ | Médio | Baixo | Muito baixo |
| 15 mg/dm³ | Alto | Médio | Baixo |
| 25 mg/dm³ | Muito alto | Alto | Médio |
Ou seja: o mesmo laudo com 8 mg/dm³ pode significar "médio" ou "muito baixo". e a recomendação de corretiva vai de 0 kg/ha até 100 kg P₂O₅/ha só por essa diferença.
Argila é atalho, P-rem é preciso
Sem o P-rem, o método brasileiro usa a argila (%) como aproximação. solo mais argiloso tende a ter P-rem mais baixo (mais fixador). Isso funciona bem na maioria dos casos, e é o que a maioria dos laboratórios oferece.
Mas em solos com particularidades. Cambissolo, Nitossolo, solos com muita gibbsita, solos após muitos anos de adubação fosfatada corretiva. a argila engana. Solos argilosos que já foram "saturados" de P têm P-rem mais alto do que a argila sugere. Solos jovens ou mineralogia com alta atividade têm P-rem menor.
Nesses casos, pedir P-rem no laudo (custa pouco, quase todo laboratório do sul faz e alguns do Cerrado) muda a decisão de corretiva. Vale.
Quando pedir
- Área nova (primeira safra), pra decidir corretiva. Corretiva de P é o investimento mais caro do estabelecimento. Errar por 30% custa muito.
- Solo com histórico de aplicações pesadas de P. A argila diz que é fixador, mas o solo já saturou boa parte dos sítios.
- Solos incomuns pro Cerrado: Cambissolo, Neossolo Quartzarênico. Onde a argila% não representa bem a mineralogia.
Como funciona no SoloLab
Se o seu laudo tem P-remanescente, você já pode informar no campo P-rem da seção Análise Química. O app usa esse dado (em conjunto com argila) pra refinar a classificação de P e ajustar a corretiva. Se não tiver, usamos a argila como aproximação. melhor do que nada.
Referências
- CFSEMG. Recomendações para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais. 5ª Aproximação. Viçosa, 1999. Capítulo P e capacidade tampão.
- Alvarez V., V.H. et al. Uso de gesso agrícola nos solos dos Cerrados. Embrapa Cerrados, 2000.
- Sousa, D.M.G. & Lobato, E. Cerrado: correção do solo e adubação. 2ª ed. Embrapa, 2004. Capítulo 6.
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