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Solos tropicais: por que os nossos se comportam diferente

Quem estuda solo por material estrangeiro leva um susto no campo. Recomendação que funciona em clima temperado não se transfere direto para cá. O motivo não é regional nem cultural, é mineralógico. Nossos solos passaram por muito mais intemperismo, e o que sobrou deles se comporta de outro jeito.

O que o clima quente e úmido faz com a rocha

Temperatura alta e chuva abundante durante milhões de anos aceleram a hidrólise dos minerais primários. A água percola, dissolve e carrega embora, em ordem, as bases mais solúveis, cálcio, magnésio, potássio e sódio, e depois boa parte da sílica.

Esse processo de perda de bases e de sílica deixa no perfil o material menos solúvel: caulinita, um silicato do tipo 1:1, e os óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio, como gibbsita, goethita e hematita. São eles que dão a cor vermelha e amarela dos nossos solos.

Em regiões de clima frio, ou com solos geologicamente jovens, esse processo não avançou tanto. Lá predominam argilas do tipo 2:1, como illita e esmectita, com carga elétrica alta e reservas de nutrientes na própria estrutura mineral.

As cinco consequências que aparecem no laudo

1. CTC baixa e muito dependente da matéria orgânica

Caulinita e óxidos têm capacidade de troca de cátions muito menor que as argilas 2:1. Em Latossolo, boa parte, e frequentemente a maior parte, da CTC vem da matéria orgânica. Perder matéria orgânica, nesse contexto, é perder a capacidade de segurar nutriente. Por isso o teor de carbono não é apenas indicador biológico, é indicador químico. Veja matéria orgânica no laudo.

2. Carga variável, dependente do pH

Argilas 2:1 têm carga permanente, originada de substituição isomórfica. Caulinita e óxidos têm carga majoritariamente variável, gerada pela ionização de grupos de superfície conforme o pH. Consequência prática: a calagem não só neutraliza acidez, ela cria carga negativa e aumenta a CTC efetiva. Corrigir o pH é literalmente construir capacidade de armazenamento de nutriente.

3. Acidez e alumínio trocável

Com poucas bases e alto grau de intemperismo, o pH cai e o alumínio passa para a solução na forma trocável, que inibe o crescimento radicular. A referência geral é que saturação por alumínio acima de 20% já limita a maioria das culturas anuais, e a saturação por bases adequada fica em torno de 50 a 60% para essas culturas. São faixas gerais: o valor certo muda com a cultura, com a região e com o método do laboratório.

4. Fixação de fósforo

Os óxidos de ferro e alumínio adsorvem fosfato por ligação específica, muito mais forte que a troca iônica comum. O fósforo aplicado deixa de estar disponível de forma progressiva. É por isso que existe a adubação corretiva de fósforo, um conceito central em fixação de fósforo no Cerrado.

5. Boa física, apesar de tudo

Nem tudo é limitação. Esses mesmos óxidos promovem microagregação forte, o que dá ao Latossolo argiloso drenagem excelente, friabilidade e resistência à erosão em relevo suave. Física boa e química pobre é o resumo do solo tropical típico do Planalto Central.

Comparando os dois mundos

CaracterísticaSolo tropical intemperizadoSolo temperado jovem
Argila predominanteCaulinita e óxidosIllita, esmectita e vermiculita
Tipo de cargaPredominantemente variável, ligada ao pHPredominantemente permanente
CTCBaixa, sustentada pela matéria orgânicaAlta, sustentada pelo mineral
Reserva mineral de nutrientesPraticamente esgotadaPresente
Fixação de fósforoAltaMenor
Reação típicaÁcidaNeutra a alcalina em muitos casos

O manejo que decorre disso

  1. Corrigir antes de adubar. Em solo de carga variável, calagem é pré-requisito para o adubo funcionar. O passo a passo está em o que é calagem.
  2. Tratar o subsolo. Calcário praticamente não desce sozinho. Cálcio e alumínio abaixo de 20 cm exigem outra ferramenta.
  3. Construir fertilidade de fósforo, e não apenas repor o exportado, nos primeiros anos de uma área nova.
  4. Proteger a matéria orgânica, porque em clima quente a decomposição é rápida e o estoque só se mantém com aporte contínuo de palha e raiz, incluindo forrageiras do gênero Urochloa em rotação.
  5. Parcelar o que lixivia, com atenção a nitrogênio e potássio, principalmente na fração arenosa da fazenda.

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