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Temperatura do solo: o fator que quase ninguém mede

Praticamente toda fazenda mede chuva. Muitas medem umidade do solo. Quase nenhuma mede temperatura do solo, e ela decide coisas caras: se a semente emerge rápido e uniforme, se o inoculante sobrevive, quanto nitrogênio o solo mineraliza e até se a planta consegue absorver fósforo no início.

Por que a temperatura manda na germinação

Germinação é um processo bioquímico, e enzima tem faixa de trabalho. Toda espécie tem temperaturas cardeais: uma mínima abaixo da qual o processo praticamente para, uma faixa ótima em que ele é mais rápido e eficiente, e uma máxima acima da qual há dano.

O que interessa em campo não é só germinar, é germinar rápido. Quanto mais tempo a semente fica no solo antes de emergir, maior a exposição a fungos de solo, a insetos e a encrostamento da superfície. Emergência lenta é a raiz de boa parte dos problemas de stand desuniforme, e stand desuniforme não se corrige depois.

Na soja, a recomendação técnica da Embrapa é semear com a temperatura do solo na profundidade de semeadura em torno de 20 °C ou acima, com a faixa de 20 a 30 °C considerada adequada e o desempenho melhor perto do meio dessa faixa. Fora dela, a emergência fica lenta e desuniforme.

Para outras culturas, a lógica é a mesma, mas as faixas mudam. Consulte sempre a recomendação oficial da cultura e da região, porque cravar um número errado aqui custa um replantio.

Onde mais a temperatura interfere

Sobrevivência do inoculante

A semente inoculada carrega bactéria viva. Bactérias do gênero Bradyrhizobium, usadas na soja, e Azospirillum brasilense, usada em gramíneas, são sensíveis a calor combinado com dessecação. Semear em solo seco e quente, ou deixar semente inoculada exposta ao sol antes do plantio, reduz a população viável e compromete a nodulação. Semear e não ter chuva logo depois é uma das causas mais comuns de falha de nodulação atribuída erroneamente ao produto.

Mineralização e nitrificação

A atividade microbiana responde à temperatura e à umidade. Em solo aquecido e úmido, a mineralização da matéria orgânica libera nitrogênio mais rápido, o que é bom para o suprimento e ruim para as perdas, porque o nitrato gerado pode lixiviar ou desnitrificar. É por isso que temperatura entra no raciocínio de manejo do nitrogênio, e não apenas a dose aplicada.

Absorção de fósforo

Em solo frio, a absorção de fósforo cai bastante, porque tanto a difusão do íon quanto o crescimento radicular ficam mais lentos. É a causa clássica do arroxeamento de milho em plantio de safrinha tardia, mesmo com fósforo adequado no laudo. O nutriente está lá, a planta é que não consegue ir buscar.

Perda de amônia

Ureia aplicada em superfície sobre palhada perde mais amônia por volatilização quando o solo e a palha estão quentes, porque a atividade da urease aumenta. Aplicar no horário mais fresco ou antes de chuva prevista reduz o problema.

Como medir, na prática

  1. Use termômetro de solo, tipo haste ou espeto, com escala adequada. Termômetro digital de cozinha com haste longa resolve para uso comparativo.
  2. Meça na profundidade de semeadura, não na superfície. É ali que a semente está.
  3. Faça a leitura no começo da manhã, quando o solo está no ponto mais frio do dia. Se você quiser um valor mais representativo, complemente com uma leitura no fim da tarde e trabalhe com a média.
  4. Repita por alguns dias antes de decidir a semeadura. Um dia isolado não indica tendência.
  5. Meça em condições diferentes da fazenda: área com palhada, área descoberta, área de várzea e área de chapada. A diferença entre elas costuma surpreender.

Palhada é termorregulação

A cobertura morta faz três coisas ao mesmo tempo: reflete parte da radiação, isola termicamente e reduz a evaporação. O efeito prático é uma amplitude térmica muito menor na camada de semeadura. Solo descoberto no Cerrado, sob sol de meio-dia, atinge na superfície temperaturas muito acima da temperatura do ar, condição hostil para semente, para raiz jovem e para a microbiota.

Isso tem duas faces. No calor do verão, a palhada protege. Em plantio de inverno ou em regiões mais frias, ela pode manter o solo frio por mais tempo e atrasar a emergência. Vale medir na sua área em vez de assumir.

O efeito acumulado da cobertura sobre temperatura, umidade e biologia do solo é um dos motivos de o sistema mudar de comportamento com o tempo, assunto tratado em plantio direto e fertilidade. E como o estoque de carbono responde a esse regime térmico, vale acompanhar também a matéria orgânica no laudo.

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