Fundamento

Simples, misto, complexo ou organomineral: o que cada tipo de fertilizante realmente é

Você chega na revenda, olha dois sacos com a mesma fórmula estampada e o preço é diferente. Um diz misto, o outro diz complexo. Parece detalhe de embalagem. Não é: são categorias com definição legal, e a diferença aparece no campo.

As definições estão no Decreto nº 86.955, de 18 de fevereiro de 1982, que regulamenta a inspeção e a fiscalização da produção e do comércio de fertilizantes no Brasil. Vale conhecer, porque é o vocabulário que a fiscalização, o rótulo e a nota fiscal usam.

As definições, em português de gente

TermoO que o decreto diz
FertilizanteSubstância mineral ou orgânica, natural ou sintética, fornecedora de um ou mais nutrientes das plantas.
SimplesFormado por um composto químico, contendo um ou mais nutrientes.
MistoResultante da mistura de dois ou mais fertilizantes simples.
ComplexoContém dois ou mais nutrientes, resultante de processo tecnológico em que se formam dois ou mais compostos químicos.
OrgânicoDe origem vegetal ou animal, contendo um ou mais nutrientes.
OrganomineralProcedente da mistura ou combinação de fertilizantes minerais e orgânicos.
CompostoObtido por processo bioquímico, natural ou controlado, com mistura de resíduos de origem vegetal ou animal.

A diferença que mais custa dinheiro: misto contra complexo

Essa é a que vale entender de verdade.

Um fertilizante misto é uma mistura física. Alguém pegou ureia, superfosfato e cloreto de potássio, jogou num misturador e ensacou. Cada grânulo dentro do saco é um desses produtos. O saco tem 20-05-20 na média, mas o grânulo individual não tem 20-05-20: ele é ureia, ou é KCl, ou é fosfato.

Um fertilizante complexo nasce de reação química. Cada grânulo carrega os dois ou mais nutrientes dentro dele. O MAP e o DAP são os exemplos mais conhecidos: todo grânulo tem nitrogênio e fósforo juntos, porque foram formados juntos.

Por que isso importa no campo? Duas coisas:

  1. Segregação. No misto, grânulos de tamanho e densidade diferentes se separam no transporte, na caçamba e na distribuidora. O que estava homogêneo no ensaque chega desuniforme no sulco. Você pode aplicar uma faixa rica em potássio e outra pobre, com a mesma máquina, na mesma passada.
  2. Contato com a raiz. No complexo, a raiz que encontra um grânulo encontra todos os nutrientes daquele grânulo. No misto, ela encontra o que calhou de estar ali.

Isso não faz o misto ser ruim. Ele é mais barato e mais flexível, porque a fórmula pode ser montada sob medida. Mas exige atenção à qualidade da mistura, à granulometria compatível entre as matérias-primas e à regulagem da distribuidora.

Simples não quer dizer pobre

"Simples" no decreto significa um composto químico, não "menos eficiente". A ureia é um fertilizante simples com 45% de N. O superfosfato triplo é simples. O KCl é simples. Quem monta a mistura na fazenda, ou compra a granel, está trabalhando exatamente com esses.

Inclusive, um fertilizante simples pode conter mais de um nutriente: o sulfato de amônio é simples e entrega nitrogênio e enxofre, porque os dois estão no mesmo composto químico.

Organomineral e composto: onde a matéria orgânica entra

O organomineral combina a fonte mineral com a orgânica. A promessa é somar o pronto-uso do mineral com o efeito da matéria orgânica sobre a estrutura e a atividade biológica do solo. É preciso ler a garantia: o teor de nutriente costuma ser mais baixo que o do mineral puro, então a comparação honesta é por quilo de nutriente entregue, não por tonelada de produto.

O composto vem de processo bioquímico sobre resíduos vegetais ou animais. Compostagem bem feita é fonte de matéria orgânica e de nutrientes, mas a concentração varia muito de lote pra lote. Sem análise do material, não dá pra calcular dose com honestidade.

Como usar isso na hora de comprar

Escolher o fertilizante é a última etapa, não a primeira. Antes vem o laudo, a correção da acidez e o cálculo da necessidade de N, P e K.

Se você ainda está nessa etapa anterior, o SoloLab calcula a necessidade em N, P₂O₅ e K₂O a partir do seu laudo e ainda ranqueia formulações comerciais pelo ajuste a ela: ver a calculadora de adubação NPK.

Fonte das definições: Decreto nº 86.955, de 18 de fevereiro de 1982.

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