Prática

Como escolher o fertilizante a partir do laudo

O laudo pronto na mesa não é um pedido de compra. Entre um e outro existe uma sequência de decisões que precisa ser respeitada, porque cada etapa altera a seguinte. Pular a ordem é o motivo mais comum de adubação cara render pouco.

A ordem das decisões

  1. Acidez. Calagem vem antes de tudo. Sem corrigir, o alumínio limita a raiz e o que vier depois não é aproveitado.
  2. Subsuperfície. Avaliar o subsolo, 20 a 40 e 40 a 60 cm, e decidir sobre gesso agrícola.
  3. Fósforo. Separar adubação corretiva, que constrói nível, de manutenção, que repõe o exportado.
  4. Potássio. Definir dose e, principalmente, se vai parcelar.
  5. Enxofre e micronutrientes. Zinco e boro pedem atenção no Cerrado.
  6. Nitrogênio. Definido por cultura e produtividade esperada, não pelo teor do laudo.

O erro mais caro é inverter: comprar formulado antes de resolver acidez. O ponto de partida é a saturação por bases.

Escolhendo o corretivo

Calcário não é um produto só, e a escolha se faz por duas características do rótulo.

Pela composição em magnésio

TipoCaracterísticaQuando usar
CalcíticoTeor baixo de magnésioMagnésio do solo já adequado
MagnesianoTeor intermediário de magnésioSituação intermediária
DolomíticoTeor alto de magnésioMagnésio baixo no laudo, situação comum no Cerrado

Essa escolha é de graça. Aplicar calcítico onde o magnésio está baixo desperdiça a oportunidade mais barata de corrigi-lo, e ainda agrava o desequilíbrio.

Pelo PRNT

O PRNT expressa quanto do corretivo reage num prazo agronômico útil, combinando poder de neutralização e granulometria. É por isso que duas toneladas de calcários diferentes não fazem o mesmo efeito.

A dose recomendada é calculada para PRNT de 100%, então a dose real do produto se ajusta assim: dose do produto igual à dose recomendada multiplicada por 100 e dividida pelo PRNT. Com uma necessidade de 2 t/ha e um calcário de PRNT 80%, a dose real é 2,5 t/ha. Ignorar esse ajuste é aplicar menos corretivo do que o calculado.

Lembre também que a saturação por bases desejada varia com a cultura. A mesma área pode ter recomendações distintas para soja e para pastagem sem que nenhuma esteja errada.

Gesso agrícola não é calcário

Confusão frequente e cara. O gesso é sulfato de cálcio: fornece cálcio e enxofre e desce no perfil, reduzindo o efeito tóxico do alumínio em profundidade. Ele não neutraliza acidez como o calcário e não substitui a calagem. A decisão de gessagem sai do subsolo, pelos critérios de Sousa & Lobato (2004): cálcio abaixo de 0,5 cmolc/dm³ ou saturação por alumínio acima de 20%. Sem amostrar essa camada, não há base para decidir.

Escolhendo a fonte de fósforo

FonteO que traz juntoObservação prática
Superfosfato simplesCálcio e enxofreMenos concentrado, mais produto por hectare. Bom quando o enxofre também falta
Superfosfato triploCálcioMais concentrado, menos frete, mas não fornece enxofre
MAPNitrogênioAlta concentração, muito usado em arranque na linha
DAPNitrogênio em maior proporçãoCuidado com o contato direto da amônia com a semente
Fosfato natural reativoCálcioLiberação lenta, cabe em corretiva. Distorce a leitura por Mehlich-1 depois
TermofosfatoMagnésio, silício, efeito alcalinizanteLiberação mais lenta que a dos solúveis

A escolha da fonte raramente é só sobre fósforo: ela decide junto cálcio, enxofre, magnésio ou nitrogênio. Um solo com enxofre e fósforo baixos resolve as duas coisas com superfosfato simples.

Escolhendo a fonte de potássio

O cloreto de potássio domina por concentração e custo por unidade de nutriente. Havendo restrição a cloreto, o sulfato de potássio entra no lugar e ainda fornece enxofre, a um custo maior.

Mais importante que a fonte é a estratégia. Em solo arenoso, com CTC baixa, dose alta de uma vez expõe o potássio à lixiviação e aumenta o risco de salinidade na linha. Parcelar resolve os dois, e em solo argiloso a preocupação diminui, como detalha a adubação conforme a textura.

Comparando preços do jeito certo

Preço por tonelada não compara nada, porque as concentrações são diferentes. O que vale é preço por unidade de nutriente: divida o preço da tonelada pela quantidade de nutriente que ela entrega. Some o frete, que penaliza fonte pouco concentrada, e os nutrientes acompanhantes, que só contam se o solo precisar deles.

Comprar formulado pela promoção da semana é decidir a adubação pelo estoque do fornecedor. O laudo existe justamente para inverter essa ordem.

Formulado ou mistura própria

O formulado pronto resolve quando a relação entre os nutrientes recomendados se aproxima de alguma fórmula comercial. Quando a recomendação pede muito fósforo e pouco potássio, ou o contrário, acertar um nutriente significa errar o outro, e aí calcular as fontes isoladas sai mais preciso. Levante quanto de P₂O₅ e de K₂O a área precisa, divida pela concentração de cada fonte e desconte o nitrogênio que as fosfatadas já entregaram. Antes do pedido, releia o laudo inteiro com o guia de interpretação.

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