Como escolher o fertilizante a partir do laudo
O laudo pronto na mesa não é um pedido de compra. Entre um e outro existe uma sequência de decisões que precisa ser respeitada, porque cada etapa altera a seguinte. Pular a ordem é o motivo mais comum de adubação cara render pouco.
A ordem das decisões
- Acidez. Calagem vem antes de tudo. Sem corrigir, o alumínio limita a raiz e o que vier depois não é aproveitado.
- Subsuperfície. Avaliar o subsolo, 20 a 40 e 40 a 60 cm, e decidir sobre gesso agrícola.
- Fósforo. Separar adubação corretiva, que constrói nível, de manutenção, que repõe o exportado.
- Potássio. Definir dose e, principalmente, se vai parcelar.
- Enxofre e micronutrientes. Zinco e boro pedem atenção no Cerrado.
- Nitrogênio. Definido por cultura e produtividade esperada, não pelo teor do laudo.
O erro mais caro é inverter: comprar formulado antes de resolver acidez. O ponto de partida é a saturação por bases.
Escolhendo o corretivo
Calcário não é um produto só, e a escolha se faz por duas características do rótulo.
Pela composição em magnésio
| Tipo | Característica | Quando usar |
|---|---|---|
| Calcítico | Teor baixo de magnésio | Magnésio do solo já adequado |
| Magnesiano | Teor intermediário de magnésio | Situação intermediária |
| Dolomítico | Teor alto de magnésio | Magnésio baixo no laudo, situação comum no Cerrado |
Essa escolha é de graça. Aplicar calcítico onde o magnésio está baixo desperdiça a oportunidade mais barata de corrigi-lo, e ainda agrava o desequilíbrio.
Pelo PRNT
O PRNT expressa quanto do corretivo reage num prazo agronômico útil, combinando poder de neutralização e granulometria. É por isso que duas toneladas de calcários diferentes não fazem o mesmo efeito.
A dose recomendada é calculada para PRNT de 100%, então a dose real do produto se ajusta assim: dose do produto igual à dose recomendada multiplicada por 100 e dividida pelo PRNT. Com uma necessidade de 2 t/ha e um calcário de PRNT 80%, a dose real é 2,5 t/ha. Ignorar esse ajuste é aplicar menos corretivo do que o calculado.
Lembre também que a saturação por bases desejada varia com a cultura. A mesma área pode ter recomendações distintas para soja e para pastagem sem que nenhuma esteja errada.
Gesso agrícola não é calcário
Confusão frequente e cara. O gesso é sulfato de cálcio: fornece cálcio e enxofre e desce no perfil, reduzindo o efeito tóxico do alumínio em profundidade. Ele não neutraliza acidez como o calcário e não substitui a calagem. A decisão de gessagem sai do subsolo, pelos critérios de Sousa & Lobato (2004): cálcio abaixo de 0,5 cmolc/dm³ ou saturação por alumínio acima de 20%. Sem amostrar essa camada, não há base para decidir.
Escolhendo a fonte de fósforo
| Fonte | O que traz junto | Observação prática |
|---|---|---|
| Superfosfato simples | Cálcio e enxofre | Menos concentrado, mais produto por hectare. Bom quando o enxofre também falta |
| Superfosfato triplo | Cálcio | Mais concentrado, menos frete, mas não fornece enxofre |
| MAP | Nitrogênio | Alta concentração, muito usado em arranque na linha |
| DAP | Nitrogênio em maior proporção | Cuidado com o contato direto da amônia com a semente |
| Fosfato natural reativo | Cálcio | Liberação lenta, cabe em corretiva. Distorce a leitura por Mehlich-1 depois |
| Termofosfato | Magnésio, silício, efeito alcalinizante | Liberação mais lenta que a dos solúveis |
A escolha da fonte raramente é só sobre fósforo: ela decide junto cálcio, enxofre, magnésio ou nitrogênio. Um solo com enxofre e fósforo baixos resolve as duas coisas com superfosfato simples.
Escolhendo a fonte de potássio
O cloreto de potássio domina por concentração e custo por unidade de nutriente. Havendo restrição a cloreto, o sulfato de potássio entra no lugar e ainda fornece enxofre, a um custo maior.
Mais importante que a fonte é a estratégia. Em solo arenoso, com CTC baixa, dose alta de uma vez expõe o potássio à lixiviação e aumenta o risco de salinidade na linha. Parcelar resolve os dois, e em solo argiloso a preocupação diminui, como detalha a adubação conforme a textura.
Comparando preços do jeito certo
Preço por tonelada não compara nada, porque as concentrações são diferentes. O que vale é preço por unidade de nutriente: divida o preço da tonelada pela quantidade de nutriente que ela entrega. Some o frete, que penaliza fonte pouco concentrada, e os nutrientes acompanhantes, que só contam se o solo precisar deles.
Comprar formulado pela promoção da semana é decidir a adubação pelo estoque do fornecedor. O laudo existe justamente para inverter essa ordem.
Formulado ou mistura própria
O formulado pronto resolve quando a relação entre os nutrientes recomendados se aproxima de alguma fórmula comercial. Quando a recomendação pede muito fósforo e pouco potássio, ou o contrário, acertar um nutriente significa errar o outro, e aí calcular as fontes isoladas sai mais preciso. Levante quanto de P₂O₅ e de K₂O a área precisa, divida pela concentração de cada fonte e desconte o nitrogênio que as fosfatadas já entregaram. Antes do pedido, releia o laudo inteiro com o guia de interpretação.
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