Fundamento

Sodicidade e PST: o outro lado do problema de sal no solo

Quando se fala em problema de sal no solo, a maioria pensa em salinidade. Existe um segundo problema, menos citado e bem mais difícil de reverter: a sodicidade. Ela não ataca a planta pela osmose, ataca a estrutura do solo. E o tratamento intuitivo, lavar com água, é justamente o que piora.

PST: a definição

PST é a percentagem de sódio trocável, ou seja, quanto da capacidade de troca de cátions está ocupado por sódio:

PST = (Na⁺ / CTC) × 100, com Na e CTC na mesma unidade, tipicamente cmolc/dm³.

É a mesma lógica do V%, trocando as bases desejáveis pelo sódio. E, assim como o V%, é percentual e não teor absoluto. Solo de CTC baixa atinge PST alta com pouquíssimo sódio, o que torna solo arenoso mais vulnerável do que o teor de Na sozinho sugeriria.

Do lado da água de irrigação, o indicador equivalente é a RAS, razão de adsorção de sódio, que relaciona o sódio com o cálcio e o magnésio da água. A RAS prevê a PST que o solo tende a atingir com o uso continuado daquela fonte. Por isso análise de água de irrigação é parte do diagnóstico, não um extra.

Por que o sódio destrói a estrutura

Cálcio é divalente, tem raio hidratado pequeno e faz ponte entre partículas de argila, mantendo os agregados floculados. Sódio é monovalente e carrega camada de hidratação grande. Ocupa a posição de troca sem exercer essa força de aproximação.

O resultado é a dispersão da argila, e a cascata que vem depois:

Repare: sodicidade é um problema físico com origem química. Adubar não resolve, e nenhum manejo de nutriente contorna solo que não infiltra.

Salino, sódico e salino-sódico

TipoSal totalSódio na CTCProblema dominante
SalinoAltoBaixoOsmótico, estrutura preservada
SódicoBaixoAltoFísico, argila dispersa
Salino-sódicoAltoAltoOs dois, e o físico está mascarado

O limite clássico para caracterizar sodicidade é PST igual ou maior que 15, critério de Richards (1954). Uma observação relevante: há evidência de que solos tropicais com argila de baixa atividade, dominados por caulinita e óxidos, dispersam em PST menor que esse valor. Trate 15 como referência histórica de classificação, não como o ponto em que o dano começa. O comportamento depende da mineralogia, da força iônica da solução e da matéria orgânica.

A armadilha do solo salino-sódico

Num solo salino-sódico, a alta concentração de sais na solução mantém a argila floculada por efeito de força iônica, mesmo com PST alta. A estrutura parece boa. Se você entra lavando com água de baixa salinidade para tirar o sal, remove o eletrólito que estava segurando a floculação, o sódio adsorvido continua lá e a argila dispersa de uma vez.

O solo fica pior depois da lavagem do que estava antes. Por isso a sequência correta nunca começa por lavar.

A sequência de recuperação

  1. Diagnóstico completo. CE do extrato de saturação, sódio trocável, CTC, cálculo da PST, análise da água de irrigação com RAS e avaliação da drenagem.
  2. Drenagem antes de tudo. Sem saída para a água, o sódio deslocado desce e retorna pela ascensão capilar, e o resto do investimento é perdido.
  3. Fonte de cálcio solúvel. O gesso agrícola é o corretivo padrão de sodicidade. O Ca²⁺ solúvel troca de lugar com o Na⁺ adsorvido, que passa para a solução.
  4. Lixiviação do sódio deslocado, com lâmina calculada, depois do gesso e com a drenagem operando.
  5. Estabilização biológica. Matéria orgânica, cobertura permanente e espécies tolerantes reconstroem a agregação e mantêm a infiltração.

Dois erros comuns merecem nota. Calcário não corrige sodicidade. O carbonato de cálcio tem solubilidade baixa e, em solo sódico, o pH já é alto, o que o torna ainda menos solúvel e incapaz de entregar Ca²⁺ na velocidade da troca. E aplicar gesso sem drenagem apenas transfere o problema de camada.

E no Cerrado

Sodicidade natural não é o quadro típico do Cerrado agrícola. Ela aparece por causas identificáveis: água de poço ou de açude com sódio elevado, uso de efluente e de água de reúso, aplicação continuada de resíduos ricos em sódio, e áreas de transição para o semiárido.

Um detalhe prático: sódio não faz parte do pacote de rotina da maioria dos laboratórios do Cerrado. Havendo suspeita, o sódio trocável precisa ser pedido explicitamente, junto com a CE. Sem isso, o laudo volta normal e o problema segue sem nome.

Salinidade se lava. Sodicidade se troca primeiro e se lava depois. Inverter a ordem custa a estrutura do solo.

Veja também salinidade do solo em área irrigada, o que é gessagem e CTC efetiva e CTC potencial.

Referências: Richards, L. A. (ed.). Diagnosis and improvement of saline and alkali soils. USDA Agriculture Handbook 60, 1954. Sousa, D. M. G.; Lobato, E. (org.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Embrapa Cerrados, 2004.

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