Fundamento

Infiltração de água no solo: como avaliar e como melhorar

Chuva boa é a que entra. Se a água não infiltra, ela escorre, e junto com ela vai a camada mais fértil do talhão. Infiltração é o elo que liga física do solo, conservação e disponibilidade hídrica, e é uma das poucas propriedades que dá para avaliar na própria fazenda com equipamento improvisado.

O que é, e o que muda com o tempo de chuva

Infiltração é a entrada de água pela superfície do solo. Ela não é constante: começa alta e vai caindo até estabilizar.

É esse patamar final que interessa para o dimensionamento. Se a intensidade da chuva, ou a taxa de aplicação do pivô, superar a velocidade de infiltração básica, sobra água na superfície. Sobrando água na superfície, há empoçamento e escoamento.

O que controla a infiltração

  1. Cobertura do solo. É o fator mais decisivo e o mais barato de manejar. A gota de chuva em solo descoberto desagrega a superfície, e as partículas finas liberadas entopem os poros, formando uma crosta densa. Essa crosta pode ser fina e ainda assim derrubar a infiltração de forma drástica.
  2. Continuidade dos poros. Não basta ter porosidade, ela precisa ser contínua até o subsolo. Canais deixados por raízes mortas e galerias de fauna são caminhos preferenciais de entrada de água.
  3. Compactação. Uma camada adensada logo abaixo da superfície funciona como um funil ao contrário: a água entra na camada solta, encontra a barreira, satura o que está acima e volta a escoar por cima.
  4. Textura e estrutura. Areia infiltra mais rápido, argila mais devagar, mas estrutura bem formada pesa mais que a textura. Latossolo argiloso bem estruturado pode infiltrar melhor que solo de textura média degradado.
  5. Umidade antecedente. Solo já úmido infiltra menos. Por isso a segunda chuva de uma sequência causa mais erosão que a primeira.
  6. Sódio na solução. Sódio disperso desestabiliza os agregados e sela o solo. É um problema típico de área irrigada com água de qualidade ruim, tratado em salinidade e irrigação.

Como avaliar

Método de referência

O infiltrômetro de duplo anel é o mais usado. Dois anéis concêntricos são cravados no solo, água é mantida nos dois, e mede-se o rebaixamento no anel interno ao longo do tempo. O anel externo serve apenas para forçar o fluxo do interno a ser vertical. Também se usam permeâmetro de carga constante e simulador de chuva, este último mais realista por reproduzir o impacto da gota.

Versão de fazenda

Um pedaço de tubo de PVC de diâmetro largo, cravado alguns centímetros no solo, com uma régua fixada na parede interna, já permite comparar talhões. O protocolo é simples: crave o anel com cuidado para não deformar a superfície, proteja o solo com um plástico ao despejar a água para não desagregar, retire o plástico e cronometre o rebaixamento em intervalos regulares até estabilizar.

O valor absoluto obtido assim não serve para projeto de irrigação. Mas a comparação serve muito: mesmo tipo de solo, mesma condição de umidade, área de plantio direto consolidado contra área de preparo convencional, entrelinha contra rodado de máquina, talhão com palhada contra talhão descoberto. A diferença entre eles é o diagnóstico.

Observação depois da chuva

Não precisa de equipamento nenhum para ver os sinais: água empoçada, marcas de escoamento, sedimento depositado no fim do talhão, água barrenta saindo pela estrada, sulcos rasos se formando. E cave o perfil algumas horas após a chuva, medindo até onde a frente de umidade desceu. Frente parada em uma profundidade específica indica onde está a camada limitante.

Como melhorar

AçãoMecanismo
Manter cobertura permanenteDissipa o impacto da gota e evita o selamento da superfície
Plantas de cobertura com raiz agressivaCriam bioporos contínuos, como Urochloa brizantha e Raphanus sativus
Reduzir tráfego em solo úmidoPreserva macroporos, que são os primeiros a fechar
Descompactar só com diagnósticoAbre a camada limitante sem destruir estrutura que estava boa
Corrigir acidez e cálcio em profundidadePermite raiz mais funda, que constrói canais de entrada
Terraço e adequação de estradasReduz o comprimento de rampa e a energia da enxurrada

Repare que só a última ação lida com a água que já escoou. Todas as outras atuam antes, aumentando a capacidade de entrada. Prática mecânica de conservação é complemento, não substituto de solo coberto e bem estruturado, ponto desenvolvido em erosão do solo e em compactação do solo.

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