Prática

Mehlich-1 e resina: por que o mesmo solo dá números diferentes

Um produtor manda a mesma amostra para dois laboratórios e recebe dois valores de fósforo bem diferentes. A primeira reação é achar que um deles errou. Quase sempre nenhum errou: um usou Mehlich-1 e o outro usou resina trocadora de íons. São métodos distintos, com químicas distintas e tabelas de interpretação próprias.

O que cada extrator faz

Mehlich-1

Também chamado de dupla ácida ou Carolina do Norte. É uma solução de HCl 0,05 mol/L com H₂SO₄ 0,0125 mol/L. O mecanismo é ácido: o extrator dissolve formas de fósforo ligadas ao solo e desloca potássio do complexo de troca. É o extrator padrão dos laboratórios do Cerrado, de Minas Gerais e do Sul, e é a base das tabelas de Sousa & Lobato (2004).

Detalhe importante: Mehlich-1 extrai fósforo, potássio e vários micronutrientes, mas não é ele que determina cálcio, magnésio e alumínio. Esses saem por KCl 1 mol/L. Quem lê o laudo achando que uma única solução gerou todas as colunas se perde na hora de comparar métodos.

Resina trocadora de íons

É o método do IAC, consolidado no Boletim 100 (Raij et al., 1997), e o padrão dos laboratórios de São Paulo. Em vez de atacar o solo com ácido, a resina funciona por dreno: lâminas de resina catiônica e aniônica ficam em contato com a suspensão de solo e vão capturando os íons que passam para a solução. Conceitualmente, a resina imita a raiz, que retira nutriente da solução e força o solo a repor.

Como consequência do próprio princípio, a resina determina fósforo, potássio, cálcio e magnésio na mesma extração.

Por que os números divergem

SituaçãoComportamento do Mehlich-1Comportamento da resina
Solo muito argilosoTende a extrair menos, o ácido é neutralizado pelo poder tampão do soloMenos sensível ao teor de argila
Solo arenosoExtrai com mais força, valores relativamente maioresComportamento mais uniforme
Área que recebeu fosfato naturalDissolve parte do fosfato ainda não reagido e superestima o disponívelNão sofre esse efeito na mesma intensidade
Comparação entre solos diferentesExige tabela estratificada por classe de argilaInterpretação por cultura, sem estratificação por argila

A linha do fosfato natural merece atenção especial. O Mehlich-1 é ácido, e fosfato natural é apatita, que se dissolve em ácido. O extrator solubiliza no frasco um fósforo que a planta ainda não tem acesso no campo. Em área que recebeu fosfato natural ou termofosfato recentemente, o laudo por Mehlich-1 lê alto e a lavoura responde como se fosse baixo.

A sensibilidade à argila é o outro ponto central e explica por que, no Cerrado, as faixas de interpretação de fósforo por Mehlich-1 são apresentadas por classe de teor de argila. Um mesmo valor de P em mg/dm³ significa coisas opostas num Latossolo muito argiloso e num Neossolo Quartzarênico. É o mesmo raciocínio que sustenta o uso do fósforo remanescente como critério de interpretação, e que se conecta diretamente com a fixação de fósforo nos solos do Cerrado.

Não existe fator de conversão

Essa é a parte que mais gera pedido impossível. Não dá para pegar um valor de fósforo por resina e multiplicar por um número para obter o equivalente em Mehlich-1. Existem equações de regressão publicadas para conjuntos específicos de solos, e elas funcionam razoavelmente dentro daquele conjunto. Fora dele, o erro é grande, porque a divergência entre os métodos depende justamente das propriedades do solo, que variam.

Valor bruto de fósforo só tem sentido junto com o nome do extrator. Sem essa informação, o número é ilegível.

O erro prático que custa caro

O erro clássico é o laudo vir de um laboratório paulista, com resina, e o agrônomo interpretar pela tabela do Cerrado, calibrada para Mehlich-1. Ou o contrário. Como a resina costuma entregar valores mais altos que o Mehlich-1 em solos argilosos, ler resina em tabela de Mehlich-1 leva a concluir que o solo tem mais fósforo disponível do que tem, e a subadubar.

Some a isso o problema de unidade. Laboratórios no padrão IAC costumam reportar cálcio, magnésio e potássio em mmolc/dm³, enquanto o padrão do Cerrado usa cmolc/dm³. A diferença é de dez vezes. Trocar as duas coisas de uma vez, extrator e unidade, produz recomendações absurdas que passam despercebidas.

Como se proteger

  1. Localize o extrator no cabeçalho do laudo antes de olhar qualquer valor. Se não estiver escrito, ligue e pergunte.
  2. Use a tabela de interpretação do mesmo sistema do extrator. Mehlich-1 com faixas de Sousa & Lobato, resina com faixas do Boletim 100.
  3. Não troque de laboratório no meio de uma série histórica. Se precisar trocar, faça um ano de sobreposição mandando a mesma amostra para os dois.
  4. Confira a unidade de cada coluna. Vale a leitura de o que cada coluna do laudo significa.

Existe ainda o Mehlich-3, mais usado em pesquisa e em alguns laboratórios, com composição e poder de extração diferentes do Mehlich-1. A regra vale igual: extrator diferente, tabela diferente.

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