pH e disponibilidade de nutrientes: como o pH decide o que a planta consegue pegar
Adubo bem calculado em solo com pH errado rende menos do que deveria. O pH não é nutriente, mas é a variável que decide quanto de cada nutriente fica em forma que a raiz consegue absorver. Entender esse efeito é o que separa quem corrige o solo de quem apenas aplica fertilizante.
O que o pH mede, na prática
pH é o logaritmo negativo da atividade de H⁺ na solução do solo. Como a escala é logarítmica, cada unidade a menos significa dez vezes mais H⁺ ativo. Sair de pH 5,5 para 4,5 não é queda pequena, é multiplicação por dez na acidez ativa.
Só que a acidez ativa é a menor parte do problema. O grosso está na acidez potencial (H+Al), adsorvida nos coloides minerais e nos grupos funcionais da matéria orgânica. É essa reserva que o calcário precisa neutralizar, e é por isso que a dose de corretivo nunca sai do pH sozinho.
pH em água e pH em CaCl₂ não são o mesmo número
Dois laudos do mesmo solo podem trazer pH diferente sem que nenhum esteja errado. O sistema da Embrapa Cerrados (Sousa & Lobato, 2004) trabalha com pH em água. O Boletim 100 do IAC (Raij et al., 1997) trabalha com pH em CaCl₂ 0,01 mol/L.
A leitura em CaCl₂ costuma ficar em torno de meia unidade abaixo da leitura em água para o mesmo solo, porque o sal desloca H⁺ e Al³⁺ do complexo de troca para a solução. A diferença exata varia com a força iônica do solo, com o resíduo salino da adubação e com a textura. Nunca compare um pH em água com uma tabela de interpretação feita para CaCl₂. É um erro silencioso que muda a decisão de calagem.
Quem some quando o pH cai
Fósforo
Em pH baixo, o fosfato reage com óxidos de ferro e alumínio e com o Al³⁺ em solução, formando compostos de baixa solubilidade. Em pH alto demais, ele precipita com cálcio. A disponibilidade máxima fica numa faixa intermediária, e nos solos oxídicos do Cerrado essa é a principal razão pela qual adubação fosfatada em solo ácido rende pouco.
Alumínio
O Al³⁺ trocável só é problema abaixo de determinado pH. Conforme o pH sobe, ele hidrolisa e precipita como hidróxido, que não é tóxico. Esse é o mecanismo central da calagem: o corretivo não retira o alumínio da área, ele muda a forma química em que o alumínio se encontra. Toxicidade de Al ataca o ápice radicular, encurta o sistema de raízes e deixa a lavoura refém de qualquer veranico.
Nitrogênio
A nitrificação depende de bactérias como Nitrosomonas e Nitrobacter, sensíveis à acidez. A fixação biológica na soja, feita por Bradyrhizobium japonicum e Bradyrhizobium elkanii, também perde eficiência em solo muito ácido, tanto pelo efeito direto sobre a bactéria quanto pela baixa disponibilidade de molibdênio, que é cofator da nitrogenase.
Quem some quando o pH sobe demais
Corrigir em excesso é erro tão caro quanto não corrigir. Zinco, manganês, ferro, cobre e boro perdem disponibilidade conforme o pH sobe. O molibdênio faz o caminho contrário, fica mais disponível em pH mais alto.
Na prática do Cerrado, a supercalagem aparece como deficiência de zinco em milho e de boro em soja e algodão, em talhão que recebeu calcário em excesso ou mal distribuído. O laudo mostra V% bonito e a lavoura não acompanha. Depois de qualquer correção pesada, vale revisar micronutrientes no Cerrado.
Faixa de referência: leia com cuidado
Boa parte das culturas anuais do Cerrado trabalha bem numa faixa levemente ácida, com boa parte do alumínio neutralizada e sem excesso de calcário. Qualquer faixa publicada é referência geral e muda com a cultura, com a textura do solo, com o teor de matéria orgânica e com o método de análise do laboratório. Café, soja, algodão e pastagem não pedem o mesmo alvo.
Por isso o número que efetivamente comanda a decisão de calagem não é o pH e sim a saturação por bases, que já embute a relação entre bases trocáveis e acidez potencial.
O que fazer com isso
- Confirme o método de determinação do pH antes de olhar qualquer tabela.
- Use V% e alumínio trocável para decidir a correção de acidez, não o pH isolado.
- Depois de corrigir, revise micronutrientes, porque a correção mexe na disponibilidade deles.
- Reamostre. pH é resultado de reação química, e reação leva tempo.
pH não alimenta planta. Ele decide quem entra na fila e quem fica de fora.
Referências: Sousa, D. M. G.; Lobato, E. (org.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Embrapa Cerrados, 2004. Raij, B. van et al. Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo. 2. ed. IAC, 1997 (Boletim Técnico 100).
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