Corretiva gradual: 200 kg/ha de P₂O₅ divididos em 5 safras
A corretiva de fósforo em solo argiloso de Cerrado costuma dar uma dose que assusta. Muito produtor, diante do número, faz uma de duas coisas: adia a correção inteira, ou aplica a dose de manutenção achando que está corrigindo aos poucos. As duas saídas custam safras. Existe uma terceira, prevista e calculada.
Para quem é
A adubação corretiva gradual pode ser utilizada quando não se tem o capital para fazer a correção do solo de uma só vez, situação frequente para os solos argilosos e muito argilosos, cujas doses requeridas são elevadas.
É importante entender que ela não é uma versão inferior da corretiva. É a mesma quantidade de fósforo, aplicada num prazo maior. O que se perde é tempo, não dose.
Como a conta é montada
A prática consiste em aplicar, no sulco de semeadura, uma quantidade de P superior à indicada para a adubação de manutenção, até atingir, após alguns anos, a disponibilidade desejada. Aplicando as quantidades sugeridas, espera-se que num período máximo de cinco cultivos sucessivos o solo apresente os teores de P no nível adequado para o sistema de sequeiro.
Dito de outro jeito: você pega a corretiva total, divide pelo número de anos, e soma essa parcela à manutenção de cada ano.
O exemplo do livro, passo a passo
Suponha que a corretiva calculada seja de 200 kg/ha de P₂O₅.
| Componente | Dose anual |
|---|---|
| Adubação de manutenção | 60 kg/ha de P₂O₅ |
| Um quinto da corretiva (200 ÷ 5) | 40 kg/ha de P₂O₅ |
| Total no sulco, por ano | 100 kg/ha de P₂O₅ |
Adubando no sulco com 100 kg/ha de P₂O₅ durante cinco anos, estaria sendo feita a corretiva de 200 kg/ha de forma gradual, sem deixar de repor o que cada safra exporta.
Repare que a manutenção continua inteira. É esse detalhe que separa a corretiva gradual da ilusão de estar corrigindo: se você aplicar só os 60 kg/ha, está apenas repondo, e o teor do solo não sobe nunca.
Você escolhe o prazo
O livro deixa a decisão com o produtor: ele pode definir, de acordo com sua disponibilidade de recursos, em quantos anos vai fazer esse investimento. E acrescenta a ressalva econômica que fecha o raciocínio: quanto mais rápido isso for feito, maior será o retorno econômico.
Faz sentido. Enquanto o solo não chega à classe adequada, cada safra é plantada abaixo do potencial. Um solo na classe baixa entrega de 41% a 60% do rendimento potencial sem adubação; na classe média, de 61% a 80%. Estender a correção por cinco anos significa aceitar essa penalidade por cinco safras.
Parcelar a corretiva é decisão de caixa, não de agronomia. A agronomia prefere sempre o prazo mais curto que o seu caixa aguentar.
Por que vai no sulco
Na corretiva de uma só vez, a dose vai a lanço com incorporação, para corrigir o maior volume de solo possível. Na gradual, a dose anual é pequena, e dose pequena espalhada em área tem contato máximo com os óxidos de ferro e alumínio, que é onde o fósforo se prende.
Por isso a regra: doses inferiores a 100 kg/ha de P₂O₅ devem ser aplicadas no sulco de semeadura. O sulco concentra o produto numa faixa estreita, reduz o contato com o solo e dá à planta a chance de absorver antes da fixação.
Como acompanhar
Faça a análise de solo ao longo do processo, para confirmar que o teor está subindo no ritmo esperado, e ajuste. Uma advertência de método: em áreas que receberam adubo fosfatado em sulco, principalmente durante os três primeiros cultivos, a amostragem fica mais difícil, porque ainda existem zonas com alta concentração de P e zonas só com o P nativo. Nessas situações, o histórico da gleba tem valor muito grande para interpretar corretamente a análise.
Na prática: colete muitos pontos, evite caminhar sobre a linha de semeadura, e compare o resultado com o que você registrou de doses aplicadas nos anos anteriores.
A mesma lógica aplicada ao calcário está em V% baixo sem gastar demais. Para dimensionar o investimento inteiro, veja quanto custa corrigir um hectare, e para a linha de crédito que enxerga isso como investimento, o Plano Safra. A parcela de manutenção que entra todo ano está em manutenção por produtividade.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 6, p. 159-160.
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