Calagem para eucalipto: a meta é V de 25%, não de 50%
Quem vem da lavoura de grãos carrega uma referência automática: corrigir o solo é levar a saturação por bases para 50%. Aplicada a um povoamento florestal, essa régua faz o produtor comprar mais calcário do que a cultura precisa e ainda criar um problema que não existia.
O número do eucalipto
Na recomendação de pré-plantio de eucalipto, a calagem tem por objetivo elevar a saturação por bases a 25% na camada de 0 a 20 cm, observados os teores mínimos de 1,5 cmolc/dm³ de cálcio e 0,5 cmolc/dm³ de magnésio.
É metade da meta usada para a maioria das culturas anuais. E os dois pisos de nutriente que acompanham o número não são detalhe: eles existem porque, com V alvo baixo, a conta da saturação sozinha poderia deixar o solo pobre em cálcio ou em magnésio mesmo tendo chegado no alvo. A calagem do eucalipto responde a duas perguntas ao mesmo tempo, e as três condições precisam fechar juntas.
Por que a exigência é menor
Eucalipto e pinus foram selecionados justamente por produzirem em solo de baixa fertilidade. O ciclo de vários anos permite explorar um volume enorme de solo, a serapilheira devolve parte dos nutrientes ao sistema, e a espécie tolera condições que travariam uma hortaliça ou uma soja. A régua de interpretação de laudo para florestais é, por isso, a mais permissiva dos quatro grupos de cultura.
Ler o laudo de uma área florestal pela tabela de anuais superestima a necessidade e leva a adubação e correção desnecessárias, num sistema em que a margem por hectare é bem menor e o investimento fica parado por anos.
O custo de errar para cima
Aplicar calcário além do necessário não é neutro. Elevar demais o pH reduz a disponibilidade de zinco, manganês, cobre e ferro, e o eucalipto no Cerrado já costuma exigir atenção com micronutriente. Você paga o calcário e depois paga o micro para contornar o efeito do calcário.
Some a isso o volume: num povoamento de milhares de hectares, cada meia tonelada por hectare a mais é uma frota de caminhão que não precisava rodar.
Em florestal, o erro caro raramente é corrigir de menos. É aplicar a régua de grãos numa cultura que foi escolhida por dispensar essa régua.
O pacote completo de pré-plantio
A calagem é a primeira das quatro decisões de implantação:
- Calagem. V alvo de 25%, com Ca mínimo de 1,5 e Mg de 0,5 cmolc/dm³ na camada de 0 a 20 cm.
- Gessagem. Entra se houver subsolo ácido, com saturação por alumínio acima de 20% ou cálcio abaixo de 0,5 cmolc/dm³, em alguma camada até 80 cm de profundidade.
- Adubações fosfatada e potássica corretivas. Pela interpretação de análise específica de culturas perenes, que tem limites próprios por faixa de argila.
- Micronutrientes, conforme a recomendação específica.
Note a profundidade do critério de gessagem: 80 cm, e não os 60 cm da cultura anual. É o mesmo raciocínio das perenes em geral, e por isso a dose também é maior, 75 × argila (%) em kg/ha, contra 50 × argila nas anuais.
Espaçamento e o que ele muda
Os arranjos usuais citados são 2,0 m × 2,0 m (2.500 plantas/ha), 3,0 m × 1,5 m (2.222 plantas/ha) e 3,0 m × 2,0 m (1.667 plantas/ha). O espaçamento não muda a meta de saturação por bases, que é uma característica do solo, mas muda tudo que é calculado por planta, como a adubação de cova. Ao converter recomendação por cova em quilo por hectare, o número de plantas é o multiplicador, e trocar o arranjo sem refazer essa conta muda a dose real aplicada na área.
A ordem das operações
Calagem e gessagem entram antes do plantio, quando a área inteira ainda está acessível ao maquinário. Depois que as mudas estão no campo, corrigir o perfil em profundidade deixa de ser viável, e o que sobra é adubação de manutenção na projeção da copa. Em cultura de ciclo longo, a janela de correção é curta e não volta.
Por que a régua do florestal é outra está em interpretação de laudo para florestais. O indicador em si, em o que é V%. E o critério de gessagem, que aqui vai a 80 cm, em quando a gessagem vale a pena. A adubação fosfatada do mesmo povoamento está em fósforo para eucalipto.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 13, p. 345-346.
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