Como comparar laudos de anos diferentes sem se enganar
Um laudo isolado é uma fotografia. A série de laudos ao longo dos anos é o filme, e é ela que responde a pergunta que interessa: o que eu venho fazendo está funcionando?
Só que a comparação só é honesta se a régua não mudou. E ela muda com uma facilidade surpreendente.
As seis coisas que precisam ficar iguais
1. A profundidade de coleta
É a que mais estraga comparação. Amostrar 0 a 20 cm num ano e 0 a 30 cm no outro muda o resultado sem que nada tenha acontecido no solo.
O efeito é maior em solos com camadas contrastantes, como Argissolo e Planossolo. Em plantio direto, o gradiente vertical de fertilidade é grande mesmo em solo homogêneo, porque a correção fica concentrada na superfície.
2. A época do ano
Coletar sempre no mesmo período do calendário. Logo após a colheita e antes da adubação da safra seguinte é o mais usado. Ver a época certa de amostrar.
Amostrar logo depois de adubar produz um retrato do fertilizante recém-aplicado, não do solo.
3. Os pontos de coleta
Idealmente as mesmas glebas e o mesmo caminhamento. Se você mudou a divisão das glebas, os laudos passam a descrever áreas diferentes, ainda que dentro da mesma fazenda.
Em plantio direto, atenção redobrada para coletar sempre na mesma posição em relação à linha de semeadura. Amostrar na linha num ano e na entrelinha no outro produz diferença grande de fósforo e potássio. Ver amostragem em plantio direto.
4. O laboratório e o método
Trocar de laboratório pode trocar o extrator, o método de pH e a equação usada para estimar o H+Al. Se precisar trocar, considere mandar uma safra em duplicata, aos dois laboratórios, para ter um ponto de referência entre as séries.
5. A unidade
Confira se matéria orgânica veio em dag/kg nos dois anos, e não em g/kg num deles. O fator 10 entre elas transforma 3 em 30.
6. O histórico de aplicação
Anote o que foi aplicado entre um laudo e outro. Sem isso, você tem números sem causa e não consegue atribuir a mudança a nada.
O que olhar na série
| Indicador | O que a tendência conta |
|---|---|
| V% | Se a calagem está se sustentando ou se o solo vem reacidificando |
| Fósforo | Se a construção está avançando, parada ou regredindo |
| Potássio | Se a reposição acompanha a exportação da colheita |
| Matéria orgânica | Muda devagar; tendência de vários anos vale mais que variação anual |
| m% | Se o alumínio voltou a ocupar espaço no complexo de troca |
Três armadilhas de leitura
- Achar que uma variação pequena é tendência. Existe erro analítico e existe variabilidade de amostragem. Diferenças pequenas entre dois anos podem ser ruído. Tendência precisa de três pontos ou mais.
- Confundir diluição com perda. Se a profundidade de amostragem aumentou, o teor cai porque o mesmo nutriente foi dividido por mais solo. Não sumiu nada.
- Ignorar a produtividade. Queda de potássio depois de safras excelentes é exportação, e é esperada. O laudo precisa ser lido junto com o que saiu da área.
Solo bem manejado não é o que tem sempre o mesmo laudo. É o que se move na direção certa e cujo movimento você consegue explicar.
Guardar é parte do trabalho
De nada adianta a disciplina de coleta se o laudo do ano passado está numa pasta perdida. O SoloLab guarda os laudos na sua conta, agrupados por fazenda, justamente para que a série exista quando você precisar dela: começar a usar.
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