Por que uma crise do enxofre mexe com o preço do adubo fosfatado
Quando aparece notícia de "crise do enxofre" e o produtor lê que isso afeta o agronegócio, a conexão não é óbvia. Enxofre é nutriente secundário, aplicado em dose modesta. Por que uma oscilação nele mexeria no orçamento inteiro?
Porque o papel principal do enxofre na agricultura não é ser nutriente. É ser insumo industrial na fabricação de outro fertilizante.
De onde vem o enxofre
A maior parte do enxofre comercializado no mundo não é minerado. Ele é subproduto obrigatório de duas indústrias:
- Refino de petróleo. O petróleo bruto contém compostos de enxofre que precisam ser removidos, porque queimá-los gera SO₂, e a legislação de emissões restringe o teor de enxofre nos combustíveis. O processo de dessulfurização extrai esse enxofre.
- Processamento de gás natural. Boa parte do gás é "ácido", ou seja, contém H₂S, que precisa ser retirado antes do uso.
Esse é o ponto central: ninguém produz enxofre porque quer. Ele aparece como consequência de refinar combustível. A oferta não responde à demanda de fertilizante, responde ao volume de petróleo e gás processado.
Para onde vai
A quase totalidade desse enxofre vira ácido sulfúrico, que é o produto químico mais fabricado do mundo em tonelagem. E o maior destino do ácido sulfúrico é a indústria de fertilizantes fosfatados.
A razão é química. A rocha fosfática natural é praticamente insolúvel: a planta não consegue absorver o fósforo dela. Para virar fertilizante, a rocha precisa ser acidulada, e o ácido usado nesse ataque é o sulfúrico. É assim que se produz superfosfato simples, superfosfato triplo, MAP e DAP.
Sem enxofre não há ácido sulfúrico. Sem ácido sulfúrico não há fosfatado solúvel. A cadeia do fósforo depende da cadeia da energia.
A cadeia completa
- Refino de petróleo e tratamento de gás produzem enxofre como subproduto
- Enxofre vira ácido sulfúrico
- Ácido sulfúrico acidula a rocha fosfática
- Sai o fertilizante fosfatado que você compra
Quebre qualquer elo e o preço sobe no fim da fila. Redução no volume de refino, mudança de matriz energética, restrição de exportação num grande produtor ou problema logístico: tudo chega ao MAP.
A tendência estrutural
Há uma tensão de longo prazo que vale conhecer. A transição energética tende a reduzir o volume de petróleo refinado, e com ele a oferta de enxofre subproduto. Ao mesmo tempo, a demanda por fertilizante fosfatado acompanha a demanda por alimento, que não cai.
Menos oferta estrutural e demanda firme é uma combinação que pressiona preço. Não é previsão de curto prazo, é a direção da corrente.
O que dá pra fazer na fazenda
- Parar de aplicar fósforo por hábito. Solo com fósforo já construído não precisa de dose corretiva. Adubação de manutenção repõe o que a colheita exporta, e é bem menor.
- Aproveitar o enxofre que já entra de graça. Quem faz gessagem aplica enxofre junto: o gesso agrícola carrega em torno de 15% de S. Nesse caso, a adubação específica com enxofre costuma ser dispensável.
- Olhar o superfosfato simples com outros olhos. Ele tem menos P₂O₅ que o triplo, mas carrega cálcio e enxofre. Dependendo do preço relativo e da necessidade de S, a conta fecha melhor.
- Comprar pelo custo por quilo de nutriente, nunca por tonelada de produto.
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