Aplicação de gesso agrícola a lanço em lavoura do Cerrado
Calagem

O gesso lava o potássio e o magnésio da camada arável?

É uma das objeções mais repetidas contra a gessagem: o gesso desce e leva junto o potássio e o magnésio que você pagou para colocar na camada arável. A preocupação faz sentido pela química envolvida, e por isso merece resposta com dado, não com opinião.

O mecanismo é real

O gesso agrícola é sulfato de cálcio. Ele é solúvel, e ao se dissolver o sulfato se movimenta para as camadas inferiores acompanhado por cátions. Até aí a objeção está certa: o ânion que desce arrasta carga positiva junto, porque a solução precisa permanecer eletricamente neutra.

A questão é qual cátion desce, e em que quantidade.

O que o livro mediu

A resposta do texto é direta: o sulfato move-se para baixo acompanhado de cátions, especialmente o cálcio. E é exatamente esse o objetivo da prática. Com a movimentação de cátions para a subsuperfície, os teores de cálcio e magnésio aumentam nas camadas de baixo, o que reduz o teor de alumínio tóxico e melhora o ambiente para a raiz.

Sobre a perda de nutriente da camada de cima, a frase é explícita: quando o gesso é aplicado com critério, nas doses recomendadas para cada tipo de solo, não se tem observado movimentação de potássio e magnésio no perfil em níveis que possam trazer problemas de perdas desses nutrientes.

Um experimento citado acompanhou a distribuição de sulfato e de cálcio mais magnésio em profundidade num Latossolo argiloso, com e sem gesso, ao longo de 39 meses. O padrão é o de enriquecimento das camadas inferiores, não de empobrecimento das superiores.

Onde está a condição

A palavra que carrega a garantia é dose recomendada. A ressalva não vale para qualquer quantidade de gesso. As doses de referência do livro são:

SituaçãoDose de gesso (15% de S)
Cultura anual50 × argila (%), em kg/ha
Cultura perene75 × argila (%), em kg/ha

Num solo com 35% de argila, isso dá 1.750 kg/ha em lavoura anual. Aplicar 4 ou 5 t/ha nesse mesmo solo, porque sobrou produto ou porque o vizinho aplicou, sai do intervalo em que a segurança foi medida. É nessa faixa fora de critério que a preocupação com arraste de potássio deixa de ser infundada.

A gessagem tem dose calculada como a calagem tem. Gesso não é insumo de aplicar por garantia.

E o critério para aplicar

Vale lembrar que a gessagem só entra com indicação. A amostragem vai a 20 a 40 cm e 40 a 60 cm para cultura anual, incluindo 60 a 80 cm em perene. Se a saturação por alumínio for maior que 20% ou o teor de cálcio for menor que 0,5 cmolc/dm³ em alguma dessas camadas, há grande probabilidade de resposta. Sem análise do subsolo, a decisão é chute, e é aí que se aplica dose fora do critério.

O que observar na sua área

Se você já gessou e quer verificar, o teste é a própria análise por camada na safra seguinte. O que se espera ver é cálcio e magnésio subindo nas camadas de 20 a 60 cm e o alumínio caindo lá embaixo, com a camada de 0 a 20 cm mantendo o patamar. O efeito, aliás, já pode ser observado no próprio ano agrícola da aplicação.

Se o potássio da camada arável caiu, o suspeito mais provável não é o gesso: é a exportação da colheita somada à lixiviação normal em solo de CTC baixa. A resposta para isso é parcelamento e reposição, não deixar de gessar.

A fórmula da dose está em quanto de gesso aplicar por hectare, e é ela que sustenta a ressalva deste texto. Sobre a perda real de potássio, que tem outra causa, veja lixiviação de potássio e parcelamento. O critério de indicação está em quando o V% não é o critério. Por quantos anos a aplicação dura está em efeito residual do gesso.

Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 3, p. 89-94.

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