Quantos gramas de adubo por metro de sulco: a conta que acerta a regulagem
A recomendação chega em quilos por hectare. A semente, que é quem sofre ou agradece, vive em um metro de sulco. Entre as duas unidades existe uma conta de duas linhas que decide a regulagem da adubadora, a queima de semente e boa parte da diferença entre talhões que receberam a mesma receita.
A conta, em duas linhas
Primeiro, quantos metros de sulco existem em um hectare. Um hectare tem 10.000 m², e cada metro de linha ocupa uma faixa de largura igual ao espaçamento:
Metros lineares por hectare = 10.000 dividido pelo espaçamento em metros
Depois, quanto adubo cai em cada metro:
Gramas por metro = dose em kg/ha vezes 1.000, dividido pelos metros lineares por hectare
As duas se resolvem em uma só, e essa vale decorar:
Gramas por metro = dose em kg/ha vezes o espaçamento em metros, dividido por 10
Com 300 kg/ha de um formulado e espaçamento de 0,50 m: 300 vezes 0,50 dividido por 10 resulta em 15 g por metro de sulco. É a mesma aritmética que transforma população em semente por metro, descrita em sementes por metro, aplicada ao outro produto que desce pela máquina.
O mesmo quilo por hectare não é a mesma carga no sulco
Aqui está o que a unidade esconde. Quanto mais largo o espaçamento, menos metros de sulco existem no hectare, e mais concentrada fica a mesma dose.
| Espaçamento | Metros lineares por hectare | Gramas por metro com 300 kg/ha |
|---|---|---|
| 0,45 m | 22.222 m | 13,5 g |
| 0,50 m | 20.000 m | 15,0 g |
| 0,70 m | 14.286 m | 21,0 g |
| 0,80 m | 12.500 m | 24,0 g |
| 0,90 m | 11.111 m | 27,0 g |
A mesma receita de 300 kg/ha dobra a carga por metro quando o espaçamento vai de 0,45 m para 0,90 m. O laudo não mudou, a recomendação não mudou, e a concentração de sal ao lado da semente mudou duas vezes. É por isso que a mesma dose que passa limpo na soja em linha estreita castiga o milho em linha larga, e que trocar de espaçamento sem refazer a conta é mexer na dose sem saber.
Quanto o sulco aguenta
O limite prático vem do potássio, que é o componente de maior efeito salino na fórmula de semeadura. Sousa e Lobato (2004) registram que o risco de efeito depressivo é pequeno até 100 kg/ha de cloreto de potássio, o que corresponde a 60 kg/ha de K₂O, e que em solos com CTC a pH 7,0 abaixo de 4,0 cmolc/dm³ as doses acima de 40 kg/ha de K₂O devem ser preferencialmente parceladas.
Esses limites estão escritos por hectare, mas o que a semente encontra é a carga por metro. Converta antes de decidir: 100 kg/ha de cloreto de potássio são 4,5 g por metro a 0,45 m e 9,0 g por metro a 0,90 m. O mesmo número por hectare, o dobro de sal encostado na semente. Em solo de CTC baixa, que é o caso de boa parte do Cerrado arenoso, é esse o número que manda. O parcelamento e a decisão de tirar parte do potássio do sulco estão em lixiviação de potássio e parcelamento.
Há um segundo motivo para não empurrar potássio para dentro do sulco. Em solo de textura média, trabalho citado pela Embrapa Meio-Norte registra aumento da lixiviação de potássio com doses acima de 80 kg/ha de K₂O por ano, independentemente do modo de aplicação (Rosolem et al., 2006, citado por Melo et al., 2021). Acima de certo ponto, o excedente não fica nem no sulco nem na camada arável.
Um exemplo fechado
Recomendação de 100 kg/ha de P₂O₅ e fórmula 04-30-10 escolhida como âncora, seguindo o caminho de como montar a formulação NPK:
- Dose do formulado: 100 dividido por 0,30 resulta em 333 kg/ha.
- De carona vêm 13 kg/ha de N e 33 kg/ha de K₂O, dentro dos limites do sulco.
- Soja a 0,45 m: 333 vezes 0,45 dividido por 10 resulta em 15,0 g por metro.
- Milho a 0,80 m: 333 vezes 0,80 dividido por 10 resulta em 26,6 g por metro.
Guarde o número do seu caso em gramas por metro. É nessa unidade que você confere a máquina, e não em quilos por hectare, que a máquina não sabe medir.
Como conferir no campo, em dez minutos
Dose aplicada é vazão de saída dividida pela área percorrida, e abertura do dosador, velocidade e espaçamento mexem todos no resultado. A lógica é a mesma da regulagem da distribuidora de calcário, em escala menor:
- Regule pela tabela do fabricante como ponto de partida, nunca como resposta final.
- Prenda um saco na saída de cada linha de adubo, levante os discos e percorra uma distância medida, de preferência 20 ou 50 metros, na velocidade real de trabalho.
- Pese o conteúdo de cada saco. O esperado é gramas por metro multiplicado pela distância percorrida.
- Compare linha por linha, e não só a média. Linha entupida ou dosador gasto aparece aqui e em nenhum outro lugar.
- Refaça a conferência ao trocar de produto. Granulometria, densidade e umidade mudam a vazão do mesmo dosador na mesma regulagem.
Os quatro erros que a conta evita
Mudar o espaçamento e manter a regulagem. A dose por hectare só continua a mesma se a vazão por metro mudar na mesma proporção. Quem fecha a linha de 0,90 para 0,50 e não toca no dosador aplica quase o dobro por hectare.
Confiar no catálogo com produto diferente. A tabela do fabricante foi feita com um material de referência. Adubo mais úmido ou mais grosseiro escoa diferente, e a diferença vai toda para a dose.
Pesar uma linha e assumir as outras. A média do talhão pode estar certa com metade das linhas erradas, uma recebendo mais e outra menos. O prejuízo acontece nas duas.
Resolver um excesso de potássio apertando a regulagem. Se a carga por metro passou do limite, o ajuste é tirar parte do potássio do sulco e levá-la a lanço ou para a cobertura, não reduzir o fósforo que estava correto.
A recomendação do laudo é uma intenção. Gramas por metro de sulco é o que a lavoura recebe de fato, e a distância entre as duas é uma balança de cozinha e dez minutos de talhão.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. MELO, F. de B.; BASTOS, E. A.; CARDOSO, M. J.; ANDRADE JÚNIOR, A. S. de. Recomendação de adubações nitrogenada e potássica nas produtividades técnica e econômica de milho. Teresina: Embrapa Meio-Norte, 2021. (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 132). ROSOLEM, C. A.; SANTOS, F. P. dos; FOLONI, J. S. S.; CALONEGO, J. C. Potássio no solo em consequência da adubação sobre a palha de milheto e chuva simulada. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 41, n. 6, p. 1033-1040, 2006.
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