Índice de acidez do adubo nitrogenado: o calcário que ele custa
Ao comparar fontes de nitrogênio, quase todo mundo olha duas coisas: preço por quilo de N e risco de volatilização. Existe uma terceira que raramente entra na conta e que aparece na fatura de calcário alguns anos depois.
O que é o índice de acidez
O índice de acidez é a quantidade, em quilos, de carbonato de cálcio necessária para neutralizar a acidez gerada por 100 kg da fonte de nitrogênio.
A acidez surge do próprio processo de nitrificação: o amônio aplicado é oxidado a nitrato pelos microrganismos do solo, e essa reação libera íons de hidrogênio. Quanto mais amônio a fonte entrega, mais acidez ela gera.
A tabela
| Fonte | Índice de acidez (kg de CaCO₃ por 100 kg de produto) |
|---|---|
| Amônia anidra | 147 |
| Sulfato de amônio | 110 |
| Ureia | 71 |
| Nitrato de amônio | 62 |
Há ainda o outro lado da escala: nitrato de sódio, nitrato de cálcio e nitrato de potássio têm índice de basicidade entre 20 e 29, ou seja, em vez de acidificar, elevam ligeiramente o pH.
Como isso vira dinheiro
Suponha uma cobertura de 130 kg/ha de ureia. Pelo índice de 71, essa aplicação gera acidez equivalente a cerca de 92 kg/ha de carbonato de cálcio. Repetida por cinco safras, são em torno de 460 kg/ha de calcário que a área vai consumir só para voltar ao ponto onde estava.
Não é um valor que quebra ninguém, mas é real, é cumulativo, e explica parte da queda de saturação por bases que aparece na análise sem que o produtor tenha mudado nada no manejo.
Adubo nitrogenado não é neutro para o solo. Ele consome parte da calagem que você já pagou.
Onde o efeito pesa mais
Três situações em que vale prestar atenção:
- Solo de CTC baixa. Menos poder tampão significa que a mesma acidez gerada mexe mais no pH.
- Culturas de alta demanda de N. Milho, trigo, arroz irrigado e pastagem adubada acumulam muita aplicação por ano.
- Plantio direto sem incorporação. A acidificação se concentra na camada superficial, onde o adubo cai, e pode criar uma faixa mais ácida logo onde está a maior densidade de raízes.
Isso muda a escolha da fonte?
Muda a comparação, não necessariamente a escolha. O sulfato de amônio, por exemplo, tem índice de acidez alto, 110, mas em compensação praticamente não volatiliza em superfície e entrega enxofre junto. A conta correta soma os três efeitos: preço por quilo de N, perda esperada por volatilização, e calcário adicional.
A ureia, com índice 71, gera menos acidez por 100 kg de produto, mas tem 45% de N contra 21% do sulfato. Ao normalizar por quilo de nitrogênio entregue, a diferença entre as duas diminui bastante. Vale fazer essa conversão antes de concluir qualquer coisa.
Como incorporar na prática
Não é preciso montar planilha nova. Basta considerar duas coisas:
- Ao projetar a reaplicação de calcário, lembre que a adubação nitrogenada é parte da explicação para a saturação por bases cair. Isso reforça a orientação de refazer a análise depois de três anos de cultivo e decidir pelo número, não pelo calendário.
- Ao comparar duas fontes com preço parecido por quilo de N, use o índice de acidez como critério de desempate, junto do risco de volatilização e do enxofre que a fonte carrega.
A comparação direta entre as duas fontes mais usadas está em sulfato de amônio ou ureia. Para entender que acidez é essa, veja as três acidezes do solo. E quando reaplicar o corretivo, em efeito residual do calcário. O enxofre elementar acidifica pelo mesmo caminho: veja enxofre elementar.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 5, p. 140.
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