Braquiária na rotação leva a recuperação de P de 35% a 56%
Fósforo aplicado em solo de Cerrado não some, mas também não vai todo para a planta. Boa parte fica adsorvida aos óxidos de ferro e alumínio, disponível em ritmo lento. A pergunta prática é se existe alguma decisão de manejo que aumente a fatia aproveitada, e a resposta que o livro documenta é sim: a espécie que você coloca na rotação.
O experimento de 17 anos
O índice de recuperação do fósforo mede a quantidade total de P absorvida e exportada em relação à aplicada ao solo, descontando o P absorvido do solo sem adubação fosfatada. É a fração do adubo que virou planta.
Foram comparadas duas histórias de uso da mesma condição de solo, ao longo de 17 anos:
| Sistema | P recuperado |
|---|---|
| Só culturas anuais | 35% |
| Anuais com pastagem introduzida | 56% |
A diferença é de 62% a mais de fósforo aproveitado no sistema com pastagem.
Os históricos foram estes. A área só com anuais foi cultivada por 10 anos com soja, depois um plantio de milho e três ciclos da sequência milho e soja. A área com pastagem teve 2 anos de soja, seguidos de 9 anos com Brachiaria humidicola, mais 2 anos de soja e dois ciclos de milho e soja. No período em que esteve com braquiária, a área recebeu apenas três adubações em cobertura, nos três primeiros anos.
Por que a forrageira extrai mais
O livro aponta a rotação com espécies de alta eficiência em extrair fósforo como prática que aumenta a recuperação, e a composição de cultivos anuais com pastagens é o exemplo dado.
O mecanismo tem a ver com raiz. Gramíneas forrageiras tropicais produzem sistema radicular denso, profundo e continuamente renovado, com taxa alta de morte e reposição de raízes finas. Esse volume de raiz explora um volume de solo muito maior do que o de uma cultura anual de ciclo curto, e alcança formas de fósforo que estavam adsorvidas e fora do alcance de uma raiz que viveu quatro meses.
Some a isso o tempo. Nove anos de ocupação contínua do perfil, sem revolvimento e sem período de solo nu, dão à planta muito mais oportunidade de acessar o fósforo aplicado do que dezessete safras de cultura anual com entressafra descoberta.
O fósforo estava lá o tempo todo. O que mudou foi quem foi buscar.
O que isso significa em dinheiro
Pense numa corretiva de 200 kg/ha de P₂O₅. Recuperar 35% ou 56% dela não é uma diferença de eficiência abstrata: é a diferença entre a lavoura ter aproveitado 70 kg ou 112 kg do que você comprou.
Esse ganho não aparece em nenhuma nota fiscal e não é vendido por ninguém. Ele vem da decisão de incluir pastagem na rotação, que costuma ser avaliada apenas pela receita da pecuária ou pelo benefício de palhada, ignorando o que ela faz com o investimento em fósforo já enterrado na área.
O que não confundir
Dois cuidados de leitura:
- Não é fósforo de graça. A pastagem recupera mais do que foi aplicado; ela não dispensa a adubação. Na própria área do experimento houve adubação em cobertura durante os três primeiros anos de braquiária.
- Não é resultado de uma safra. O número saiu de 17 anos, com 9 deles em pasto. Uma braquiária de entressafra, dessecada antes da soja, é outra prática, com outros benefícios, e não é o que foi medido aqui.
Como usar isso na sua área
Se você já pensa em integração lavoura e pecuária, este é mais um item da coluna de benefícios, e um dos poucos que tem número. Se você tem área com corretiva de fósforo feita e produtividade estagnada, vale considerar um ciclo de pasto no planejamento, não só pela receita do boi, mas pelo que ele faz com o fósforo que já está no solo.
E ao voltar para a lavoura, lembre de refazer a análise. O fósforo que a braquiária ciclou está em outra forma e em outra distribuição no perfil, e o histórico da gleba é o que permite interpretar esse laudo corretamente.
O que mais muda no solo com o pasto na rotação está em integração lavoura-pecuária. Para os outros efeitos da rotação, veja o que a rotação conserta no solo. E o mecanismo da retenção, em fixação de fósforo no Cerrado. E a adubação do pasto já formado está em fósforo em pastagem formada.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 6, p. 166.
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