Fósforo em pastagem formada: 85 kg/ha de P₂O₅ em cobertura
A regra que todo mundo aprende sobre fósforo é que ele precisa ser incorporado, porque é pouco móvel e não desce sozinho. Isso está correto, e ainda assim existe uma situação em que aplicar por cima, sem mexer no solo, funciona: a pastagem já formada.
O que o livro autoriza
Na formação de pastagem perene, a aplicação de fertilizante para o estabelecimento é feita a lanço, seguida de incorporação. Para doses pequenas, menores que 30 kg/ha de P₂O₅ na forma de fertilizante solúvel em água, recomenda-se a aplicação em linha.
Em pastagens já estabelecidas, é possível adicionar o fertilizante fosfatado em cobertura, sem incorporação.
O experimento
O dado que sustenta a recomendação vem de um ensaio com Brachiaria decumbens: adubação anual durante três anos com 85 kg/ha de P₂O₅ em cobertura, na forma de superfosfato simples, com excelente resposta em produção acumulada de matéria seca.
Três elementos desse ensaio merecem atenção porque não são intercambiáveis:
- Superfosfato simples, que é fonte solúvel em água. Fosfato natural e termofosfato pedem aplicação a lanço com incorporação, e não se comportam assim em cobertura.
- Adubação anual, não uma dose única. A resposta apareceu ao longo de três aplicações sucessivas.
- Pastagem estabelecida, com raiz já ocupando o perfil e cobertura vegetal protegendo a superfície.
Por que funciona sem incorporar
O fósforo continua pouco móvel; o que muda é o sistema em volta dele. A gramínea forrageira tropical tem sistema radicular denso e superficial, com renovação contínua de raízes finas, e boa parte dessas raízes está exatamente nos primeiros centímetros onde o adubo cai.
Além disso, a pastagem formada mantém o solo coberto e úmido por mais tempo, o que favorece a dissolução do produto, e cicla nutriente pela própria serapilheira e pelo retorno de fezes e urina. A superfície do pasto não é o mesmo ambiente que a superfície de um solo descoberto entre duas safras.
A regra da incorporação existe por causa do contato com a raiz. Em pasto formado, a raiz já está onde o adubo cai.
Onde isso não vale
Duas situações em que a aplicação superficial deixa de ser a resposta:
| Situação | O que fazer |
|---|---|
| Formação da pastagem | A lanço com incorporação. Abaixo de 30 kg/ha de P₂O₅ solúvel, em linha. |
| Fonte pouco solúvel (fosfato natural, termofosfato) | Sempre a lanço e incorporado ao solo. |
Vale registrar: em pastagem, os fosfatos solúveis, superfosfato simples e triplo, e os termofosfatos apresentam a mesma eficiência. Já os fosfatos naturais brasileiros, como os de Araxá e Patos de Minas, rendem cerca de 50% em relação aos solúveis, e para eles é preciso aplicar o dobro da dose de P₂O₅ recomendada.
Fósforo é o nutriente da formação
Antes de pensar em manutenção, vale a ordem de prioridade: o fósforo é o nutriente mais importante para a formação de pastagens em solos da região do Cerrado. Pasto formado com pouco fósforo é pasto que nunca fecha, e nenhuma adubação nitrogenada de manutenção compensa isso depois.
Se a sua área está em recuperação e o P do laudo é baixo, a decisão de aplicar em cobertura resolve manutenção, não construção. Nesse caso a conversa é sobre adubação corretiva, com incorporação, e a janela para fazer isso bem feito é a reforma.
Um ganho que vem depois
Há um efeito indireto que costuma ser esquecido: sistemas que combinam cultivos anuais com pastagem recuperam mais do fósforo aplicado. Num acompanhamento de 17 anos, a área exclusivamente com culturas anuais recuperou em média 35% do P aplicado, enquanto a área onde se introduziu pastagem recuperou 56%.
O pacote completo da braquiária, da formação à manutenção, está em adubação de pastagem no Cerrado. Se a área já passou do ponto, veja recuperação de pastagem degradada. Na formação, com leguminosa junto, a divisão muda: metade a lanço, metade no sulco. O que o pasto faz com o fósforo já aplicado está em braquiária na rotação.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 6, p. 151-152 e 166.
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