Adubação corretiva ou de manutenção: quem decide é o laudo
A pergunta que mais aparece depois que o laudo chega é quanto de fósforo aplicar. A pergunta anterior, que quase ninguém faz, é qual das duas adubações se está fazendo. São coisas distintas, com objetivo, dose, modo de aplicação e natureza contábil diferentes.
Corretiva: construir o solo
A adubação corretiva tem por objetivo transformar o solo de baixa fertilidade em solo fértil. Ela não é calculada para a safra que vem, é calculada para elevar o teor de fósforo do solo até a classe adequada e mantê-lo lá.
Para definir o nível a alcançar, leva-se em conta o grau de exigência em fósforo das culturas que se pretende cultivar na gleba. Uma rotação com soja, milho, feijão e trigo exige nível de disponibilidade mais elevado do que um sistema em que se pretende implantar pastagem de Brachiaria decumbens semeada com arroz de sequeiro. O investimento em fertilizante fosfatado para o primeiro sistema será maior que para o segundo.
Na corretiva de uma só vez, a quantidade necessária vai a lanço, incorporada à camada arável, para proporcionar maior volume de solo corrigido, de modo que mais raízes tenham condições de absorver fósforo. A exceção está nas doses menores: abaixo de 100 kg/ha de P₂O₅, a aplicação deve ser feita no sulco de semeadura.
Manutenção: repor o que saiu
A adubação de manutenção é indicada quando o nível de P do solo já está classificado como adequado ou alto. Ela repõe o que a colheita exporta e o que o sistema perde, mantendo o patamar construído.
As doses são apresentadas em intervalo, para atender a diferentes potenciais produtivos. Dois exemplos do livro dão a referência:
- Soja, sequeiro, P adequado: 60 kg/ha de P₂O₅ são suficientes para produzir 3 t/ha de grãos.
- Milho: a manutenção de 90 kg/ha de P₂O₅ atende à expectativa de 9 t/ha.
Para produtividades maiores, a manutenção deve ser aumentada proporcionalmente. É uma conta de reposição, e ela acompanha o que sai na carreta.
O que muda na sua planilha
| Corretiva | Manutenção | |
|---|---|---|
| Quando entra | P muito baixo, baixo ou médio | P adequado ou alto |
| Objetivo | Elevar o teor do solo | Repor a exportação |
| Modo de aplicação | A lanço com incorporação, acima de 100 kg/ha de P₂O₅ | No sulco de semeadura |
| Natureza do gasto | Investimento, com efeito residual por anos | Custeio da safra |
A última linha é a que costuma ser tratada errado. A corretiva tem efeito residual e deve ser amortizada em cinco anos, nas proporções de 40%, 25%, 20%, 10% e 5%. Lançá-la inteira no custo de uma safra faz o resultado daquele ano parecer ruim e distorce a decisão do ano seguinte.
Os dois erros clássicos
Aplicar manutenção em solo não construído. O produtor repõe 60 kg/ha de P₂O₅ por ano num solo classificado como baixo. A dose é insuficiente para elevar o teor, então o solo nunca sai da classe, e a lavoura entrega ano após ano entre 41% e 60% do potencial. Ele gasta todo ano e nunca resolve.
Aplicar corretiva em solo já construído. Com o teor classificado como adequado, a dose corretiva é zero e sobra apenas a reposição. Continuar aplicando dose de construção é acumular fósforo que fica adsorvido e indisponível, e com teor alto e aperto de caixa dá até para deixar de adubar com fósforo por algum tempo sem comprometer o potencial produtivo.
Manutenção não constrói. Corretiva em solo pronto não acrescenta. As duas doses estão certas; o que decide é a classe do laudo.
Existe um caminho do meio
Quando falta capital para a corretiva de uma vez, situação frequente em solos argilosos e muito argilosos, existe a corretiva gradual: aplicar no sulco uma quantidade superior à de manutenção, ano após ano, até atingir o teor desejado em no máximo cinco cultivos. É a corretiva parcelada, não a manutenção disfarçada, e a diferença entre as duas está justamente na dose.
A razão de o solo prender o fósforo aplicado está em fixação de fósforo no Cerrado. Os casos em que a resposta certa é não aplicar, em quando a dose certa é zero. E o enquadramento do gasto em quanto custa corrigir um hectare. Se faltar caixa para a dose cheia, veja corretiva gradual em cinco safras. Por quantos anos a corretiva continua trabalhando está em efeito residual do fósforo.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 6, p. 157-161.
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