Perfil de solo mostrando distribuição de nutrientes por camada
Adubação

Sem calagem, o potássio que você aplicou desce para 45 cm

Existe uma ordem entre calagem e adubação que costuma ser justificada pelo fósforo: corrigir primeiro porque o P fica preso em solo ácido. O argumento é correto, mas ele é apenas metade do motivo. A outra metade é o potássio, e ela é ainda mais direta.

O experimento

Num mesmo solo, comparando com e sem calagem, a distribuição do potássio no perfil ficou assim:

TratamentoOnde ficou a maior concentração de potássio
Com calagemCamada de 0 a 15 cm
Sem calagemEntre 45 e 60 cm

O potássio no segundo caso não desapareceu. Ele desceu, caracterizando lixiviação, e foi parar numa camada onde a maior parte das raízes da cultura não está.

Por que a calagem segura

A explicação é curta: a calagem aumenta a CTC e, consequentemente, fornece mais sítios de troca.

Solos do Cerrado são muito intemperizados, e a fração argila deles é pobre em cargas. Boa parte da capacidade de troca depende da matéria orgânica e é dependente de pH: quanto mais ácido o solo, menos cargas negativas efetivamente disponíveis. Elevando o pH, essas cargas aparecem.

O potássio é um cátion monovalente, menos retido que o cálcio e o magnésio. Se não há sítio para ele, ele fica na solução do solo. E o que está na solução acompanha a água que desce.

Aplicar potássio em solo não corrigido é encher um recipiente que ainda não tem fundo.

A ordem correta

Isso reforça uma sequência que já vale para os demais nutrientes:

  1. Analisar o solo, incluindo o subsolo quando houver suspeita de restrição.
  2. Corrigir a acidez com calcário, elevando a saturação por bases à meta da cultura.
  3. Decidir sobre gessagem, se houver alumínio alto ou cálcio baixo em profundidade.
  4. Só então definir a adubação, com o solo já em condição de reter o que recebe.

Inverter essa ordem não é apenas ineficiente: parte do que você paga vai literalmente para fora da zona de raiz na primeira estação chuvosa.

O limite da saturação por potássio

Existe um teto que ajuda a evitar o outro extremo. Se a preferência for usar a porcentagem de saturação da CTC com potássio como índice, para solos originalmente de Cerrado recomenda-se não ultrapassar o limite de 3,0%. Acima disso, o potencial de perdas por lixiviação é grande, particularmente em Areias Quartzosas.

Ou seja, mesmo em solo corrigido existe um ponto a partir do qual acrescentar potássio deixa de construir e passa a alimentar a perda. Vale conferir esse indicador antes de programar dose corretiva alta.

O que fazer se a área já recebeu potássio sem calagem

Três providências:

O outro lado da conta

Se a CTC é o que segura o potássio, tudo que constrói CTC reduz a perda. Nos solos do Cerrado, a matéria orgânica responde pela maior parte da capacidade de troca, então práticas que a mantêm ou aumentam, como plantio direto, preparo mínimo e integração com pecuária, aumentam a eficiência da adubação potássica junto com a dos corretivos.

Um dado ilustra o tamanho disso: em oito cultivos, uma dose única de 150 kg/ha de K₂O com os restos culturais incorporados rendeu o mesmo que 600 kg/ha com os restos removidos, e a CTC efetiva ficou em 4,1 cmolc/dm³ contra 3,1 a 3,3.

A capacidade de troca que a calagem aumenta está explicada em CTC efetiva e potencial. Quem se perde primeiro quando ela é baixa, em lixiviação de nutrientes. E a prática em si, em o que é calagem. E a reserva que o laudo não mostra está em potássio não trocável.

Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 7, p. 171, 174-176.

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