Lixiviação de nutrientes: quem vai embora primeiro e por quê
Lixiviação é o transporte de nutrientes para fora da zona de raízes pela água que percola no perfil. Não é defeito do adubo nem do solo, é consequência direta de entrar mais água do que o perfil consegue reter. O que muda de nutriente para nutriente é a facilidade com que cada um acompanha essa água.
A regra que explica a ordem
Quem é retido não desce. A retenção depende de duas coisas: a carga do íon e a carga da superfície do solo naquela profundidade e naquele pH.
Na camada arável de solo corrigido predomina carga líquida negativa. Logo, cátions são retidos e ânions viajam. Entre os cátions, a força de retenção segue a série de seletividade, com o íon de maior carga e menor raio hidratado levando vantagem na disputa pelo sítio de troca:
Al³⁺ > Ca²⁺ > Mg²⁺ > K⁺ > NH₄⁺ > Na⁺
A fila de saída
1. Nitrato (NO₃⁻)
Ânion, praticamente não retido na camada superficial e muito solúvel. É o primeiro a ir e o que mais preocupa, porque carrega junto o investimento em adubação nitrogenada e é o que chega ao lençol. O amônio (NH₄⁺) fica retido enquanto for amônio, mas a nitrificação o converte em nitrato em poucos dias sob solo quente e úmido.
2. Enxofre como sulfato (SO₄²⁻)
Ânion também, com um comportamento particular no Cerrado que vale entender bem. Solos muito intemperizados têm carga variável: em profundidade, onde o pH é mais baixo e há mais óxidos de ferro e alumínio expostos, a superfície pode apresentar carga líquida positiva e adsorver sulfato.
Ou seja, o sulfato desce da camada arável e é parcialmente retido no subsolo, formando uma reserva acessível à raiz profunda. É por isso que análise de enxofre feita apenas na camada de 0 a 20 cm conta metade da história.
3. Potássio e sódio
Cátions monovalentes, retidos com força baixa. Em solo arenoso, com CTC pequena, e sob chuva concentrada, o potássio desce com facilidade. Este é o motivo real do parcelamento do potássio, e não uma suposta necessidade de alimentar a planta aos poucos.
4. Magnésio e depois cálcio
Divalentes, retidos com mais força. Ainda assim descem quando há ânion acompanhante em quantidade. É exatamente o que ocorre na gessagem: o sulfato desce e leva par catiônico junto, e o magnésio costuma ser mais afetado que o cálcio. Por isso dose alta de gesso sem critério empobrece o Mg da camada superficial.
5. Boro e os demais micronutrientes
O boro é o micronutriente mais sujeito à lixiviação, principalmente em solo arenoso com pouca matéria orgânica. Zinco, cobre e manganês são retidos com força e praticamente não descem, o problema deles é o oposto, indisponibilidade.
O fósforo é o caso extremo de imobilidade. Perda de P é quase sempre por erosão de partícula, não por lixiviação.
O que aumenta o risco
- Textura arenosa e CTC baixa. É a variável que mais pesa.
- Baixo teor de matéria orgânica, que nesses solos é a principal fonte de cargas negativas.
- Dose alta de uma vez só, principalmente antes do período mais chuvoso.
- Solo descoberto, sem cultura ativa absorvendo água e nutriente.
- Chuva concentrada, com lâmina acima da capacidade de retenção do perfil.
O que segura
- Parcelar N e K em solo arenoso, ajustando à curva de demanda da cultura.
- Manter planta viva no perfil. Cultura de cobertura e braquiária em consórcio funcionam como recicladoras: absorvem o nutriente que estava descendo e devolvem na palhada.
- Construir matéria orgânica, que aumenta a CTC efetiva e a capacidade de retenção de água.
- Aprofundar raiz, corrigindo o subsolo, porque raiz funda alcança o nutriente que desceu antes que ele saia do sistema.
- Amostrar em profundidade para saber se o nutriente saiu do perfil ou apenas mudou de camada. É diferença que muda a recomendação inteira.
Nutriente que desceu 40 cm não está perdido se a raiz chega lá. Nutriente que desceu 40 cm num sistema de raiz curta está.
Para o caso específico do potássio, veja lixiviação e parcelamento de potássio. Para entender a capacidade de retenção do seu solo, CTC efetiva e CTC potencial. Para o efeito do sulfato no perfil, o que é gessagem.
Referências: Sousa, D. M. G.; Lobato, E. (org.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Embrapa Cerrados, 2004.
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