Potássio não trocável: a reserva do solo que o laudo não mostra
Ao ver um potássio baixo no laudo, é comum ouvir que existe muito mais potássio no solo do que o número indica. É verdade. O que quase nunca se explica é se esse restante serve para alguma coisa.
As três formas
O potássio do solo se distribui assim:
| Forma | Participação no total | Disponibilidade |
|---|---|---|
| Estrutural | 90% a 98% | Dentro do mineral. Liberação lentíssima, ligada ao intemperismo |
| Trocável | 2% a 8% | Adsorvido nos sítios de troca. É o que a planta usa |
| Em solução | 0,1% a 0,2% | Imediatamente absorvível, e imediatamente lixiviável |
Os percentuais de trocável e de solução vêm de solos do Rio Grande do Sul; o livro traz também dados de potássio trocável e total de solos da região do Cerrado.
Por que a reserva não resolve
O potássio estrutural está dentro da estrutura cristalina dos minerais primários, como feldspatos e micas. Ele só é liberado com o intemperismo, num ritmo de escala geológica, não agronômica.
E aqui está a particularidade do Cerrado: os solos da região são muito intemperizados. O material de origem já foi trabalhado pelo tempo, e o que sobrou tem pouca reserva mineral de potássio para liberar. Não existe a herança que solos jovens de outras regiões possuem.
Por isso a conclusão do livro é direta: para os solos de Cerrado, o potássio trocável é a fonte mais importante para as plantas.
Existe muito potássio no solo. Ele só não está disponível na escala de tempo de uma safra.
O que o laboratório mede
Para recomendação de adubação potássica, determina-se o potássio extraído pelo método Mehlich-1, chamado de potássio extraível, ou com acetato de amônio, chamado de trocável. Em solos de Cerrado, esses dois índices são semelhantes, o que simplifica a comparação entre laudos de laboratórios diferentes.
Na maioria dos países, o índice mais usado para avaliar a disponibilidade de potássio é justamente a forma trocável, e existe boa correlação entre o potássio trocável da camada de 0 a 20 cm e o rendimento de grãos de soja em solo de Cerrado.
E o potássio abaixo dos 20 cm
Aqui vem uma resposta que costuma surpreender. As plantas conseguem absorver potássio das camadas mais profundas, mas a avaliação da disponibilidade, para fins de recomendação, é feita apenas na camada arável.
São dois motivos: a praticidade no momento da coleta, e o fato de que é na camada arável que normalmente se concentra a maior atividade das raízes das principais culturas comerciais.
Ou seja, o potássio de baixo existe e é usado, mas não entra na conta da recomendação. A tabela já foi calibrada assim, comparando o teor da camada de 0 a 20 cm com a resposta obtida em campo. Tentar acrescentar o subsolo à conta seria contar duas vezes.
O índice alternativo e seu limite
Outro índice que aparece é a porcentagem de saturação de potássio na CTC. O livro pondera que o potássio trocável continua sendo o melhor índice de disponibilidade, mas, se a preferência for pela saturação, para solos originalmente de Cerrado recomenda-se não ultrapassar o limite de 3,0%.
Acima desse limite, o potencial de perdas por lixiviação é grande, particularmente em Areias Quartzosas. É um teto útil para quem pensa em construir o potássio do solo com dose corretiva alta.
O que fazer com essa informação
Três consequências práticas: não conte com reserva mineral que o solo do Cerrado não tem; use o potássio trocável da camada de 0 a 20 cm como referência, sem tentar corrigi-lo pelo subsolo; e trate a CTC como o recurso escasso que realmente é, porque é ela que decide quanto do potássio aplicado permanece disponível.
A capacidade de troca que segura o potássio está em CTC efetiva e potencial. Por que o nosso solo tem pouca reserva mineral, em solos tropicais. E o manejo que decorre disso, em lixiviação de potássio e parcelamento. Como construir o teor a partir daí está em corretiva total ou gradual.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 7, p. 169-171.
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