Só tem calcário calcítico na região: como suprir o magnésio
A recomendação padrão é conhecida: magnésio baixo no laudo, calcário dolomítico. O problema é que essa regra é escrita como se todo produtor tivesse as duas opções na revenda, e muita região só tem calcítico a preço de frete razoável. A pergunta prática, então, não é qual é melhor, e sim o que fazer quando só existe um.
A resposta é sim, com condição
O livro autoriza: pode-se usar calcário calcítico desde que se adicione magnésio ao solo. Não é uma concessão vaga, é uma troca explícita de função. O calcítico faz a neutralização da acidez, e o magnésio entra por outra porta, como nutriente.
Isso desfaz a leitura de que calcítico em solo pobre em Mg é sempre erro. O erro é usar calcítico e não repor o magnésio. Aí sim o cálcio aplicado passa a competir com o pouco magnésio que existe, e a deficiência que já era latente aparece na lavoura.
As duas alternativas do livro
- O próprio calcário dolomítico em dose pequena. De 300 kg/ha a 500 kg/ha, aplicado no sulco de semeadura ou a lanço. Aqui o dolomítico não está fazendo calagem, está fazendo adubação com magnésio. Por isso a dose é pequena e cabe no frete mesmo vindo de longe.
- O óxido de magnésio. Também citado como alternativa. Produto concentrado, o que resolve justamente o problema de custo de transporte que originou a situação.
Existem ainda fontes que entregam magnésio junto de outro nutriente, como o sulfato de magnésio e o termofosfato magnesiano. Ao usar qualquer uma delas, a conta é a mesma: converta o teor de MgO do produto para o magnésio que ele entrega por hectare e compare com o que falta.
O piso que não se fura
Duas referências do livro delimitam o alvo:
- A relação entre cálcio e magnésio no solo, em cmolc/dm³, deve situar-se no intervalo de 1:1 até o máximo de 10:1.
- Observado o teor mínimo de 0,5 cmolc/dm³ de Mg.
Vale prestar atenção nessa amplitude. A faixa aceitável de Ca:Mg é bem mais larga do que costuma circular em conversa de campo, e o critério que realmente manda é o valor absoluto de magnésio, não a proporção. Um solo com Ca:Mg de 6:1 e Mg de 0,9 está melhor servido de magnésio do que um solo com Ca:Mg de 3:1 e Mg de 0,3.
Relação equilibrada com teor baixo continua sendo teor baixo. A planta absorve magnésio, não proporção.
Como montar a decisão
| Mg no laudo (cmolc/dm³) | Se só houver calcítico |
|---|---|
| Acima de 0,5, com Ca:Mg dentro de 10:1 | Calcítico resolve. Acompanhe o Mg nas próximas análises, porque a calagem calcítica repetida vai puxando a relação. |
| Abaixo de 0,5 | Calcítico só com reposição de Mg junto: 300 a 500 kg/ha de dolomítico, ou óxido de magnésio. |
A conta do frete
Antes de concluir que o dolomítico é inviável, faça a comparação do jeito certo. O livro dá a fórmula do preço efetivo:
Preço efetivo = (valor do calcário posto na fazenda × 100) ÷ PRNT
Comparar preço por tonelada de produto compara coisas diferentes, porque um calcário de PRNT 60% exige mais tonelada para o mesmo efeito. Com o preço já corrigido pelo PRNT e já incluindo o transporte, às vezes o dolomítico distante empata com o calcítico local, e a discussão inteira desaparece.
A escolha entre os dois calcários pelo teor do laudo está em dolomítico ou calcítico. Para entender por que um não substitui o outro na planta, o papel do cálcio e do magnésio. E a conta do preço efetivo em PRNT: por que o barato sai caro. Sobre usar o sulco para nutriente e não para correção, veja calcário no sulco de semeadura.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 3, p. 83 e 85.
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