Mandei a mesma amostra para dois laboratórios e vieram resultados diferentes. Quem errou?
Acontece com frequência: a mesma amostra vai para dois laboratórios e volta com fósforo de 6 mg/dm³ num e 14 no outro. A primeira reação é achar que alguém errou. Na maior parte das vezes, ninguém errou: os dois mediram coisas diferentes.
1. O extrator de fósforo
Esta é a maior fonte de divergência, e nem é sutil.
- Mehlich-1 é um extrator ácido, padrão em boa parte do Brasil.
- Resina trocadora de íons é o padrão do IAC em São Paulo.
Eles não medem a mesma fração do fósforo do solo e não se convertem por fator fixo. Pior: a diferença entre eles varia conforme o teor de argila, porque o Mehlich-1 tende a subestimar em solo muito argiloso, exatamente onde a fixação é maior.
É por isso que as tabelas de interpretação são específicas por extrator. Usar valor de resina numa tabela de Mehlich produz classe errada e dose errada. Ver Mehlich-1 contra resina.
2. O extrator de micronutrientes
Mesmo problema, agravado. Mehlich-1 e DTPA têm escalas completamente distintas: um é ácido, o outro é um quelante tamponado. Em solo ácido de Cerrado, o Mehlich extrai bem mais.
Um zinco de 1,1 mg/dm³ é baixo por Mehlich-1 e seria lido como médio na escala de DTPA. A recomendação sai invertida.
3. O método do pH
Água, CaCl₂ ou KCl dão números diferentes no mesmo solo, com o pH em água saindo cerca de 0,6 unidade mais alto que em CaCl₂. Detalhes em pH em água, CaCl₂ ou KCl.
4. Como o H+Al foi obtido
Muitos laboratórios não medem a acidez potencial diretamente: estimam por equação de regressão a partir do pH SMP. Equações diferentes, calibradas em regiões diferentes, produzem valores diferentes. Ver as três acidezes do solo.
5. A unidade
Parece bobagem e derruba muita gente. O mesmo teor pode aparecer como mg/dm³, ppm, cmolc/dm³ ou mmolc/dm³. Matéria orgânica pode vir em dag/kg ou g/kg, com fator 10 entre elas. Argila também.
Antes de concluir que os laudos divergem, confira se estão na mesma unidade. Ver unidades do laudo de solo.
6. A amostra não era a mesma
Este é o mais subestimado. Se você coletou duas amostras compostas da mesma gleba, elas não são a mesma amostra. A variabilidade espacial dentro de um talhão pode ser grande, sobretudo em Cambissolo ou em área com histórico de aplicação em faixa.
Para comparar laboratórios de verdade, é preciso homogeneizar bem uma única amostra e dividi-la em duas partes.
Como saber se há erro de verdade
Divergência é esperada. O que deve acender o alerta:
- Inconsistência interna. Refaça as contas: SB, CTC e V% precisam fechar com os valores medidos. Se não fecham, há erro. Veja como montar SB e CTC.
- Resultado fisicamente impossível. Soma de areia, silte e argila muito longe de 100%; saturação por bases acima de 100%; alumínio alto com pH alto.
- Salto sem causa. Um valor que mudou muito de um ano para outro sem que nada tenha sido aplicado.
O que fazer na prática
- Escolha um laboratório e fique com ele. A comparação entre safras vale muito mais que a precisão absoluta de um laudo isolado.
- Prefira laboratórios com controle de qualidade, participantes de programas de análise interlaboratorial.
- Anote o método junto com o resultado. Se trocar de laboratório, você vai precisar dessa informação.
- Nunca converta na mão entre extratores. Não existe fator confiável.
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