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pH em água, CaCl₂ ou KCl: por que o mesmo solo dá números diferentes

Você manda a mesma amostra para dois laboratórios e recebe pH 5,8 de um e 5,2 de outro. Nenhum dos dois errou. Eles mediram em soluções diferentes, e isso muda o número de forma previsível.

Os três métodos

pH em água

O mais simples: mistura-se solo e água destilada e mede-se. É o método mais antigo e ainda o mais usado em várias regiões.

O problema é a sensibilidade. A leitura varia conforme a concentração de sais na amostra, que por sua vez varia com a época do ano, com a adubação recente e com a umidade no momento da coleta. O mesmo solo pode dar leituras diferentes em meses diferentes.

pH em CaCl₂

Usa-se uma solução diluída de cloreto de cálcio no lugar da água pura. O sal padroniza a força iônica da mistura, anulando a variação sazonal que atrapalha a leitura em água.

O resultado é uma leitura mais estável e mais próxima do que a raiz efetivamente encontra. É o método adotado pelo IAC e amplamente usado em São Paulo e no Cerrado.

pH em KCl

Usa cloreto de potássio, uma solução mais concentrada. Serve a outro propósito: ao deslocar os cátions do complexo de troca, ela permite avaliar a acidez trocável. É a solução usada para extrair o alumínio trocável.

A diferença típica

Como regra prática, no mesmo solo:

pH em água ≈ pH em CaCl₂ + 0,6

Ou seja, a leitura em água costuma sair cerca de 0,6 unidade mais alta. Não é regra exata (a diferença varia com o solo, sobretudo com o teor de sais e a CTC), mas é o suficiente para você não se assustar.

pH em CaCl₂Equivalente aproximado em águaLeitura
4,3≈ 4,9Muito ácido
4,8≈ 5,4Ácido
5,5≈ 6,1Faixa adequada para a maioria das anuais
6,0≈ 6,6Acima do necessário para o Cerrado

O erro que isso causa

Ler o pH de um método na tabela de interpretação de outro. Um solo com pH 5,5 em CaCl₂ está em boa condição. Se alguém interpretar esse 5,5 como se fosse leitura em água, vai concluir que o solo está ácido e recomendar calcário desnecessário.

O inverso é pior: um pH 5,5 em água equivale a cerca de 4,9 em CaCl₂, ou seja, solo bem ácido, e pode ser lido como adequado.

Antes de interpretar o pH, confira no cabeçalho do laudo qual solução o laboratório usou. Está sempre escrito.

E na hora de comparar safras

Se você trocou de laboratório entre um ano e outro, confira se o método também mudou. Uma queda ou alta de 0,6 no pH entre dois laudos pode não ser o solo mudando, e sim a régua. É o mesmo cuidado que vale para extratores de fósforo, tratado em Mehlich-1 contra resina.

Um lembrete útil

O cálculo de calagem pelo método da saturação por bases não usa o pH: ele usa CTC, saturação atual e meta da cultura. Então o método de leitura de pH não altera a dose calculada. Ele importa para diagnóstico e para leitura de disponibilidade de nutrientes, tratados em pH e disponibilidade de nutrientes.

Veja a conta completa em calculadora de calagem.

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