Expectativa de rendimento baixa: use a corretiva, não a manutenção
É o raciocínio mais natural do mundo: se a minha expectativa de rendimento é menor, aplico menos. As tabelas de adubação por expectativa parecem autorizar isso, já que trazem doses crescentes conforme o rendimento esperado. Só que elas têm um degrau embaixo, e abaixo dele a lógica se inverte.
O piso de cada cultura
Cada cultura tem uma expectativa mínima abaixo da qual a tabela de semeadura deixa de valer:
| Cultura | Piso da tabela |
|---|---|
| Algodão em caroço | 3 t/ha |
| Arroz | 3 t/ha |
| Aveia | 2 t/ha |
| Cevada | 3 t/ha |
| Girassol | 2 t/ha |
| Grão-de-bico | 1,5 t/ha |
| Mamona | 2 t/ha |
Abaixo desses valores, a instrução é a mesma em todas: utilizar as doses de fósforo e potássio recomendadas para a adubação corretiva ou corretiva gradual.
Por que a lógica se inverte
Porque a tabela de semeadura é uma tabela de manutenção. Ela pressupõe um solo já construído, em que a função da adubação é repor o que a colheita exporta. Nesse contexto, dose menor para rendimento menor faz todo sentido: sai menos, repõe-se menos.
Uma expectativa de rendimento muito baixa, porém, costuma ser o sintoma de que o solo não está construído. Se a área entrega 1,5 t/ha de arroz, o problema não é que ela precisa de pouco adubo; é que ela ainda está na fase de correção.
Nessa situação, reduzir a dose junto com a expectativa produz um ciclo que não termina: pouco adubo, pouca produtividade, expectativa ainda menor no ano seguinte, dose ainda menor. O solo nunca sai da classe baixa.
Expectativa baixa não é motivo para adubar pouco. Costuma ser o sinal de que ainda falta corrigir.
O que fazer na prática
- Confirme a classe do laudo. Se o fósforo está muito baixo, baixo ou médio, a conversa é corretiva, e a expectativa de rendimento é consequência, não premissa.
- Escolha entre total e gradual. A corretiva de uma vez entrega o resultado mais rápido e tem o melhor retorno econômico. A gradual soma à manutenção uma parcela da corretiva, no sulco, todo ano, até atingir o teor em no máximo cinco cultivos.
- Verifique o que mais está limitando. Acidez não corrigida, alumínio tóxico, subsolo restritivo, compactação e nematoide também produzem expectativa baixa, e nenhum deles se resolve com adubo.
Quando a expectativa baixa é legítima
Existem casos em que ela não indica solo pobre: safrinha plantada fora da janela ideal, área com limitação hídrica conhecida, cultura de menor potencial por escolha de sistema. Aí a expectativa modesta é real e permanente.
Mesmo nesses casos, a instrução do livro se aplica: se o rendimento esperado fica abaixo do piso da tabela, use a corretiva. A diferença é que, nessa situação, o objetivo passa a ser manter o teor do solo construído, e não perseguir uma produtividade que o ambiente não permite.
O que isso muda no orçamento
Muda a natureza do gasto, e isso vale ser dito ao gerente ou ao banco. A adubação corretiva é investimento com efeito residual, amortizada em cinco anos nas proporções de 40%, 25%, 20%, 10% e 5%. A manutenção é custeio da safra. Lançar corretiva como custeio faz o ano parecer ruim e empurra a decisão do ano seguinte para o lado errado.
As metas e doses de cada cultura estão em adubação por cultura no Cerrado. Para os casos em que a recomendação certa é zero, veja quando a dose certa é zero. E o enquadramento do investimento, em o Plano Safra. A versão parcelada da corretiva está em corretiva gradual em cinco safras.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 12, p. 284-302, e Capítulo 6, p. 159-160 e 165.
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