Lavoura de café adulta em solo do Cerrado
Calagem

Gesso em cultura perene: o café só respondeu na quarta safra

Em cultura anual, o efeito do gesso costuma aparecer rápido, às vezes já no ano agrícola da aplicação, e fica evidente no primeiro veranico. Em cultura perene a história é outra, e quem não sabe disso tende a concluir que não funcionou justamente no período em que está funcionando.

As culturas que respondem

O livro registra aumento de produtividade com gesso agrícola em manga, laranja e, em especial, no café. A cana-de-açúcar também tem demonstrado excelentes resultados. E há um caso fora do grupo das comerciais que ajuda a entender a magnitude: a leucena, leguminosa arbórea forrageira, apresentou aumentos de até 80% na produção de matéria seca.

A explicação dada para esses ganhos é a mesma nas quatro: uso mais eficiente dos nutrientes e da água no perfil do solo. A planta perene passa anos explorando o mesmo volume de terra, e ampliar esse volume em profundidade muda o que ela consegue extrair em cada estiagem.

O tempo até a resposta

Aqui está o dado que mais muda a expectativa. No experimento com café mostrado pelo livro, a resposta ao gesso surgiu apenas a partir da quarta safra, e foi atribuída à melhoria do perfil do solo.

Faz sentido quando se acompanha o mecanismo. O gesso precisa se dissolver, o sulfato precisa descer levando cálcio, o alumínio precisa ser complexado, e só então a raiz começa a ocupar uma camada que antes lhe era proibida. Depois disso, a planta ainda precisa construir esse sistema radicular novo e transformá-lo em produção. Numa lavoura anual esse encadeamento cabe em um ou dois ciclos. Num cafezal, não.

Avaliar gessagem em perene pela primeira safra é medir a obra antes de ela ficar pronta.

O que muda na dose e na amostragem

A recomendação para perene difere da de anual em dois pontos, e os dois vêm do mesmo motivo: a raiz vai mais fundo e não haverá nova chance de corrigir em profundidade depois que a cultura estiver implantada.

Cultura anualCultura perene
Dose de gesso (15% de S)50 × argila (%), em kg/ha75 × argila (%), em kg/ha
Camadas a amostrar20 a 40 e 40 a 60 cm20 a 40, 40 a 60 e também 60 a 80 cm

São 50% a mais de produto, pela lógica de que o perfil precisa estar corrigido até mais fundo e a janela para fazer isso é a implantação. Num solo com 40% de argila, isso significa 2.000 kg/ha em lavoura anual contra 3.000 kg/ha em perene.

Se houver dificuldade em amostrar as camadas indicadas, o livro admite uma amostra única de 30 a 50 cm, com a ressalva de que se perde parte da informação. Ao enviar as amostras, peça também o teor de argila, porque é ele que define a dose.

O critério continua o mesmo

Gesso em perene não é aplicação de rotina. A indicação aparece quando, em alguma das camadas amostradas, a saturação por alumínio for maior que 20% ou o teor de cálcio for menor que 0,5 cmolc/dm³. Saturação por bases não entra nessa decisão: ela é métrica de superfície e decide calagem.

A hora de aplicar

A janela boa é a implantação, antes do plantio das mudas, quando ainda dá para trabalhar a área inteira. O gesso vai a lanço, depois da calagem, e não precisa ser incorporado: como a camada arável já recebeu calcário e fosfato, o gesso dissolvido atravessa essa camada e fica retido nas subsuperficiais, até 80 cm no caso das perenes.

Em pomar ou cafezal já formado ainda é possível aplicar, na projeção da copa, mas a decisão fica mais cara em tempo: soma-se o prazo de descida do sulfato ao prazo de resposta da planta, e o retorno demora ainda mais a aparecer.

Pelo mesmo motivo, o efeito residual joga a favor: as doses recomendadas duram no mínimo 5 anos e podem chegar a 15, o que em cultura perene significa cobrir boa parte do ciclo produtivo com uma única aplicação.

O motivo dos 50% a mais na dose está em gesso em cultura perene. Para o pacote completo do cafezal, veja adubação do café arábica. E as camadas a amostrar em profundidade de amostragem. Para a calagem que vem antes dela em povoamento florestal, veja calagem para eucalipto.

Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 3, p. 92-94.

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