Prática

Manejo de irrigação: lâmina, turno de rega e por que o solo decide

Irrigar por calendário é o equivalente hídrico de adubar por receita do vizinho: às vezes acerta, e quando erra você não sabe por quê. A alternativa é entender o que o seu solo consegue guardar, e é aí que textura e profundidade de raiz entram na conta.

Os três pontos de umidade que importam

Detalhes em capacidade de campo e ponto de murcha.

Por que a textura manda

O tamanho do tanque depende da distribuição de poros, que depende da textura:

TexturaComportamento
ArenosaPoros grandes. Drena rápido, água disponível pequena. Tanque pequeno, esvazia rápido.
MédiaEquilíbrio entre retenção e drenagem.
ArgilosaMuito poro pequeno. Retém bastante, mas parte da água fica presa com força alta demais e a planta não retira.

Descubra a sua classe em classificador de textura.

A segunda variável: profundidade efetiva da raiz

O reservatório que interessa não é o perfil inteiro: é a camada que a raiz explora. Uma raiz de 60 cm acessa o dobro do reservatório de uma raiz de 30 cm no mesmo solo.

E aqui a fertilidade encontra a irrigação: raiz limitada por alumínio tóxico, por compactação ou por camada de impedimento reduz o reservatório disponível. O mesmo solo, com a mesma chuva, sustenta menos.

Corrigir o subsolo é, entre outras coisas, uma medida de manejo de água: raiz mais funda é reservatório maior.

A estrutura da conta

Sem entrar em metodologia específica, a lógica é sempre esta:

  1. Quanto o solo armazena na profundidade de raiz da cultura, ou seja, a água disponível total
  2. Quanto disso se pode gastar antes de a planta sofrer, o que se chama fator de depleção e varia com a cultura e o estádio
  3. Quanto a lavoura consome por dia, a evapotranspiração, que depende do clima e do estádio da cultura
  4. Turno de rega = água que se pode gastar ÷ consumo diário
  5. Lâmina = a água a repor, corrigida pela eficiência do sistema de irrigação

Duas consequências práticas caem direto daí: solo arenoso pede irrigação mais frequente e em menor lâmina, porque o tanque é pequeno; solo argiloso comporta turno mais longo e lâmina maior.

Os erros mais comuns

  1. Lâmina maior que o solo comporta. O excedente drena abaixo da raiz, levando nitrogênio e potássio junto. Você paga a água, a energia e o adubo perdido. Ver lixiviação de nutrientes.
  2. Irrigar por calendário fixo, ignorando chuva e demanda climática.
  3. Ignorar a qualidade da água. Água com sais, aplicada sem lâmina de lixiviação, acumula sal na zona radicular. Ver salinidade do solo sob irrigação e sodicidade e PST.
  4. Não medir a uniformidade do sistema. Se um lado do pivô entrega bem menos que o outro, a lâmina média não descreve lugar nenhum.

O que muda na adubação sob irrigação

Duas coisas concretas. A meta de saturação por bases é mais alta em vários casos: milho, feijão, arroz, soja e trigo passam de 50% em sequeiro para 60% em irrigado nas tabelas de Sousa & Lobato. E o potencial produtivo maior eleva a expectativa de rendimento, que por sua vez eleva as doses de manutenção.

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