Folhas com clorose entre as nervuras, sintoma típico de deficiência de micronutriente
Calagem

Faltou micronutriente depois da calagem: como achar a causa

A sequência é conhecida. O produtor corrige o solo, planta, e a lavoura aparece com clorose entre as nervuras das folhas novas. Alguém diz que foi excesso de calcário. Outro diz que a aplicação ficou mal incorporada. Os dois podem estar certos, e o tratamento não é o mesmo. Antes de comprar micronutriente, vale gastar uma análise para saber qual dos dois é.

Por que o pH mexe com micronutriente

Elevar o pH reduz a disponibilidade de zinco, manganês, cobre e ferro. Isso não é defeito da calagem, é química: esses metais ficam mais solúveis em meio ácido e vão precipitando conforme o pH sobe. É por isso que a deficiência aparece justamente depois de uma correção.

O ponto que quase nunca é dito: dentro da faixa recomendada, isso não costuma virar problema. O livro registra que, com a adição das doses de micronutrientes recomendadas pela pesquisa, não tem havido problemas de disponibilidade na faixa de pH entre 5,5 e 6,3, ou de saturação por bases entre 40% e 60%. Ou seja: quem ficou dentro da faixa e adubou com micro segundo a recomendação normalmente não vê o sintoma.

As duas causas possíveis

Quando o sintoma aparece mesmo assim, o livro separa duas hipóteses:

  1. Dose excessiva. A saturação por bases subiu acima do necessário em toda a camada de 0 a 20 cm. O solo inteiro está com pH alto demais.
  2. Incorporação superficial. A dose até estava certa, mas o calcário ficou concentrado nos primeiros centímetros em vez de se misturar aos 20 cm. Existe então uma camada rasa supercorrigida, e é nela que a raiz nova está.

Perceba que o sintoma na folha é o mesmo nos dois casos. O que muda é onde está o problema, e por isso a solução muda também.

A análise que separa as duas

O procedimento indicado é a amostragem estratificada, coletando três camadas separadas em vez de uma amostra única de 0 a 20 cm:

A leitura é direta. Se o pH e a saturação por bases da camada de 0 a 10 cm estiverem bem acima das camadas de baixo, o problema foi de incorporação: o corretivo não desceu. Se as três camadas estiverem uniformemente altas, a dose foi excessiva mesmo.

Repare que a amostra composta de 0 a 20 cm, que é a rotina, produz exatamente a média entre uma camada supercorrigida e outra intocada. Esse valor médio pode sair perfeitamente normal e não existir em lugar nenhum do perfil. É por isso que a estratificação é o teste, e não a repetição da análise de rotina.

O que fazer em cada caso

DiagnósticoCorreção indicada
Calcário concentrado na superfícieUsar implemento que misture o corretivo até os 20 cm. O arado de discos é o que dá mistura mais homogênea em área já cultivada.
Dose excessiva até os 20 cmAplicar os micronutrientes deficientes via foliar até que a saturação por bases volte ao valor desejado.

A segunda linha merece atenção porque contraria o instinto. Não existe como retirar calcário do solo. O que se faz é atravessar o período com aplicação foliar, que entrega o nutriente sem depender do solo, enquanto o próprio cultivo e a lixiviação trazem a saturação de volta para a faixa. É manejo de transição, não solução permanente.

Como não chegar nesse ponto

Três hábitos evitam quase todos os casos: calcular a dose para a meta da cultura e não para um número redondo, incorporar de fato até os 20 cm quando a área permite, e fazer a adubação corretiva com micronutrientes junto da correção, em vez de esperar o sintoma aparecer. Micronutriente tem faixa estreita entre falta e excesso, então a dose vem da análise, não da precaução.

Para as doses de referência de cada micronutriente, veja B, Zn e Mn na prática. O mecanismo por trás da perda de disponibilidade está em como o pH decide o que a planta absorve, e a amostragem por camada em profundidade de amostragem. Se a suspeita for incorporação malfeita, veja dose acima de 5 t/ha.

Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 3, p. 82 e 87-88.

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