Arado de discos incorporando corretivo em área recém-aberta
Calagem

Dose acima de 5 t/ha de calcário: por que parcelar em duas

Existem dois motivos completamente diferentes para dividir uma dose de calcário, e confundir os dois leva a fazer a coisa certa pelo motivo errado, ou a coisa errada achando que está certa.

O primeiro é financeiro: dividir em anos para aliviar o caixa. O segundo é físico: dividir em duas operações na mesma abertura de área para o corretivo chegar mais fundo. Este texto é sobre o segundo.

O limiar são 5 t/ha

O livro coloca o corte de forma objetiva: se houver necessidade de utilizar doses elevadas, maiores que 5 t/ha, existem vantagens no parcelamento. Abaixo disso, a aplicação em uma passada, com incorporação, resolve.

O motivo é simples de visualizar. Uma quantidade muito grande de corretivo aplicada de uma vez sobre a superfície fica difícil de misturar de forma homogênea. O implemento revolve a camada e o produto tende a se concentrar onde caiu, não a se distribuir pelos 20 cm. Você comprou 6 t/ha e a raiz encontra o efeito de bem menos que isso na profundidade onde precisa.

A receita de duas etapas

A sequência sugerida para abertura de área é esta:

  1. Espalhar metade da dose depois do desmatamento e incorporar com grade pesada. Nesse momento se faz também a catação de raízes e a limpeza da madeira remanescente, quando necessário.
  2. Aplicar a segunda metade e incorporar com arado de discos, o mais profundo possível.

Repare que os implementos são diferentes de propósito. A grade pesada trabalha mais raso e serve para a primeira mistura, junto da limpeza da área. O arado de discos é que leva a segunda metade para baixo. O resultado é um perfil corrigido em profundidade, e não uma camada de 8 cm bem corrigida sobre um solo que continua ácido.

Em área já cultivada é outra conversa

Se a necessidade de calcário alta aparece numa área que já está em produção, não há desmatamento nem catação de raízes, e a receita muda. O livro é direto: nesse caso a incorporação deve ser feita com arado de discos, que é o implemento que propicia mistura mais homogênea do calcário no solo.

Grade sozinha, em área cultivada, tende a deixar o corretivo na faixa superficial. É exatamente o cenário que produz deficiência de micronutriente logo depois da calagem, com a camada de 0 a 10 cm supercorrigida e a de 10 a 20 cm quase intocada.

O que isso não é

Duas confusões comuns vale desfazer:

Quem tem dose alta assim

Necessidade acima de 5 t/ha aparece tipicamente em três situações: solo virgem sendo aberto, área de pastagem degradada que ficou anos sem reposição de bases, e solo argiloso com CTC alta, em que cada ponto de saturação custa mais calcário. Nos três casos o investimento é grande, e é justamente por isso que vale gastar a operação a mais para garantir que o produto chegue onde deveria.

Calcário mal incorporado é dose cheia com efeito de meia dose. O custo já foi pago; o que se perde é o resultado.

Vale ainda lembrar do tempo: o corretivo depende de umidade para reagir. Numa abertura de área com dose alta, o ideal é aplicar com meses de antecedência do primeiro plantio, e não na semana anterior.

Qual implemento faz o quê está em arado de disco, aiveca, cincel ou grade. Para a decisão entre aplicar em superfície e incorporar, calcário a lanço ou incorporado. E se o problema for caixa e não solo, V% baixo sem gastar demais. E o efeito de uma incorporação rasa aparece em faltou micronutriente depois da calagem. Por que a correção dura menos em uns solos que em outros está em matéria orgânica, CTC e efeito residual.

Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 3, p. 86-87.

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