Nível crítico de fósforo por textura: 4, 8, 15 e 18 mg/dm³
Poucos números do laudo geram tanta confusão quanto o fósforo. O produtor vê 9 mg/dm³, compara com o vizinho que tem 9 também, e os dois recebem recomendações diferentes. Não é erro de ninguém: o número de P só significa alguma coisa quando lido junto do teor de argila.
Os quatro níveis críticos
No sistema de sequeiro, com culturas anuais e P extraído por Mehlich-1 na camada de 0 a 20 cm, os níveis críticos são:
| Textura do solo | Nível crítico de P (mg/dm³) |
|---|---|
| Muito argilosa | 4 |
| Argilosa | 8 |
| Média | 15 |
| Arenosa | 18 |
Esses valores são definidos como suficientes para obter 80% do rendimento potencial na ausência de aplicação de fósforo naquele ano agrícola.
Voltando ao exemplo: 9 mg/dm³ num solo muito argiloso está bem acima do nível crítico de 4. O mesmo 9 num solo arenoso está a meio caminho do nível crítico de 18. Mesma análise, diagnósticos opostos.
Por que o arenoso exige mais
À primeira vista parece contraditório. O solo argiloso é o que mais fixa fósforo, então não deveria precisar de mais teor no laudo?
A chave está no que o extrator mede e no que a planta encontra. Num solo muito argiloso, boa parte do fósforo está adsorvida aos óxidos de ferro e alumínio, e o Mehlich-1 recupera pouco dela. Mas essa reserva adsorvida não está perdida: ela volta lentamente para a solução ao longo do ciclo, repondo o que a raiz retira. Um teor baixo no laudo convive com um abastecimento contínuo.
No solo arenoso acontece o oposto. Há menos sítios de adsorção, o extrator recupera quase tudo o que existe, e não há reserva atrás. O que o laudo mostra é praticamente tudo o que a planta terá, e por isso o número precisa ser maior para sustentar a mesma safra.
No argiloso, o laudo subestima o que existe. No arenoso, o laudo mostra o que existe. Por isso a régua é diferente.
O que cada classe significa
As classes de interpretação não são rótulos vagos. Elas correspondem a faixas de rendimento potencial que a cultura alcançaria sem aplicação de P naquele ano:
| Classe | Rendimento potencial no sequeiro |
|---|---|
| Muito baixo | 0 a 40% |
| Baixo | 41 a 60% |
| Médio | 61 a 80% |
| Adequado | 81 a 90% |
| Alto | acima de 90% |
Ler assim muda o peso da palavra. Quando o laudo diz que o P está médio, ele está dizendo que, sem adubação fosfatada neste ano, a lavoura entregaria entre 61% e 80% do que poderia entregar. Não é um recado tranquilizador.
Peça o teor de argila
Como a interpretação inteira depende da argila, essa determinação precisa vir no mesmo laudo. É análise física, barata, e sem ela o resultado de fósforo não tem régua. Se o seu laboratório não a inclui por padrão, solicite: é o parâmetro que transforma o número de P em decisão.
Há uma alternativa ao teor de argila, o fósforo remanescente, que capta não só a quantidade de argila mas também a natureza mineralógica dela. Nesse caso a interpretação usa tabelas próprias, e a comparação entre os dois critérios pode dar diferenças de até ± 80 kg/ha de P₂O₅ na recomendação corretiva.
E se o laudo vier por resina
Alguns laboratórios usam resina trocadora de íons em vez de Mehlich-1. Nesse caso, a interpretação é pouco influenciada pelo teor de argila, e não há necessidade de criar classes por textura. É uma tabela só, o que simplifica a leitura, mas significa que você não pode comparar diretamente um resultado de resina com um de Mehlich-1 nem usar a régua de um no outro.
Antes de decidir a dose, confira sempre três coisas no cabeçalho do laudo: qual extrator foi usado, qual a profundidade amostrada e qual o teor de argila. Sem essas três, qualquer conta de fósforo é chute com aparência de cálculo.
Por que a textura muda a adubação inteira, e não só o fósforo, está em solo arenoso ou argiloso. Se o seu laudo veio por outro extrator, veja Mehlich-1 e resina. E o significado das frações em areia, silte e argila. Sob pivô os números mudam: veja fósforo no irrigado.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 6, p. 153-155.
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