Palhada devolve potássio: 150 kg/ha valeram por 600 kg/ha
Potássio é o nutriente que a planta acumula em maior quantidade nas partes vegetativas, e é também o que menos sai no grão. Isso significa que a maior parte do potássio que a lavoura absorveu está na palha que fica no campo, e o que acontece com ela decide boa parte da adubação seguinte.
O experimento
O livro traz uma comparação em oito cultivos, com duas formas de manejo dos restos culturais:
| Manejo | K₂O aplicado | Resultado em grãos |
|---|---|---|
| Restos culturais incorporados | 150 kg/ha, dose única | Mesmo total dos oito cultivos |
| Restos removidos anualmente | 600 kg/ha | Mesmo total dos oito cultivos |
Quatro vezes menos adubo potássico para o mesmo resultado, apenas por deixar a palha no campo.
O efeito na CTC
Há um segundo resultado no mesmo ensaio que ajuda a explicar o primeiro: na área com restos incorporados, a CTC efetiva ficou em 4,1 cmolc/dm³, contra 3,1 a 3,3 nas demais.
Ou seja, a palhada não devolve apenas o potássio que estava dentro dela. Ela também constrói matéria orgânica, e a matéria orgânica é justamente o que gera cargas negativas nos solos intemperizados do Cerrado. Mais cargas significam mais sítios para segurar o potássio aplicado, e menos perda por lixiviação.
São dois ganhos que se somam: o potássio devolvido e a capacidade de retê-lo.
Remover a palha é vender potássio duas vezes: o que sai dentro dela e o que passa a se perder porque a CTC caiu.
Por que o potássio se comporta assim
O potássio na planta não entra em estrutura, ele fica em forma iônica, atuando em processos como regulação osmótica e ativação enzimática. Como não está ligado a nenhum composto estável, ele é liberado rapidamente quando o tecido morre e a palha começa a se decompor.
Isso é diferente do nitrogênio e do fósforo, que estão em proteínas e outras estruturas e dependem de mineralização microbiana mais lenta. O potássio da palhada volta ao sistema em semanas, não em safras.
Onde isso muda a decisão
- Colheita de grão. A maior parte do potássio permanece no campo. A reposição pode ser calculada pela exportação real, que é baixa.
- Silagem e feno. A planta inteira sai da área, e com ela o potássio inteiro. Aí a conta é outra e bem maior.
- Queima ou retirada de palha. Elimina o retorno e ainda impede a construção de matéria orgânica. É a situação do tratamento que precisou de 600 kg/ha.
O que isso não significa
Dois cuidados para não ler além do dado:
Primeiro, a palhada recicla, não cria. O potássio que ela devolve é o que a planta tirou do solo, e o sistema continua exportando o que sai no grão. A adubação de manutenção não desaparece, ela fica menor.
Segundo, o potássio liberado da palha fica sujeito às mesmas perdas de qualquer potássio na solução do solo. Em solo arenoso, de CTC baixa, e com chuva forte, parte dele lixivia. É por isso que a construção de matéria orgânica importa tanto: ela é o que segura o que a palhada devolveu.
Para fechar a conta
Se você mantém os restos culturais, a manutenção mínima de referência é de 60 kg/ha de K₂O para 3 t/ha de soja e 48 kg/ha para 8 t/ha de milho. Esses números já pressupõem o retorno da palhada. Em sistema que remove os restos, eles não valem.
O que mais muda quando se para de revolver o solo está em plantio direto e fertilidade. A capacidade de segurar o que a palhada devolve, em CTC efetiva e potencial. E o custo de deixar a terra nua, em cobertura do solo. Quando a planta inteira sai da área, a conta se inverte: silagem e feno.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 7, p. 174-175 e 181-182.
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