Pó de rocha substitui o calcário? O que o registro e os ensaios mostram
Pó de rocha virou assunto de porteira. O argumento é bom de ouvir: rocha moída de pedreira perto da fazenda, frete curto, preço baixo e a promessa de rejuvenescer um Latossolo cansado. A pergunta que chega ao agrônomo é sempre a mesma, e é uma pergunta de calagem: dá para trocar parte do calcário por pó de rocha? A resposta começa no registro do produto, não no laboratório.
Remineralizador é uma categoria própria, e não é corretivo
A Lei nº 12.890, de 2013, criou a figura do remineralizador e o define como material de origem mineral que sofreu apenas redução e classificação de tamanho por processos mecânicos, e que altera os índices de fertilidade do solo pela adição de macro e micronutrientes, além de melhorar propriedades físicas, físico-químicas ou a atividade biológica do solo. A Instrução Normativa nº 5, de 10 de março de 2016, do Ministério da Agricultura, regulamentou essa lei e fixou o que o produto precisa entregar para ser registrado.
| Exigência da IN 5/2016 para remineralizador | Limite |
|---|---|
| Natureza física | filler, pó ou farelado |
| Soma de bases, CaO mais MgO mais K₂O | igual ou maior que 9% |
| Teor de K₂O | igual ou maior que 1% |
| SiO₂ livre, o quartzo | vedado acima de 25% |
| Arsênio, cádmio, mercúrio e chumbo | 15, 10, 0,1 e 200 ppm |
| pH de abrasão | deve ser declarado pelo registrante |
Agora olhe o que não está nessa lista: PN, RE e PRNT. Essas três garantias são exigidas dos corretivos de acidez pela Instrução Normativa nº 35, de 2006, e é delas que sai a dose de calcário. O remineralizador não declara poder de neutralização, e por isso não existe número legal para substituir tonelada de calcário por tonelada de pó de rocha. Quem faz essa troca está estimando no escuro. O que a calagem precisa entregar está em o que é calagem.
Vale dizer com clareza: a norma também diz que o registro só sai com apresentação de trabalhos científicos conclusivos quanto à eficiência agronômica. Produto registrado é produto que passou por essa exigência, e produto sem registro é conversa.
O que a pesquisa encontrou até agora
Em janeiro de 2020 a Embrapa publicou posicionamento oficial sobre agrominerais silicáticos, afirmando que não há informação científica suficiente para recomendá-los como fonte de nutrientes, sobretudo de potássio, ou como condicionadores de solo para a agricultura. O tema segue em pesquisa: um levantamento da Embrapa Territorial, de 2025, reuniu 219 artigos e resumos científicos sobre remineralizadores e materiais derivados de agrominerais silicáticos, justamente para mapear o que já se sabe e onde estão as lacunas.
Sobre acidez, o dado mais direto vem de uma nota técnica da Epagri de 2024. Nos ensaios conduzidos em Santa Catarina, na maioria das vezes não houve efeito positivo dos remineralizadores locais. Em situações específicas, de solo de baixa fertilidade e sem mistura com fertilizante, houve incremento vegetal e elevação do pH, mas apenas com doses muito altas e, por consequência, antieconômicas, o que não justificaria o uso em substituição ao calcário para elevar o pH.
Sobre potássio, que é o outro argumento de venda, os números ajudam a calibrar a expectativa. Extrações sucessivas com ácidos orgânicos liberaram 4,86% e 4,34% do potássio total do pó de rocha, e métodos químicos e biológicos extraíram de 12% a 20% do potássio total. Num ensaio em vaso da Embrapa Solos, com 11 agrominerais silicáticos comparados ao cloreto de potássio em dose equivalente de K₂O, a maioria apresentou eficiência relativa abaixo de 50%, e a conclusão dos autores é que o potencial da maior parte desses materiais como fonte eficiente de potássio é muito baixo.
Por que o pó de rocha mexe pouco no pH
A diferença não é mística, é mineralogia. O calcário é carbonato, e carbonato reage com o hidrogênio do solo liberando cálcio, magnésio e hidroxila em questão de semanas. O remineralizador silicático depende de intemperismo: a base está presa em silicatos primários que se dissolvem em escala de anos. O pH de abrasão que a norma manda declarar é um indicador da reação da superfície da partícula moída, e não uma medida de quantos quilos de acidez aquele material neutraliza por tonelada.
Isso tem dois efeitos práticos. O primeiro é que o cálcio e o magnésio do pó de rocha chegam devagar, e quem precisa plantar em sessenta dias não pode contar com eles. O segundo é que a reserva lenta de potássio de um silicato se parece muito com o potássio não trocável do solo, aquele que existe mas não aparece na extração de rotina do laudo, assunto de potássio não trocável. Reserva lenta não é adubação de safra.
A conta do frete, que é o argumento central
O trabalho da Embrapa é explícito em dizer que os agrominerais silicáticos se inserem numa logística regional, por serem insumos usados em volumes elevados, cujo frete se torna o fator decisivo para a compra. Esse é o ponto honesto a favor do produto, e é também o que define como comparar. Se o pó de rocha custa menos por tonelada posta na fazenda, mas não tem unidade declarada de efeito, não existe denominador para dividir o preço. Com calcário existe: preço por tonelada dividido pelo PRNT, conforme PRNT do calcário. É a diferença entre comparar insumo e comparar caminhão.
Onde ele pode entrar sem risco
- Como complemento, nunca como desconto na dose de calcário calculada pelo laudo.
- Somente produto registrado como remineralizador, com número de registro e laudo de garantias.
- Em faixa de teste na própria fazenda, com análise de solo antes e depois, nas camadas de 0 a 10 e 10 a 20 cm, acompanhada por pelo menos duas safras, porque o efeito esperado é lento por natureza.
- Com a conta de frete feita: em volume alto, cada quilômetro pesa mais que o preço de balcão.
Na prática, trate o pó de rocha como se trata qualquer insumo de efeito incerto: ele precisa provar na sua área, com testemunha ao lado, antes de entrar no orçamento. A acidez, enquanto isso, continua sendo resolvida por carbonato, e a dose continua saindo da saturação por bases do seu laudo. Quem quiser entender o papel do silício nessa história, e o que de fato está sustentado, encontra em silício na agricultura.
Referências: BRASIL. Lei nº 12.890, de 10 de dezembro de 2013. BRASIL. MAPA. Instrução Normativa nº 5, de 10 de março de 2016. Remineralizadores e substratos para plantas. VILELA, G. F.; MARTINS, E. de S.; SILVEIRA, C. A. P.; FERREIRA, L. H. G.; PAIM, F. A. de P. Banco de dados de estudos científicos sobre agrominerais silicáticos. Campinas: Embrapa Territorial, 2025. (Comunicado Técnico, 47). CANTÚ, R. R. Uso de remineralizadores na agricultura. Epagri, Nota Técnica nº 03/2024. LOUZADA, Y. S. et al. Avaliação agronômica de diferentes agrominerais silicáticos como fonte de potássio em ambiente controlado. Embrapa Solos, 2025. BRASIL. MAPA. Instrução Normativa SDA nº 35, de 4 de julho de 2006.Aplica esse conhecimento no seu próprio laudo
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