Milho em cobertura nitrogenada avançada em lavoura do Cerrado
Adubação

Por que o último quilo de nitrogênio rende menos que o primeiro

Quando a lavoura responde bem ao nitrogênio, a tentação é aumentar a dose e esperar resposta proporcional. Ela não vem, e existe número para explicar por quê.

A eficiência por faixa de dose

Dose de NRecuperação pela planta
Abaixo de 60 kg/ha60%
Entre 60 e 120 kg/ha56%
Acima de 120 kg/hamenos de 50%

Recuperação é a fração do nitrogênio aplicado que a planta efetivamente absorve. O restante se perde por volatilização, lixiviação de nitrato ou desnitrificação, ou fica imobilizado na biomassa microbiana.

O que isso significa em quilos

Aplicando 60 kg/ha, a planta absorve cerca de 36 kg. Aplicando 120 kg/ha, absorve em torno de 67 kg. Dobrar a dose não dobrou a absorção, e a diferença cresce conforme a dose sobe.

Na faixa acima de 120 kg/ha, mais da metade do produto comprado não vira planta. É a mesma tonelada de ureia, com o mesmo frete e a mesma operação, entregando menos.

Cada faixa de dose tem seu próprio custo por quilo de nitrogênio absorvido, e ele sobe conforme você aumenta a dose.

Por que a eficiência cai

Duas explicações se somam. A primeira é de demanda: a planta absorve o que precisa, e o excedente permanece no solo em forma mineral, exposto a todos os caminhos de perda. Quanto mais nitrogênio disponível além da demanda instantânea, maior a fração vulnerável.

A segunda é de tempo. Nitrogênio mineral no solo não espera. O nitrato não é retido pelas cargas do solo e desce com a água; o amônio na superfície volatiliza; em solo encharcado a desnitrificação leva o nitrato para a atmosfera. Uma dose maior fica mais tempo à espera de ser absorvida, e nesse intervalo perde mais.

O que aumenta a recuperação

O texto acrescenta um ponto importante: sistema radicular mais profundo aumenta esses valores, embora a diferença entre as faixas de dose permaneça.

Isso liga a eficiência do nitrogênio a decisões que parecem não ter nada a ver com adubação nitrogenada:

Como usar na decisão de dose

A conta correta compara o valor do grão adicional com o custo do nitrogênio adicional, usando a eficiência da faixa em que você está entrando, e não a média. Subir de 100 para 140 kg/ha de N significa que os 40 kg extras rendem abaixo de 50%, não os 56% da faixa anterior.

Vale também revisar a fórmula da dose. Ela usa um fator de correção pela eficiência do fertilizante, e o valor de referência de 1,33 corresponde a 75% de eficiência. Em doses altas, esse fator é otimista.

O caminho mais barato

Antes de subir a dose, vale conferir o que está limitando a absorção do que já está sendo aplicado: perfil de solo corrigido em profundidade, ausência de compactação, época e fonte adequadas, e umidade no momento da aplicação. Esses ajustes movem a eficiência sem aumentar a compra.

Os caminhos por onde o nitrogênio escapa estão em o ciclo do N no solo. O que mantém a raiz rasa e derruba a recuperação, em como a compactação trava a raiz. E o princípio que organiza a decisão, em a lei do mínimo. Um jeito de subir a recuperação sem subir a dose está em gesso e nitrogênio. A fonte escolhida ainda cobra em calcário: veja o índice de acidez do adubo nitrogenado.

Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 5, p. 136-137 e 142-143.

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