Gesso e nitrogênio: a mesma dose rendeu 2,1 t/ha a mais
A gessagem é vendida como solução para veranico: raiz mais profunda, mais água ao alcance, lavoura que atravessa a estiagem. É verdade, mas não é tudo. Existe um ganho paralelo que aparece mesmo quando falta de água não é o problema.
O ensaio irrigado
Com a mesma adubação nitrogenada, 20 kg/ha de N no plantio e 80 kg/ha em cobertura, o milho produziu:
| Tratamento | Produtividade |
|---|---|
| Sem gesso | 4,7 t/ha |
| Com gesso | 6,8 t/ha |
Diferença de 2,1 t/ha, ou cerca de 35 sacas por hectare, sem um quilo a mais de nitrogênio.
O detalhe que fecha o argumento: o ensaio era irrigado. Não houve efeito de água, porque água não faltou em nenhum dos dois tratamentos. O que mudou foi outra coisa.
Onde o nitrogênio estava
A medição que explica: no tratamento sem gesso, foram encontrados 48 kg/ha de nitrogênio na forma de nitrato acumulados até 60 cm de profundidade. No tratamento com gesso, houve absorção de 44 kg/ha de nitrogênio a mais, para a mesma dose aplicada.
Ou seja, o nitrogênio não tinha se perdido. Ele havia descido para uma camada que a raiz não alcançava, e ficou lá, contabilizado como perda pelo produtor e presente no perfil o tempo todo.
O nitrogênio estava no solo. A raiz é que não estava.
Por que o gesso resolve isso
O nitrato tem carga negativa, e o solo do Cerrado, na camada arável corrigida, tem predominância de cargas negativas também. Sem sítios para se prender, o nitrato acompanha a água que desce. Isso é inevitável.
O que o gesso muda não é o comportamento do nitrato, é o alcance da raiz. Ao levar cálcio para as camadas de 20 a 60 cm e complexar o alumínio tóxico que estava lá, ele transforma um subsolo proibido em subsolo explorável. A raiz desce, e encontra o nitrato que já havia descido.
É por isso que o efeito aparece com nutrientes de mobilidades opostas. Com o gesso, tanto o nitrogênio, que é facilmente levado para o subsolo e pouco aproveitado se as raízes forem superficiais, quanto o fósforo, de baixa mobilidade, são absorvidos com maior eficiência. Num ensaio com trigo submetido a veranico na floração, houve aumento médio de 50% na absorção de nutrientes devido ao uso do gesso.
O que isso muda na sua conta
Se a sua lavoura recebe dose alta de nitrogênio e a resposta está aquém do esperado, existe uma hipótese antes de aumentar a dose: o nitrogênio pode estar saindo da zona de raiz, e não do sistema.
A verificação é barata e direta: análise do subsolo, nas camadas de 20 a 40 cm e 40 a 60 cm. Se em alguma delas a saturação por alumínio estiver acima de 20% ou o cálcio abaixo de 0,5 cmolc/dm³, há grande probabilidade de resposta ao gesso, e o problema de nitrogênio pode ser, na verdade, um problema de raiz.
A conta de custo muda também
Ao avaliar a gessagem, some três benefícios que costumam ser contabilizados separadamente ou nem contabilizados:
- Água. Raiz profunda atravessa veranico.
- Nutrientes. Melhor aproveitamento do nitrogênio e do fósforo já aplicados.
- Enxofre. O gesso agrícola tem cerca de 15% de S, o que costuma dispensar a adubação específica com enxofre por vários anos e permite usar fórmula concentrada na semeadura.
E lembre do prazo: as doses recomendadas têm efeito residual de no mínimo 5 anos, podendo estender-se por 15, dependendo do solo. O custo se dilui por todo esse período.
O critério continua sendo o subsolo
Nada disso autoriza gessar por precaução. A dose sai da textura, 50 × argila em porcentagem para cultura anual e 75 × argila para perene, em kg/ha, e a indicação vem da análise das camadas subsuperficiais. Sem amostrar o subsolo, a decisão é chute.
A dose por textura está em quanto de gesso aplicar por hectare. Quem desce primeiro no perfil, em lixiviação de nutrientes. E o outro motivo de raiz rasa, que gesso nenhum resolve, em compactação e raízes. Por quanto tempo esse efeito dura está em efeito residual do gesso. Em cultura perene o retorno demora mais a aparecer: veja gesso em café, manga e laranja.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 5, p. 136-137, e Capítulo 3, p. 92-94.
Aplica esse conhecimento no seu próprio laudo
Cola seu laudo no SoloLab e recebe calagem, gessagem e adubação NPK calculadas pra sua cultura, com a memória de cálculo aberta. Grátis, sem limite de laudos.
Calcular meu laudo agoraOu vá direto pra Calculadora de adubação NPK.