A tabela de nitrogênio já desconta 80 kg/ha vindos do solo
Uma tabela de adubação nitrogenada parece um número pronto, e é justamente por isso que ela engana. O valor ali não é o que a cultura precisa: é o que falta comprar depois de contar com o que o solo entrega sozinho.
O desconto embutido
No cálculo da adubação nitrogenada das tabelas do livro foi computado um suprimento de nitrogênio pelo solo de:
| Cultura | Suprimento considerado pelo solo |
|---|---|
| Milho | 80 kg/ha de N |
| Sorgo | 80 kg/ha de N |
| Trigo | 80 kg/ha de N |
| Cevada | 80 kg/ha de N |
| Algodão | 80 kg/ha de N |
| Arroz | 50 kg/ha de N |
Em todos os casos, considerou-se ainda uma eficiência do fertilizante de 75%.
Por que isso importa
Porque a premissa pode não valer na sua área. Os 80 kg/ha vêm principalmente da mineralização da matéria orgânica, e cada 1% de matéria orgânica fornece em torno de 30 kg/ha de N por ciclo. Ou seja, o desconto de 80 kg/ha pressupõe algo próximo de 2,7% de matéria orgânica.
Se o seu solo tem 1,5% de MO, o suprimento real está mais perto de 45 kg/ha, e a tabela está descontando 35 kg/ha que a sua área não tem. A lavoura vai receber menos nitrogênio do que precisa, e ninguém vai entender por quê.
A tabela não erra. Ela responde a uma pergunta com uma premissa embutida, e a premissa pode não ser a sua.
O caso do solo que perdeu matéria orgânica
Existe um cenário documentado em que o suprimento cai bem abaixo do previsto: solos arenosos sob monocultura de soja e preparo excessivo, em que houve perda de matéria orgânica ao longo dos anos.
Nesse tipo de área, o teor de matéria orgânica do laudo de hoje já reflete anos de oxidação, e continuar caindo. Usar a tabela sem ajuste subestima progressivamente a dose necessária, safra após safra.
Como ajustar
Quando a sua condição foge do padrão, abra a fórmula que está por trás da tabela:
Dose de N = (RNC − SNS) × f, com f = 1,33 para eficiência de 75%.
Substitua o suprimento do solo pelo valor calculado com o seu teor de matéria orgânica, em vez dos 80 kg/ha padrão. O exemplo do livro fecha assim: milho com expectativa de 10 t/ha, solo argiloso com 3% de matéria orgânica, suprimento de 90 kg/ha, resultado de 79,8 kg/ha, arredondados para 80, parcelados em 30 no plantio e 50 em cobertura com 7 ou 8 folhas.
O que mais mexe no suprimento
- Cultura anterior. Resíduo de leguminosa tem relação carbono e nitrogênio baixa e mineraliza rápido, liberando N. Palhada madura de gramínea tem relação alta e imobiliza nitrogênio temporariamente.
- Tempo de sistema. Cerrado recém-incorporado e primeiros anos de plantio direto são áreas de alto potencial de resposta ao nitrogênio, porque o suprimento do solo ainda é baixo. O livro chega a recomendar aumentar a dose de aveia em 20% nessas condições, e reduzir em 40% em área que teve soja nos últimos três anos ou mais.
- Textura e preparo. Solo arenoso e revolvimento frequente aceleram a perda de matéria orgânica.
Como não errar
Antes de usar qualquer tabela de nitrogênio, confira três coisas: qual expectativa de rendimento ela pressupõe, qual suprimento do solo ela descontou, e qual eficiência de fertilizante ela adotou. Se as três batem com a sua realidade, use a tabela. Se alguma delas não bate, use a fórmula.
A razão de o nitrogênio não vir no laudo está em por que o nitrogênio não aparece na análise. O indicador que substitui a medida, em matéria orgânica no laudo. E o efeito do resíduo da cultura anterior, em relação C/N. A fórmula aberta, para quando a premissa não é a sua, está em dose pelo histórico da área.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 5, p. 142-144, e Capítulo 12, p. 285, 288, 290, 293, 308, 311 e 313.
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