Dose de nitrogênio pelo histórico da área: a fórmula aberta
Tabela de adubação nitrogenada é feita para uma condição média, e a sua área quase nunca é a média. Quando a expectativa de rendimento, o teor de matéria orgânica ou a cultura anterior fogem do padrão, vale abrir a fórmula que está por trás da tabela e montar a conta.
A fórmula
Dose de N = (RNC − SNS) × f
Onde:
- RNC é o requerimento de nitrogênio da cultura, dado pela expectativa de rendimento.
- SNS é o suprimento de nitrogênio pelo solo.
- f é o fator que corrige pela eficiência do fertilizante. Para eficiência de 75%, f = 1,33.
A lógica é direta: descubra quanto a planta precisa, tire o que o solo já entrega, e aumente o resultado para compensar o que o adubo perde antes de chegar à planta.
Quanto o solo fornece
O indicador prático é a matéria orgânica: cada 1% de matéria orgânica fornece cerca de 30 kg/ha de nitrogênio por ciclo.
Um solo com 3% de MO entrega, portanto, em torno de 90 kg/ha de N sem que você aplique nada. É por isso que dois solos com a mesma cultura e a mesma expectativa podem ter doses de nitrogênio bem diferentes.
O exemplo fechado
Milho com expectativa de 10 t/ha, em solo argiloso com 3% de matéria orgânica:
| Etapa | Conta |
|---|---|
| Suprimento pelo solo | 3% × 30 = 90 kg/ha de N |
| Requerimento menos suprimento | resulta em 60 kg/ha de N a aplicar antes da correção |
| Correção pela eficiência | 60 × 1,33 = 79,8 kg/ha |
| Dose arredondada | 80 kg/ha de N |
E o parcelamento sugerido para esse caso: 30 kg/ha no plantio e 50 kg/ha em cobertura, com a cultura em 7 ou 8 folhas.
Por que o fator 1,33
O fertilizante nitrogenado não chega inteiro à planta. Parte volatiliza como amônia, parte lixivia como nitrato, parte se perde por desnitrificação. Considerando eficiência de recuperação de 75%, é preciso aplicar mais do que a planta precisa: 100 ÷ 75 = 1,33.
Vale saber que essa eficiência não é constante. A recuperação cai conforme a dose sobe: até 60 kg/ha de N ela fica em torno de 60%, entre 60 e 120 kg/ha cai para 56%, e acima de 120 kg/ha fica abaixo de 50%. Doses altas pagam pedágio maior.
A dose calculada não é o que a planta absorve. É o que você precisa comprar para que ela absorva o que precisa.
O que ajustar na sua área
Três variáveis mudam bastante o resultado e merecem atenção:
- Cultura anterior. Depois de leguminosa bem nodulada, o solo entrega mais nitrogênio. Depois de palhada de gramínea madura, com relação carbono e nitrogênio alta, a microbiota imobiliza N temporariamente e o suprimento efetivo cai no início do ciclo.
- Expectativa realista. Use o histórico da sua gleba, não a média regional. Superestimar a expectativa infla a dose inteira.
- Matéria orgânica de verdade. Confira o método do laboratório e mantenha coerência entre análises de anos diferentes.
Onde a conta pode falhar
Há um cenário em que o suprimento pelo solo despenca abaixo do que a matéria orgânica sugere: solos arenosos sob monocultura com preparo excessivo, em que a matéria orgânica se oxida ano após ano. Nesse caso, o número do laudo de hoje ainda não reflete o que estará disponível daqui a algumas safras.
Do outro lado, sistemas com plantio direto consolidado, rotação e cobertura permanente constroem matéria orgânica e aumentam o suprimento com o tempo, reduzindo a dose necessária.
Como fechar
Calcule a dose pela fórmula, compare com a tabela da cultura e veja se a diferença tem explicação. Se a sua conta der muito acima da tabela, provavelmente a expectativa de rendimento está otimista. Se der muito abaixo, confira se o teor de matéria orgânica não está superestimado ou se o preparo do solo não está queimando essa reserva.
Para onde o nitrogênio se perde entre a aplicação e a planta, veja o ciclo do N no solo. O indicador que estima o suprimento está em matéria orgânica no laudo, e a razão de o N não aparecer na análise, em por que o nitrogênio não aparece. A premissa embutida na tabela está em a tabela já desconta 80 kg. Definida a dose, falta o dia: veja a época da cobertura por estádio.
Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 5, p. 136 e 142-144.
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