Torroes de solo alinhados na calha depois da tradagem feita no campo
Prática

Análise de solo online: como saber se dá pra confiar na dose que saiu

Você colou o laudo, escolheu a cultura e a tela devolveu uma dose. Agora vem a pergunta que importa: dá pra entrar na loja de insumo e comprar calcário com esse número?

Dá, se você conseguir refazer a conta. Dose de calagem não é opinião nem estimativa estatística. É uma fórmula fechada, com quatro entradas, que cabe na calculadora do celular. Quem mostra as quatro entradas deixa você auditar. Quem mostra só o resultado está pedindo fé.

Abaixo estão as cinco conferências que você faz sozinho, com o laudo na mão, antes de fechar a compra.

As cinco conferências, em resumo

O que conferirSe estiver errado
A fórmula e as entradas aparecemNão existe conferência possível
A unidade do laudo é a que a fórmula esperaDose dez vezes fora
O PRNT é o do calcário que você vai comprarEntrega menos corretivo do que a conta pediu
A profundidade da conta é a da amostraCamada corrigida mais rasa que a raiz
A meta de V% é da sua cultura e do seu regimeCompra a mais, ou correção que não fecha

1. A conta aparece, ou só o resultado?

A necessidade de calcário pelo método da saturação por bases sai desta conta:

NC (t/ha) = (V2 - V1) x T / 100

São quatro entradas e nada mais: V1, a saturação por bases atual, que vem do laudo; V2, a meta da cultura, que vem de tabela; T, a CTC a pH 7,0, que também vem do laudo; e o PRNT, que vem do saco de calcário. Se o resultado na tela não mostra esses quatro valores, você não tem o que conferir, tem um número para acreditar. Memória de cálculo aberta não é enfeite: é o que transforma a dose em algo verificável. A fórmula completa, com exemplo, está em como calcular calcário pelo V%.

Confira também qual CTC entrou. A fórmula pede a CTC a pH 7,0 (T), não a CTC efetiva (t). No laudo de exemplo mais abaixo, trocar uma pela outra derruba a dose de 1,48 para 0,52 t/ha, pouco mais de um terço do que a área precisava.

2. A unidade do laudo é a que a fórmula espera

Cálcio, magnésio, potássio e H+Al podem vir em cmolc/dm³ ou, em laboratório no padrão IAC, em mmolc/dm³, que é dez vezes maior. Potássio e fósforo costumam vir em mg/dm³, e o potássio só entra na soma de bases depois de dividido por 391.

Aqui está a parte traiçoeira, e é o motivo de esse erro passar por tanta gente: V% e m% são razões, nascem de uma divisão entre valores que estão na mesma unidade. Multiplique todas as bases por dez e o V% não muda um ponto. Ou seja, a tela mostra um V1 perfeitamente plausível, de 27%, enquanto a dose sai dez vezes maior. Nada parece estranho até o caminhão de calcário chegar na porteira. O mapa completo das unidades está em as unidades do laudo de solo.

3. O PRNT é o do calcário que você vai comprar

A fórmula entrega a dose de um calcário de referência, PRNT 100%. O calcário da sua região tem o PRNT dele, escrito no laudo do produto. A correção é esta:

Dose do produto = NC x 100 / PRNT

Aplicar a dose de PRNT 100 usando um calcário PRNT 80 entrega exatamente 80% do corretivo que a área pedia. Você gasta, passa a distribuidora, e no laudo do ano seguinte o V% mal se move.

Existe o erro na direção oposta, que é corrigir duas vezes. Algumas tabelas, como as do Boletim 100 do IAC, já trazem o PRNT dentro da conta e entregam a dose do produto. Se a sua dose já veio corrigida e você corrige de novo, compra calcário a mais. Por isso a pergunta certa não é apenas se o PRNT entrou na conta, mas qual PRNT entrou, e se ele é o do saco que você vai comprar. O detalhe de PN, RE e granulometria está em por que PRNT 90% não é 100%.

4. A profundidade da conta é a da sua amostra

O método do V% foi calibrado para a camada de 0 a 20 cm. Isso cria duas conferências, não uma.

5. A meta de V% é da sua cultura e do seu regime

V2 não é 50% por lei. É 50% para soja, milho, feijão e algodão em sequeiro; sobe para 60% nessas mesmas culturas sob irrigação; é 60% no café arábica; e cai para 30% na mandioca, que sofre com excesso de calagem.

No laudo do exemplo, usar 60% em vez de 50% numa soja de sequeiro leva a dose de 1,48 para 2,14 t/ha, 45% de calcário a mais. Então confira qual meta a ferramenta assumiu, e se ela separou sequeiro de irrigado. A tabela cultura por cultura está no guia de adubação por cultura no Cerrado.

A conta de verificação, passo a passo

Este é o laudo de exemplo. Camada de 0 a 20 cm, soja de sequeiro, calcário da loja com PRNT 85%:

ParâmetroValor
Ca1,2 cmolc/dm³
Mg0,4 cmolc/dm³
K94 mg/dm³
Al³⁺0,5 cmolc/dm³
H+Al4,8 cmolc/dm³
  1. Converta o potássio. 94 dividido por 391 dá 0,24 cmolc/dm³.
  2. Some as bases. 1,2 mais 0,4 mais 0,24 dá 1,84 cmolc/dm³.
  3. Monte o T. Soma de bases mais H+Al: 1,84 mais 4,8 dá 6,64 cmolc/dm³.
  4. Calcule o V1. 1,84 vezes 100, dividido por 6,64, dá 27,7%.
  5. Aplique a fórmula. 50 menos 27,7 dá 22,3. Vezes 6,64, dividido por 100, dá 1,48 t/ha de calcário PRNT 100.
  6. Corrija pelo PRNT. 1,48 vezes 100, dividido por 85, dá 1,74 t/ha do calcário que está na loja.

Leva dois minutos. Se a tela disse 1,7 ou 1,8 t/ha, a diferença é arredondamento e você pode comprar. Se disse 17 t/ha, é unidade. Se disse 0,5 t/ha, é CTC efetiva no lugar da potencial. Se disse 2,1 t/ha, é meta de irrigado numa lavoura de sequeiro.

O teto da conta, o teste de dez segundos

Esse é o atalho que pega erro grosso sem precisar de calculadora nenhuma. Olhe a fórmula: o maior valor que a diferença entre V2 e V1 pode ter é o próprio V2, no caso extremo de um solo com saturação por bases zero. Então:

Dose máxima possível (t/ha) = V2 x T / 100

No laudo do exemplo, com T de 6,64 e meta de 50%, o teto é 3,32 t/ha de PRNT 100, ou 3,91 t/ha do calcário PRNT 85. Nenhuma dose legítima para essa área pode passar disso, nem que o solo fosse estéril. Se a tela devolveu 17 t/ha, não é um solo muito ácido, é uma entrada errada.

Vale lembrar o outro lado da escala: dose acima de 5 t/ha já tem motivo técnico para ser parcelada em duas operações, segundo Sousa e Lobato. Um número de dois dígitos saindo de um latossolo de Cerrado com T na casa de 6 a 8 cmolc/dm³ é quase sempre aritmética, não agronomia.

Onde a sua conta e a da tela vão divergir

Quando os dois números não baterem, investigue nesta ordem, porque cada erro tem uma assinatura própria no tamanho da diferença:

A mesma lógica vale na adubação, com entradas próprias: o teor de nutriente da fonte, a expectativa de rendimento e a conversão de P2O5 para P. O que muda são as entradas, não o método de conferir.

O que essas conferências não cobrem

Elas auditam o cálculo, e só. Amostragem e laboratório são outro assunto, anterior a este. Cálculo impecável sobre amostra mal coletada entrega uma dose exata para um solo que não é o seu, e nenhuma das cinco conferências acima vai acusar isso. Antes de auditar a conta, vale ter certeza de que o laudo é da gleba certa, da camada certa e de uma amostragem representativa.

Com laudo confiável e as quatro entradas visíveis, a decisão sai do terreno da confiança e vira conta. Você refaz, bate, e compra. Para rodar o seu laudo com a memória de cálculo aberta, entrada por entrada, use a calculadora de calagem.

Referências: Sousa, D.M.G.; Lobato, E. Cerrado: Correção do Solo e Adubação. 2 ed. Embrapa, 2004 (Cap. 3, método da saturação por bases, camada de 0 a 20 cm e parcelamento de doses acima de 5 t/ha; Cap. 12, metas de V% por cultura e regime hídrico). Instrução Normativa nº 35/2006, MAPA (define PN, RE e PRNT). Raij, B. van et al. Recomendações de Adubação e Calagem para o Estado de São Paulo, Boletim Técnico 100, IAC (tabelas que já incorporam o PRNT na dose). Raij, B. van. Fertilidade do Solo e Adubação. Ceres, 1991 (equivalentes de carga e conversão de unidades do laudo).

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