Dose econômica de adubo: a dose de maior produtividade não é a de maior lucro
Toda tabela de adubação entrega a dose que faz a lavoura produzir o máximo. Quase nenhuma entrega a dose que faz a lavoura dar o máximo de dinheiro, e as duas não são a mesma. A diferença entre elas é o pedaço do adubo que você compra, aplica, e não recebe de volta.
O ensaio que mostra as duas doses lado a lado
A Embrapa Meio-Norte publicou um experimento de milho em Magalhães de Almeida, no leste do Maranhão, em área de vegetação de cerrado e Latossolo Amarelo distrocoeso de textura média, com a variedade BRS Catingueiro, de teto produtivo perto de 3 t/ha. Foram quatro doses de nitrogênio e quatro de potássio, com a dose técnica e a dose econômica calculadas para cada nutriente (Melo et al., 2021). Guarde o teto de 3 t/ha desde já: se a sua lavoura é de híbrido no Cerrado central, o número do ensaio não é o seu. O método é.
| Nutriente | Dose de máxima produtividade | Produtividade | Dose econômica | Produtividade |
|---|---|---|---|---|
| Nitrogênio | 117 kg/ha de N | 3.019 kg/ha | 54 kg/ha de N | 2.826 kg/ha |
| Potássio | 69 kg/ha de K₂O | 3.004 kg/ha | 50 kg/ha de K₂O | 2.975 kg/ha |
Olhe a linha do nitrogênio com calma. Entre as duas doses de N há um corte de 54% no adubo e de 6,4% na produtividade. São 63 kg/ha de N a menos, o equivalente a 140 kg de ureia, para uma diferença de 193 kg/ha de grão, pouco mais de três sacas.
O mesmo trabalho expressa isso em eficiência: na dose técnica, cada quilo de nitrogênio aplicado correspondeu a 25,8 kg de grão seco. Na dose econômica, a 52,3 kg de grão por quilo de N. O dobro de grão por quilo comprado. Esse índice é a produtividade inteira dividida pela dose, e não o retorno da última parcela aplicada, mas já mostra a direção para onde a eficiência anda quando a dose sobe. Guarde essa distinção, porque ela decide a conta mais adiante.
Como a dose econômica é calculada
O método é o clássico, e é mais simples do que o nome sugere. Ajusta-se uma curva de resposta à dose e procura-se o ponto em que o quilo adicional de nutriente deixa de pagar o quilo adicional de grão. O próprio boletim descreve o procedimento assim: iguala-se a primeira derivada da função de produção à relação entre o preço do adubo nitrogenado e o preço do milho (Stone; Moreira, 2001).
No ensaio, a curva do nitrogênio ficou assim, com X em kg/ha de N e o resultado em kg/ha de grão seco:
Produtividade = 2.308,3 + 12,604 X menos 0,0558 X ao quadrado
O termo negativo é a lei dos retornos decrescentes escrita em números. Ele é o motivo de a curva virar e, depois de certo ponto, cair.
Duas ressalvas de leitura antes de usar essa equação, porque quem confere acha as duas:
- As doses aplicadas no campo foram 0, 60, 120 e 180 kg/ha de N, e 0, 50, 100 e 150 kg/ha de K₂O. Tudo o que estiver entre essas doses, inclusive os 54 e os 117, é ponto da curva ajustada, não média medida em parcela.
- O pico dessa equação está em 113 kg/ha de N, com 3.020 kg/ha, e o boletim reporta 117 kg/ha com 3.019 kg/ha. A curva é quase plana ali em cima: entre os dois pontos há 1 kg de grão de diferença, e nenhuma decisão de lavoura muda com isso. Mas se você derivar a equação e achar 113, o número não está errado, é o pico dela.
Os preços usados foram os da própria fazenda: ureia a R$ 1,45/kg em fevereiro de 2019, cloreto de potássio a R$ 2,78/kg e milho a R$ 43,00 a saca de 60 kg, ou R$ 0,72/kg de grão.
A conta que você faz sem curva nenhuma
Dá para chegar ao critério com duas divisões. Primeiro, quanto custa um quilo de nutriente na sua nota. Ureia a R$ 1,45/kg tem 45% de N, então o quilo de N sai por R$ 3,22. Segundo, quantos quilos de grão esse valor compra. Com o milho a R$ 0,72/kg, são 4,5 kg de grão para pagar 1 kg de N.
Esse número é a sua relação de troca, e ele é o critério. Enquanto o quilo adicional de nitrogênio devolver mais de 4,5 kg de grão, aplicar é lucro. Abaixo disso, é prejuízo com aparência de capricho técnico.
Repare no quilo adicional. O que entra na comparação é o retorno da próxima parcela aplicada, não a média do que já foi aplicado. Na equação do ensaio, o retorno da próxima parcela é 12,604 menos 0,1116 vezes a dose: é a inclinação da curva naquele ponto, e ela encolhe 0,1116 kg de grão a cada quilo de N que você soma. Com isso a conta fica de cabeça:
| Dose já aplicada (kg/ha de N) | Retorno do próximo quilo de N | Veredito a R$ 3,22 o quilo de N |
|---|---|---|
| 0 | 12,6 kg de grão | Paga com folga |
| 54 | 6,6 kg de grão | Ainda paga |
| 73 | 4,5 kg de grão | Empata, hora de parar |
| 113 | zero | Pico da curva, só custo |
Igualando o retorno da próxima parcela aos 4,5 kg que o preço exige, o critério manda parar em 73 kg/ha de N, com 2.931 kg/ha de grão. E em 54 kg/ha o quilo adicional ainda devolve 6,6 kg de grão, acima dos 4,5: pelo critério, nesse ponto você continua aplicando.
Aqui a franqueza vale mais que o número redondo, e é a tese deste post. O boletim publicou 54 kg/ha como dose econômica, e a mesma equação com os preços que ele imprime dá 73 kg/ha. O método descrito é o mesmo, a aritmética desse passo final não aparece no texto, e 54 é o mais conservador dos dois números. Isso não derruba o trabalho, que é sólido e aberto o suficiente para permitir a conferência. Só confirma o que você deveria fazer de todo jeito: rodar a conta na sua lavoura, com a sua curva e a sua nota fiscal. É o critério que se transfere de um ensaio para uma fazenda, não a dose.
Em reais, aos preços do boletim, o trecho entre os dois números: sair de 54 para 73 kg/ha de N custa 19 kg de N, cerca de 42 kg de ureia, R$ 61,20. A curva devolve 105 kg de grão, R$ 75,60. Saldo de R$ 14,40 por hectare, positivo. Quem corta em 54 deixa esse troco na mesa, e é troco pequeno. Continuar de 73 para 117 kg/ha é outra história: custa 44 kg de N, R$ 141,80, para devolver 88 kg de grão, R$ 63,40, uma perda de R$ 78,40 por hectare. É nesse trecho, e não antes dele, que a adubação deixa de se pagar.
E a média do intervalo, por que não serve? Entre 54 e 117 kg/ha a curva indica 193 kg de grão a mais para 63 kg de N a mais, 3,1 kg de grão por quilo de N, abaixo dos 4,5. É tentador concluir que o trecho inteiro é prejuízo, mas a média esconde que ele paga até 73 e só perde depois. Média de intervalo e retorno da última parcela são contas diferentes, e é por isso que o critério se aplica na inclinação da curva, ponto a ponto, e nunca em divisão de totais. Entre zero e 54 kg/ha a curva indica 518 kg de grão a mais, média de 9,6 kg por quilo de N, e nesse trecho as duas contas concordam: paga.
Esse é o mesmo raciocínio que a Embrapa Milho e Sorgo usa para dejeto animal, estabelecendo a quantidade mais econômica pela relação de quilos de milho necessários para pagar um metro cúbico de dejeto aplicado (Konzen, 2003). Muda o insumo, não muda o critério.
Produzir mais e lucrar menos: o caso em reais
Em outra publicação da Embrapa Milho e Sorgo, o modelo CSM-CERES-Maize simulou milho de sequeiro em Sete Lagoas com uma série climática de 49 anos de registros diários, comparando doses de nitrogênio. A dose de 160 kg/ha de N deu a maior produtividade mediana e um prejuízo mediano de R$ 73,30 por hectare. A dose de 90 kg/ha de N, com produtividade menor, deu o maior lucro mediano entre as adubações convencionais, R$ 55,10 por hectare (Amaral et al., 2010).
Os reais são de 2010 e não servem de orçamento. O que serve é a inversão: na mesma área, ao longo dos 49 anos simulados, a dose campeã em produtividade foi a dose perdedora em resultado. São medianas de simulação, não a colheita de um ano, e é por isso que o caso ensina: ele mostra o padrão, não um acidente de safra. Quem mede só saca por hectare nunca vê isso acontecer.
A simulação mostra ainda uma segunda coisa, que o produtor sente e raramente escreve: quanto maior a dose, maior a produtividade média e maior também o risco, expresso pela variância dos resultados. Dose alta é aposta em ano bom. Em ano ruim, você pagou adiantado por um potencial que a chuva não deixou acontecer.
Onde a dose econômica não deve ser seguida
Até aqui a conta trata o adubo como despesa da safra. Para o nitrogênio, que não fica no solo, isso é correto. Para fósforo e potássio, não é, e aí a dose econômica de uma safra vira armadilha.
Repare que no ensaio a dose econômica de potássio, 50 kg/ha de K₂O, é justamente a menor dose testada acima de zero. Perseguir esse mínimo todo ano, em solo que exporta potássio na colheita, descapitaliza a fertilidade: o teor cai devagar, a conta parece boa por três safras e a quarta cobra. Adubação corretiva é investimento com efeito residual, e a conta dela é outra, como mostra quanto custa corrigir um hectare.
Três condições precisam estar de pé para a dose econômica valer:
- A resposta tem que ser da sua área. O ensaio citado usou uma variedade de teto perto de 3 t/ha, em solo coeso do leste maranhense. Em híbrido de 10 t/ha, o patamar e a curva são outros, e as doses não se transferem.
- O preço tem que ser o de hoje. A relação de troca muda a cada safra. Com adubo caro e grão barato, a dose econômica desce. Com adubo barato e grão caro, ela sobe e chega perto da técnica.
- O limitante não pode ser outro. Se a acidez não está corrigida, se o subsolo trava a raiz ou se falta fósforo, a curva de resposta ao nitrogênio é baixa por motivo que não se resolve com nitrogênio. Antes de cortar a dose, confira por que ela está rendendo pouco, em por que o último quilo de nitrogênio rende menos que o primeiro.
Vale lembrar também que dose alta não é só desperdício financeiro. No mesmo ensaio, o teor de nitrogênio na folha continuou subindo até 149 kg/ha de N enquanto a produtividade já caía, o que é consumo de luxo: a planta absorve e guarda, você paga, e o grão não aparece.
O que fazer na prática
- Calcule a dose agronômica pela fórmula da cultura, como em dose de nitrogênio pelo histórico da área.
- Calcule a sua relação de troca com a nota fiscal do adubo e o preço real do grão na sua região. Divida o preço do quilo de nutriente pelo preço do quilo de grão e guarde o resultado: é ele que diz quando parar.
- Monte duas ou três faixas na lavoura com doses diferentes e meça, em vez de adivinhar a curva. O roteiro está em teste de faixa na fazenda.
- Compare faixa com faixa vizinha, nunca a produtividade total dividida pela dose. O que decide é o que a última parcela devolveu, e só a diferença entre duas faixas mostra isso.
- Decida a dose do ano seguinte com o resultado da sua faixa e o preço do seu ano.
A dose que maximiza produtividade é uma informação agronômica. A dose que maximiza resultado é uma decisão sua, e ela depende de dois preços que a tabela de adubação não conhece.
Referências: MELO, F. de B.; BASTOS, E. A.; CARDOSO, M. J.; ANDRADE JÚNIOR, A. S. de. Recomendação de adubações nitrogenada e potássica nas produtividades técnica e econômica de milho. Teresina: Embrapa Meio-Norte, 2021. (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 132). AMARAL, T. A.; ANDRADE, C. L. T. de; DUARTE, J. de O.; GARCIA, J. C.; SILVA, D. de F. Utilização do modelo CSM-Ceres-Maize como ferramenta de auxílio à tomada de decisão em um sistema de produção utilizando cama de frango como fonte alternativa de nitrogênio. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2010. (Circular Técnica, 152). KONZEN, E. A. Fertilização de lavoura e pastagem com dejetos de suínos e cama de aves. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2003. (Circular Técnica, 31). STONE, L. F.; MOREIRA, J. A. A. Resposta do feijoeiro ao nitrogênio em cobertura, sob diferentes lâminas de irrigação e preparos do solo. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 36, n. 3, p. 473-481, 2001.
Aplica esse conhecimento no seu próprio laudo
Cola seu laudo no SoloLab e recebe calagem, gessagem e adubação NPK calculadas pra sua cultura, com a memória de cálculo aberta. Grátis, sem limite de laudos.
Calcular meu laudo agoraOu vá direto pra Calculadora de adubação NPK.