Bactéria solubilizadora de fósforo: dá para cortar a dose de P?
A pergunta chega pronta do campo: se a bactéria solubiliza o fósforo que está preso no solo, posso usar o inoculante e aplicar menos adubo fosfatado? A resposta existe, tem número brasileiro por trás e é mais específica do que o sim ou o não que o folheto sugere.
O que o produto é
O inoculante desenvolvido pela Embrapa Milho e Sorgo para essa função contém duas cepas de bactéria selecionadas em quase vinte anos de trabalho com microrganismos solubilizadores de fosfato: Bacillus subtilis CNPMS B2084 e Bacillus megaterium CNPMS B119 (Oliveira et al., 2020). As duas trabalham de formas diferentes, o que explica a escolha da mistura:
- A cepa B119 foi isolada da rizosfera de milho, solubiliza fosfatos de cálcio e de rocha e produz fosfatase.
- A cepa B2084 é endofítica, solubiliza fosfato de cálcio e de ferro, e tem alta produção de ácido glucônico e da enzima fitase (Oliveira et al., 2020).
A aplicação validada é via tratamento de semente, na dose de 100 mL/ha (Oliveira Paiva et al., 2020). Não é adubo, não entra no sulco como fonte, não aparece na garantia de P₂O₅ de nada. É inoculante.
O que ele entregou com a dose cheia de fósforo
Este é o dado mais importante da discussão, e é o que quase nunca é dito: os ganhos divulgados foram medidos em áreas que receberam a adubação fosfatada conforme a recomendação local, e não em áreas com dose reduzida (Oliveira Paiva et al., 2020).
| Cultura | Unidades de observação | Ganho médio | Ganho em sacas | Custo da aplicação (julho de 2020) |
|---|---|---|---|---|
| Milho | 37 | 8,6% (1,4 a 29,4%) | 11,9 sc/ha | 1,7 sc/ha |
| Soja | 181 | 6,3% (0,3 a 18,5%) | 4,3 sc/ha | 0,7 sc/ha |
Os dados são das safras 2018/2019 e 2019/2020, em lavouras comerciais na Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Oliveira et al., 2020). O ganho médio foi sete vezes o custo da aplicação no milho e 6,1 vezes na soja. Essa conta usou o inoculante a R$ 700,00 por litro no distribuidor, a dose de 100 mL/ha e a cotação média da saca em julho de 2020 (Oliveira et al., 2020), então a relação muda quando muda o preço do inoculante ou o preço da saca. No milho, todos os 37 locais tiveram produtividade maior na área inoculada. Na soja, 175 dos 181 locais tiveram ganho maior que o custo, o que significa que seis não tiveram.
Repare na amplitude. Na soja, o ganho variou de 0,3% a 18,5%. Média de catálogo e resultado de talhão são coisas diferentes, e a própria Embrapa registra que os ganhos variam com o local e com o tipo de solo (Oliveira et al., 2020). Essa variação é o motivo pelo qual a decisão final não sai de uma tabela nacional.
E a dose de fósforo, pode cair?
Existe um ensaio brasileiro de milho que testou exatamente isso. Em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e em Palotina, no Paraná, com o híbrido 30F53, foram comparados quatro tratamentos: sem adubação fosfatada, com 50% da dose recomendada, com 100% da dose recomendada, e com 50% da dose recomendada mais a inoculação das duas cepas (Oliveira Paiva et al., 2020).
O resultado: na mesma dose de 50% do fósforo recomendado, a inoculação aumentou a produtividade de grãos de milho em 27,7% em Santa Maria e 28,7% em Palotina (Oliveira Paiva et al., 2020). É um efeito grande, e é justamente o tipo de número que vira argumento de venda apressado.
Antes de cortar metade do fosfatado da sua fazenda em cima disso, três ressalvas que estão na própria publicação:
- São dois locais, nenhum deles no Cerrado, e o ensaio é de milho. Santa Maria e Palotina estão no Sul, com solo e mineralogia diferentes dos Latossolos oxídicos do Cerrado, onde a adsorção de fósforo é mais forte. O tamanho da fixação muda o jogo, como está em por que você aplica fósforo e a planta não absorve. E se você planta soja, repare: nessa publicação não existe ensaio de dose reduzida de P com o inoculante em soja. O que foi medido em soja foi o ganho com a dose cheia, aquele da tabela acima.
- A comparação é com a mesma dose reduzida, não com a dose cheia. O ganho de 27,7% é sobre o tratamento com 50% de P sem inoculante. Dizer que o inoculante repõe a metade cortada exige a comparação direta com o tratamento de 100%, que não é o número divulgado.
- A redução ainda não está recomendada no Brasil. A redução de 33% a 50% da adubação fosfatada com inoculação de microrganismos solubilizadores aparece em estudos conduzidos em outros países. Sobre o caso brasileiro, a Embrapa escreve que o acesso às reservas de P no solo e a redução da adubação fosfatada com o uso do inoculante precisam ser avaliados com critério, em função da adubação e do tipo de solo (Oliveira et al., 2020).
Por onde o efeito passa
O mecanismo relatado não é mágica de teor no laudo. As cepas estimulam aumento de superfície e área radicular, produzem raízes mais finas, ácido indol-acético, sideróforos e biofilme, e promovem solubilização localizada na rizosfera (Oliveira et al., 2020). Em estudos da Embrapa houve incremento em torno de 19% na exportação de fósforo pelos grãos, o que ajuda a explicar o ganho de produtividade.
Ou seja: a planta busca melhor o fósforo que está lá, incluindo o do adubo recém-aplicado. Isso aumenta a eficiência da adubação, não dispensa a adubação. É a mesma lógica da simbiose descrita em micorrizas: o inoculante que quase ninguém usa, e é bem diferente da promessa de liberar o fósforo fixado acumulado de safras passadas.
Como decidir na sua área
A decisão prática se divide em duas, e elas têm respostas diferentes:
| Decisão | O que os dados sustentam |
|---|---|
| Usar o inoculante mantendo a dose recomendada de P | Sustentado por 37 áreas de milho e 181 de soja, com ganho médio de 7 e 6,1 vezes o custo na base de preço de julho de 2020 |
| Usar o inoculante e cortar a dose de P | Testado em dois locais no Sul, só na cultura do milho. A própria Embrapa pede avaliação com critério antes de generalizar |
Se você quer testar a redução, teste na sua área e não na planilha. As avaliações comerciais da Embrapa usaram áreas homogêneas de 20 hectares, com metade inoculada e metade não, colhidas em faixas separadas (Oliveira Paiva et al., 2020). É um desenho que qualquer fazenda consegue repetir, e o roteiro está em teste de faixa na fazenda: como saber se o adubo pagou. Deixe a faixa com dose cheia, a faixa com dose cheia mais inoculante e a faixa com dose reduzida mais inoculante, na mesma gleba e com a mesma colhedora.
E o que não muda: inoculante nenhum substitui acidez corrigida nem adubação corretiva de fósforo em solo com teor baixo. Antes de olhar o bioinsumo, o laudo precisa dizer em que etapa você está, assunto de adubação corretiva ou de manutenção.
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Referências: OLIVEIRA, C. A. de; COTA, L. V.; MARRIEL, I. E.; GOMES, E. A.; SOUSA, S. M. de; LANA, U. G. de P.; SANTOS, F. C. dos; PINTO JUNIOR, A. S.; ALVES, V. M. C. Viabilidade técnica e econômica do BiomaPhos (Bacillus subtilis CNPMS B2084 e Bacillus megaterium CNPMS B119) nas culturas de milho e soja. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2020. (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 210). OLIVEIRA PAIVA, C. A. de et al. Recomendação agronômica de cepas de Bacillus subtilis (CNPMS B2084) e Bacillus megaterium (CNPMS B119) na cultura do milho. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2020. (Circular Técnica, 260).
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