Operador perfurando o solo com trado motorizado em campo aberto
Prática

Como coletar amostra de solo do jeito certo

Uma amostra composta de 500 gramas representa, na camada de 0 a 20 cm de um hectare, algo perto de 2.400 toneladas de solo. Toda a adubação e toda a calagem daquela área vão ser decididas por esse punhado de terra. O laboratório analisa com precisão o que recebe, e é exatamente por isso que o erro de coleta não aparece em lugar nenhum do laudo: ele vira número bonito, com duas casas decimais, apontando para a recomendação errada.

Amostragem é a etapa mais barata do processo e a única que ninguém consegue refazer depois. Este é o passo a passo de campo.

1. Divida a área em glebas homogêneas

Uma amostra composta representa uma gleba, e gleba não é sinônimo de talhão. É o pedaço de área que se comporta como uma coisa só. O que obriga a separar:

O limite prático é de 10 hectares por amostra composta em área heterogênea, e até 20 hectares em área realmente uniforme. Acima disso a média deixa de descrever qualquer ponto da gleba.

Anote ou desenhe o contorno de cada gleba e guarde. Sem o mesmo contorno no ano que vem, você não tem série histórica, tem laudos soltos, e comparar laudos de anos diferentes vira exercício de adivinhação. Quem já tem mapa de produtividade da colhedora pode dar um passo além e avaliar amostragem em malha ou por zona de manejo.

2. Vinte subamostras por gleba, em zigue-zague

O número não é folclore. A variabilidade natural do solo é alta, e o erro da média cai com a raiz quadrada do número de pontos: sair de 5 para 20 subamostras corta o erro pela metade. Dobrar de novo exigiria 80 pontos, e o ganho não paga o dia de serviço. Vinte é o ponto onde a conta fecha.

Caminhe em zigue-zague cobrindo a gleba inteira, e não uma faixa ou a volta da beirada. Os pontos precisam ser tirados no passo, sem escolha: a hora em que o amostrador decide parar "onde a soja está bonita" (ou onde está feia) é a hora em que a amostra deixa de representar a área e passa a representar a opinião dele.

3. Onde não coletar

Estes pontos existem na área e não representam a área. Pular todos eles:

Uma ressalva importante: se a mancha é grande e se repete, ela não é ponto para pular. Ela é outra gleba, e merece a própria amostra.

4. Trado, sonda ou pá

O que a ferramenta precisa garantir é volume igual em todos os pontos. Trado holandês e sonda de amostragem fazem isso sozinhos. Pá de corte serve, desde que você abra o buraco e retire uma fatia de espessura uniforme da parede, de cima a baixo. O erro clássico é tirar uma cunha, mais grossa em cima: como fósforo e potássio se concentram nos primeiros centímetros, a cunha superestima os dois de forma sistemática. Enxadão não serve para nada disso.

Dois cuidados que passam despercebidos:

5. Profundidade

SituaçãoCamada 1Camada 2
Anuais (soja, milho, algodão)0 a 20 cm20 a 40 cm, para decidir gessagem
Pastagem0 a 10 cm10 a 20 cm
Café, citros e perenes0 a 20 cm20 a 40 cm e 40 a 60 cm
Área de abertura ou pastagem degradada0 a 20 cm20 a 40 cm, sempre

A regra que não tem exceção: um balde por camada. Misturar 0 a 20 com 20 a 40 no mesmo recipiente parece erro de principiante e é o mais comum a campo, normalmente no fim do dia. A camada profunda tem uma decisão própria e específica, que é a do gesso agrícola, e o motivo de ela existir está em profundidade de amostragem. Cana é o caso que mais foge do padrão e tem camadas próprias.

6. Misturar e tirar os 500 gramas

Junte as 20 subamostras num balde plástico limpo (não o que carregou calcário de manhã). Destorroe com a mão, tire raiz, pedra, folha e torrão inteiro, e misture até a cor ficar uniforme.

Para retirar os 500 g, o quarteamento é melhor do que encher a concha: espalhe a terra numa superfície limpa, divida em quatro partes, descarte duas opostas, junte as outras duas e repita até sobrar o volume do saco. Concha mergulhada no balde pega preferencialmente o que assentou.

Se a terra estiver molhada, seque à sombra antes de ensacar. Terra úmida em saco fechado fermenta, e isso mexe no nitrogênio e no pH. Sol direto e estufa também alteram o resultado: sombra e ar.

7. Identifique na hora da coleta

Etiqueta escrita depois, na caminhonete, é etiqueta trocada. Escreva no saco com caneta permanente, na hora, com quatro informações: fazenda, gleba, profundidade e data. Saco sem a profundidade é amostra descartada, porque não existe como recuperar essa informação depois.

Anote também, à parte, o que você quer que o laboratório analise. Análise de rotina não inclui micronutrientes, enxofre nem textura por padrão; se você precisa desses números, precisa pedir.

8. Quando amostrar

De 60 a 90 dias antes do plantio. Esse prazo não é para o laboratório, é para você: o laudo volta, a compra é feita e o calcário ainda tem tempo de reagir. Quem amostra na semana da adubação já perdeu a janela do corretivo.

Duas regras que valem mais do que a data exata: amostre sempre na mesma época do ano, porque a mesma área amostrada em momentos diferentes entrega laudos diferentes; e não amostre logo depois de aplicar calcário ou adubo, esperando pelo menos 90 dias. O detalhe de cada situação está em a época certa de amostrar.

9. Escolher o laboratório e ler o que voltou

Use o mesmo laboratório ao longo dos anos, e prefira os que participam de programa interlaboratorial de qualidade. Extrator e método mudam o número sem que ninguém tenha errado, e é por isso que dois laboratórios dão resultados diferentes para a mesma terra.

Quando o laudo chegar, a primeira coisa a conferir é a unidade de cada linha, que muda de laboratório para laboratório e é o erro mais caro e mais discreto do laudo. Depois disso, vale ir coluna por coluna com o guia de leitura do laudo.

Os seis erros que invalidam a amostra

  1. Uma amostra para área heterogênea, ou área grande demais por amostra.
  2. Menos de 20 subamostras, ou pontos concentrados numa faixa da gleba.
  3. Coletar em carreador, cabeceira, formigueiro ou onde ficou pilha de adubo.
  4. Profundidade irregular, ou duas camadas no mesmo balde.
  5. Balde ou trado galvanizado em amostra que vai analisar micronutriente.
  6. Saco sem identificação de gleba e de profundidade.
A amostra é o único dado de entrada de tudo o que vem depois. Cada erro cometido nela é copiado, sem aviso, para a recomendação de calcário, de gesso e de adubo daquele ano inteiro.

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