Como coletar amostra de solo do jeito certo
Uma amostra composta de 500 gramas representa, na camada de 0 a 20 cm de um hectare, algo perto de 2.400 toneladas de solo. Toda a adubação e toda a calagem daquela área vão ser decididas por esse punhado de terra. O laboratório analisa com precisão o que recebe, e é exatamente por isso que o erro de coleta não aparece em lugar nenhum do laudo: ele vira número bonito, com duas casas decimais, apontando para a recomendação errada.
Amostragem é a etapa mais barata do processo e a única que ninguém consegue refazer depois. Este é o passo a passo de campo.
1. Divida a área em glebas homogêneas
Uma amostra composta representa uma gleba, e gleba não é sinônimo de talhão. É o pedaço de área que se comporta como uma coisa só. O que obriga a separar:
- Textura e tipo de solo. Mancha arenosa dentro de área argilosa é outra gleba, não um detalhe.
- Relevo. Baixada acumula água, matéria orgânica e nutriente que desceram da encosta. Topo e baixada no mesmo balde produzem uma média que não existe em campo nenhum.
- Histórico. Área recém-aberta e área corrigida há quinze anos; antiga pastagem e antiga lavoura; pedaço que recebeu calcário no ano passado e pedaço que não recebeu.
- Produtividade percebida. Se você já sabe que aquele canto sempre rende menos, ele merece diagnóstico próprio, e não diluição na média.
O limite prático é de 10 hectares por amostra composta em área heterogênea, e até 20 hectares em área realmente uniforme. Acima disso a média deixa de descrever qualquer ponto da gleba.
Anote ou desenhe o contorno de cada gleba e guarde. Sem o mesmo contorno no ano que vem, você não tem série histórica, tem laudos soltos, e comparar laudos de anos diferentes vira exercício de adivinhação. Quem já tem mapa de produtividade da colhedora pode dar um passo além e avaliar amostragem em malha ou por zona de manejo.
2. Vinte subamostras por gleba, em zigue-zague
O número não é folclore. A variabilidade natural do solo é alta, e o erro da média cai com a raiz quadrada do número de pontos: sair de 5 para 20 subamostras corta o erro pela metade. Dobrar de novo exigiria 80 pontos, e o ganho não paga o dia de serviço. Vinte é o ponto onde a conta fecha.
Caminhe em zigue-zague cobrindo a gleba inteira, e não uma faixa ou a volta da beirada. Os pontos precisam ser tirados no passo, sem escolha: a hora em que o amostrador decide parar "onde a soja está bonita" (ou onde está feia) é a hora em que a amostra deixa de representar a área e passa a representar a opinião dele.
3. Onde não coletar
Estes pontos existem na área e não representam a área. Pular todos eles:
- Carreador, cabeceira e manobra de máquina. Solo compactado e adubo derramado.
- Faixa de 20 a 30 metros da estrada, da cerca e do aceiro.
- Terraço, curva de nível e sulco de erosão.
- Formigueiro, cupinzeiro e cova de tronco queimado. Concentram nutriente numa escala que distorce a composta inteira.
- Mancha de esterco, de urina e ponto de descanso do gado, em pastagem.
- Onde ficou pilha de calcário ou de adubo, mesmo que tenha sido há anos.
- A linha de adubação da safra anterior, onde não houve revolvimento. Em plantio direto, linha e entrelinha são dois solos químicos diferentes, e a proporção entre elas precisa de critério próprio, explicado em amostragem em plantio direto.
Uma ressalva importante: se a mancha é grande e se repete, ela não é ponto para pular. Ela é outra gleba, e merece a própria amostra.
4. Trado, sonda ou pá
O que a ferramenta precisa garantir é volume igual em todos os pontos. Trado holandês e sonda de amostragem fazem isso sozinhos. Pá de corte serve, desde que você abra o buraco e retire uma fatia de espessura uniforme da parede, de cima a baixo. O erro clássico é tirar uma cunha, mais grossa em cima: como fósforo e potássio se concentram nos primeiros centímetros, a cunha superestima os dois de forma sistemática. Enxadão não serve para nada disso.
Dois cuidados que passam despercebidos:
- Ferramenta e balde galvanizados contaminam a amostra com zinco. Se o laudo vai incluir micronutrientes, o material tem que ser plástico ou aço inox. Balde de zarcão ou de tinta também está fora.
- Marque a profundidade na haste com fita e confira a marca a cada dez pontos. Em solo seco a sonda não entra até a marca; em solo solto entra demais. Nos dois casos o volume coletado deixa de ser o nominal, e o laudo erra sem avisar.
5. Profundidade
| Situação | Camada 1 | Camada 2 |
|---|---|---|
| Anuais (soja, milho, algodão) | 0 a 20 cm | 20 a 40 cm, para decidir gessagem |
| Pastagem | 0 a 10 cm | 10 a 20 cm |
| Café, citros e perenes | 0 a 20 cm | 20 a 40 cm e 40 a 60 cm |
| Área de abertura ou pastagem degradada | 0 a 20 cm | 20 a 40 cm, sempre |
A regra que não tem exceção: um balde por camada. Misturar 0 a 20 com 20 a 40 no mesmo recipiente parece erro de principiante e é o mais comum a campo, normalmente no fim do dia. A camada profunda tem uma decisão própria e específica, que é a do gesso agrícola, e o motivo de ela existir está em profundidade de amostragem. Cana é o caso que mais foge do padrão e tem camadas próprias.
6. Misturar e tirar os 500 gramas
Junte as 20 subamostras num balde plástico limpo (não o que carregou calcário de manhã). Destorroe com a mão, tire raiz, pedra, folha e torrão inteiro, e misture até a cor ficar uniforme.
Para retirar os 500 g, o quarteamento é melhor do que encher a concha: espalhe a terra numa superfície limpa, divida em quatro partes, descarte duas opostas, junte as outras duas e repita até sobrar o volume do saco. Concha mergulhada no balde pega preferencialmente o que assentou.
Se a terra estiver molhada, seque à sombra antes de ensacar. Terra úmida em saco fechado fermenta, e isso mexe no nitrogênio e no pH. Sol direto e estufa também alteram o resultado: sombra e ar.
7. Identifique na hora da coleta
Etiqueta escrita depois, na caminhonete, é etiqueta trocada. Escreva no saco com caneta permanente, na hora, com quatro informações: fazenda, gleba, profundidade e data. Saco sem a profundidade é amostra descartada, porque não existe como recuperar essa informação depois.
Anote também, à parte, o que você quer que o laboratório analise. Análise de rotina não inclui micronutrientes, enxofre nem textura por padrão; se você precisa desses números, precisa pedir.
8. Quando amostrar
De 60 a 90 dias antes do plantio. Esse prazo não é para o laboratório, é para você: o laudo volta, a compra é feita e o calcário ainda tem tempo de reagir. Quem amostra na semana da adubação já perdeu a janela do corretivo.
Duas regras que valem mais do que a data exata: amostre sempre na mesma época do ano, porque a mesma área amostrada em momentos diferentes entrega laudos diferentes; e não amostre logo depois de aplicar calcário ou adubo, esperando pelo menos 90 dias. O detalhe de cada situação está em a época certa de amostrar.
9. Escolher o laboratório e ler o que voltou
Use o mesmo laboratório ao longo dos anos, e prefira os que participam de programa interlaboratorial de qualidade. Extrator e método mudam o número sem que ninguém tenha errado, e é por isso que dois laboratórios dão resultados diferentes para a mesma terra.
Quando o laudo chegar, a primeira coisa a conferir é a unidade de cada linha, que muda de laboratório para laboratório e é o erro mais caro e mais discreto do laudo. Depois disso, vale ir coluna por coluna com o guia de leitura do laudo.
Os seis erros que invalidam a amostra
- Uma amostra para área heterogênea, ou área grande demais por amostra.
- Menos de 20 subamostras, ou pontos concentrados numa faixa da gleba.
- Coletar em carreador, cabeceira, formigueiro ou onde ficou pilha de adubo.
- Profundidade irregular, ou duas camadas no mesmo balde.
- Balde ou trado galvanizado em amostra que vai analisar micronutriente.
- Saco sem identificação de gleba e de profundidade.
A amostra é o único dado de entrada de tudo o que vem depois. Cada erro cometido nela é copiado, sem aviso, para a recomendação de calcário, de gesso e de adubo daquele ano inteiro.
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